Numa noite, durante o jantar, meu avô deu a notícia. Ele e D. Zilda iriam amigar-se. Não era de bom tom que dois senhores como eles se casassem na igreja. Bastava passar no cartório e admitir uma união estável. Mas iria ter um almoço de comemoração, um almoço com pessoas da alta sociedade.
Então, dois meses depois, num dos clubes que éramos sócios, eles se casaram. Foi uma festa discreta e para convidados selecionados. Mas ninguém esperava que a família da noiva ficasse tão contrariada. A filha mais velha começou com um discurso de “como nosso pai era um homem íntegro e o noivo vai ter dificuldade superando-o” o do meio disse que “a mãe tinha o direito de fazer o que quisesse desde que não manchasse a memória do pai deles” e a caçula disse simplesmente que “isso era moralmente errado mais que por ser filha não podia fazer nada pra impedir.”
Eu toquei de leve com a faca na taça e disse: “Pois eu gostaria de propor um brinde.” Todos levantaram as taças. “A você Sônia (mais velha) que você consiga perceber que meu avô, ao contrário do seu pai, está vivo e faz sua mãe feliz, e mais, é um homem íntegro e se você tentasse conhecê-lo saberia disso. A você Eugênio, que você descubra que ao não querer que ninguém dê pitaco na sua vida você abre mão do direito de dar pitaco na vida alheia também. E você Carolina, que você pense bem antes de fazer discurso moralista, pois todos nós sabemos que você abortou o filho do seu motorista. Que todos vocês amem uma vez, mas uma vez apenas. A todos vocês um brinde.” E sorrindo tomei minha taça até o último gole.
É claro que depois disso o clima pesou. Meu vô não sabia se pedia desculpas ou se enfiava a cara no bolo. Mas os três saíram. Minha mãe, claro, veio me alugar. “Você tá doida? Pra que fez isso.” “Não pareceu óbvio? Pra defender meu avô.” E saí dali. Fui passear no clube, fumar um pra me acalmar. Com certeza no outro dia ia ser a fofoca da cidade. “Neta de pobretão estraga festa de casamento falando mal de nobres pessoas da alta sociedade.”
Meu vô veio falar comigo, nem me dei ao trabalho de esconder o baseado. Ele sentou-se do meu lado, acendeu seu bali hai e disse: “Que festa hein?” e depois de um tempo “Que é isso que você tá fumando? É maconha?” “É sim.” “Nossa, faz muito tempo que não fumo isso.” Passei-lhe o cigarro. Ele deu uma tragada e disse: “Ah meus vinte anos” “O senhor tá com raiva de mim vô?” “Raiva não, só triste.” “Desculpa, mas não deu mais pra agüentar.” “Eu sei.” E depois de um trago disse sorrindo “Mas da próxima vez fala com cada um em particular.”
Fui pedir desculpas a D. Zilda. “Eu que peço desculpas a você.” disse ela. “Você só achou que precisava me defender porque não defendi a mim mesma.” Quando voltamos à festa (eu e o vô ligeiramente altos pelo baseado) tudo parecia esquecido. Exceto pelos olhares fuzilantes das três fúrias tudo correu as mil maravilhas. Teve foto com as taças entrelaçadas, valsa e jogada de buquê.
Eu saí de perto, não queria mesmo será próxima a casar. Mas o melhor da festa foi quando eu e o vô dançamos “I will survive”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário