quinta-feira, 11 de março de 2010

Corazón Partío

As férias de julho chegaram. E com elas muitos passeios. Claro que eu não poderia deixar de ir no meu antigo interior. Visitar o tio que ainda morava na cidade. Ele morava sozinho, mas sempre tinha amigos por lá. Bebendo, fazendo churrasco, assistindo jogos.

Ele me recebeu com um grande abraço quando cheguei. “Arrumei um quarto só pra você.” Tirou a coleção de rádios antigos do quarto e pintou a parede de um rosa bem claro. “Ah comprei uma escova de dente pra você.” Tinha gliter nela. Meu tio achava que eu era uma garota de dezesseis anos como outra qualquer.

Anoite fomos a uma lanchonete comer pastel. De longe vi o Roberth que passava de mãos dadas com uma garota. Acompanhei, mesmo sem querer, os dois com o olhar. Meu tio notou e disse: “Eles casaram. A Virgínia está grávida. Eu fui ao casamento deles.” Aquilo me atingiu como uma bigorna. Meu lindo Roberth estava casado e ia ser pai. Terminei meu pastel à força.

Mais tarde estávamos na calçada escutando música. Eu, meu tio e os amigos dele. Um deles, chamado Denis, notou que eu estava triste e veio me consolar. “Porque você tá tão bege, princesa?” “Eu não estou bege, estou azul.” Por um acaso do destino o som começou a tocar Kozmic Blues, a música que embalou meu último momento romântico com o Roberth, quase exatamente um ano antes. Baixei a cabeça e comecei a chorar ali mesmo.

Acho que ninguém notou, e se notou não falou nada. Relembrei o belo sorriso que iluminava minha alma, do jeito sempre carinhoso e gentil com que ele falava, do corpo forte onde me aninhei muitas vezes. Lembrei dos beijos, das carícias e das estrelas que contávamos no céu. Nada mais podia ser meu. Outra qualquer detinha esse privilégio. Outra que não eu.

É claro que não sou ingênua ou egoísta de achar que ele não podia seguir em frente sem mim. Eu morava em outra cidade, tinha outra vida com outros caras. Eu sabia que ele iria seguir em frente e esquecer de mim. Só não sabia que seria tão rápido. E tão doloroso.

Quase meia noite, depois de recuperada, vi despontar na esquina aquela silhueta que eu conhecia tão bem. Me levantei de súbito. Ele se aproximou e disse: “Eu sei que já te contaram.” E me entregou um papel. Depois segurou meu rosto carinhosamente com as duas mãos e disse: “Nunca vou te esquecer, viu?” E me deu um beijo na testa. Depois disso foi embora.

Entrei em casa. Queria aproveitar bem esse momento. O que teria ele escrito pra mim? Deitei na cama e abri o envelope. Li essas palavras: Posso te falar dos sonhos, das flores, de como a cidade mudou. Posso te falar do medo, do meu desejo, do meu amor... Posso falar da tarde que cai e aos poucos deixa ver, no céu a lua que um dia eu te dei...

Sorri. E uma lágrima caiu pelo meu roso. Nos vimos mais algumas vezes nesse feriado. Me apresentou a futura esposa, ela, como ele, também tinha dezessete anos. Estava grávida de três meses. Conversamos como amigos e apenas isso. Na verdade a amizade era a essência do nosso relacionamento. Éramos amigos antes de qualquer coisa. Continuamos assim, sem considerar o desvio.

Nenhum comentário: