quinta-feira, 25 de março de 2010

Apolo e Dionísio

Na aula de tetro conheci dois carinhas muito legais. Tinham acabado de se mudar e eram filho de uma cantora famosa. Os dois eram gêmeos idênticos, mas como sempre, diferente na personalidade. Mas duas personalidades bem rock and roll. André tinha um estilo bem skatista, com blusões folgados e boné. Gostava mais de hardcore e tinha vários brincos nas duas orelhas, além de um piercing transversal. André, quando não saía com o irmão, andava de moto.

Átila era mais rock and roll. Tinha o cabelo vermelho, cavanhaque e também um piercing transversal (os dois colocaram no mesmo dia). Escutava músicas nos estilos de David Bowie e Led Zeppelin, tinha um Del Rey vermelho e tatuagem. Usava também calças frouxas, mas as blusas geralmente eram regatas. Átila era mais conversador e sedutor. André era um pouquinho mais tímido, mas ainda assim um sedutor também.

Nos exercícios de teatro aprendemos que existem dois tipos de ator. Um que cria através da técnica: Apolo, e outro que cria através das emoções: Dionísio. André era Apolo, mais centrado, mais estudioso, mais observador. Átila era Dionísio, mais sagaz, impetuoso e cheio de lábia. Não só nas criações teatrais, mas na maneira de viver também.

Os dois se completavam e tinham uma ligação que beirava a paranormalidade. Um dia, conversava a sós com André na portaria do colégio quando ele, do nada, tomou um susto. Ficou até pálido. Minutos depois Átila chegou comentando: “Nossa, um carro ia me atropelando ali na esquina, levei o maior susto.” Outra vez, só pra provar que tinham mesmo essa ligação inexplicável, Átila pegou o celular do bolso e disse: “o André liga já.” E começou brincar como se fizesse um feitiço. Exatamente três minutos depois o telefone tocou deixando todos nós assustados. No outro lado da linha? André. Também gostavam de terminar as frases um do outro. E quando precisavam chutar uma resposta nas provas sempre chutavam a mesma resposta. Até em questões subjetivas.

Começamos a ficar muito amigos. Amizade pura e simples. Conversávamos sobre tudo. Ficas, família, sexo, música e dor de cotovelo. Depois de uns três meses de aula eles vieram estudar na minha sala. Então nossa amizade ficou ainda mais forte. Descobri que tinham perdido um ano de escola pelas viagens da mãe.

André um dia me viu lendo um revista na sala, mandou um bilhete perguntando sobre o que eu estava lendo. Depois que respondi passou o bilhete pro Átila, que devolveu com mais questionamentos. A partir desse dia começamos a conversar na aula por bilhetes. Sempre que estávamos com tédio mandávamos uma pergunta cabeluda pros outros dois responderem.

As pessoas estranhavam que uma menina fosse tão amiga de dois meninos. Meninas tem que ter melhores amigas, não amigos. Mas me sentia muito mais confortável com eles. Depois da aula, quando não tinha treino, nem dança, íamos à praia. Tirávamos o uniforme e tomávamos banho no mar. Eu de calcinha e sutiã, eles de cueca. André usava samba-canção, Átila preferia box.

Os dois também eram músicos. Átila tocava baixo e André bateria. Michele começou a tocar guitarra (pessimamente, diga-se de passagem), eu virei vocalista e começamos uma banda chamada John Bender. É claro que ela se jogou em cima deles. Mas eu não tinha ciúmes. Ela estava numa fase de beijar e jogar fora, e eu não queria que ela fizesse isso com eles. Os dois eram caras muito legais, não mereciam esse tipo de coisa.

Mas aparentemente eles também só queriam beijar e jogar fora, porque ela só ficou uma vez com cada um. Não sei o que mais rolou. Eles nunca disseram apesar da minha insistência em perguntar. Ela também nunca abriu a boca, e comecei a suspeitar que eles tivessem ficado os três ao mesmo tempo.

Nós também tivemos um caso a três. Mas já tínhamos terminado o colegial. E não foi ao mesmo tempo. Mas foi no mesmo período. Só que essa é outra história.

Nenhum comentário: