sábado, 6 de março de 2010

In Omnia Paratus

No meu aniversário de 16 recebi uma misteriosa carta no colégio. Fui almoçar e quando voltei havia um envelope (sem remetente ou destinatário) azul com uma fita prateada no meu armário. O lacre de cera branca tinha um pequeno brasão com quatro desenhos. Uma taça, o encontro entre símbolo do masculino e do feminino, um garfo e um charuto, embaixo lia-se a frase In Omnia Paratus. Fui à biblioteca e procurei na internet o que queria dizer. Frase em latim que se traduz: Pronto pra tudo.

E eu era exatamente o tipo de pessoa pronta pra tudo. Na carta dizia que eu havia sido selecionada pra fazer parte de um grupo seleto de apreciadores dos prazeres da vida. Se quisesse aceitar escrevesse num papel “Eu aceito.”, colocasse no mesmo envelope e deixasse no meu armário, que novas instruções seriam entregues.

Coloquei o papel no armário e fui pra casa. No outro dia o envelope estava lá, mas havia outra carta dentro. Eram sete folhas com um enorme contrato onde eu deveria assinar dizendo que não contaria sobre aquilo, ou o que acontecesse mais à frente para ninguém, nem sob tortura. Assinei e coloquei no mesmo canto.

Mais um dia e recebi uma nova carta e uma sacola de veludo azul. Quando abri tinha uma máscara veneziana dentro. A máscara cobria da bochecha até parte da cabeça, deixava apenas o nariz e a boca de fora. “Nosso encontro será na próxima sexta-feira dia 12/03/01 às 23 horas, use a máscara para entrar no prédio. Será pedida uma senha, diga a frase. É terminantemente proibido o uso da máscara fora da reunião. Na reunião a máscara deverá ser usada o tempo todo até no toalete. Crie um nome para usar na reunião, você será conhecida por ele e somente por ele. É proibida a troca de informações pessoais.”

A carta seguia com o endereço. E com a frase “Bem vinda e feliz aniversário.” O que me fez ter certeza de que a carta era mesmo pra mim. Quando a sexta chegou fui ao local especificado. Uma grande mansão, um pouco afastada da cidade, com um grande portão. Antes de descer do táxi coloquei a máscara. Cheguei ao grande portão de ferro. Um segurança negro de quase dois metros perguntou: “Senha?” “In Omnia Paratus”

O portão abriu e eu entrei. Caminhei por um grande jardim e vi algumas outras pessoas mascaradas passeando por ele. Cheguei à porta da casa. Um grande salão luxuosamente decorado, com móveis antigos e tapeçarias. Ninguém pareceu notar que eu acabava de chegar. E não tinha como encontrar ninguém conhecido. Um rapaz com uma máscara de nariz bem comprido me ofereceu uma taça com vinho. “Qual seu nome?” “Lucíola, e o seu?” “Gambit.”

Nesse momento um senhor, com uma máscara bem mais luxuosa que a dos outros, apareceu no topo da escada. “Senhoras e senhores, boa noite. Para aqueles que chegam pela primeira vez vou dizer do que nossa festa se trata. Somos adoradores de Baco. E aqui cultuamos sem medo o que há de bom na vida. A bebida, o amor, a comida e a fumaça.” Nesse momento a maioria dos convidados disse junto a ele em coro: “Aqui são permitidas todas as fumaças usadas com discrição, todos os amores que tiverem consentimento, todas as comidas que envolvam carne e todas as bebidas que provém de uvas.”

E todos gritaram In Omnia Paratus! Ele continuou: “Até a meia noite mantém-se o decoro, depois disso a noite é de Baco. Tenhamos todos uma boa noite.” Gambit, que percebeu que eu estava boiando com tudo aquilo perguntou: “É sua primeira vez?” “É sim.” “Então vou te explicar: hoje você vai ser leiloada, eu fui leiloado a um mês. Quem te compra tem direito sobre você, se você quiser ficar com outra pessoa tem que pedir a ele, ou ela.” Eu acho que fiz uma cara de assustada porque ele continuou: “Mas lembra da regra? Todos os amores que tiverem consentimento? Não vão fazer nada que você não queira.”

Assim que ele terminou de falar o senhor com a peruca de luxo disse: “Quem está aqui pela primeira vez se aproxime da escada.” Oito pessoas foram, inclusive eu. Eram três homens e cinco mulheres, todos devidamente mascarados. Ele começou o leilão com os homens e as mulheres foram à loucura, o mais valioso foi vendido por oito mil reais. Mas isso era pouco comparado com o valor das meninas uma foi vendida por dez mil, outra por quinze. Chegou a minha vez. Começaram com dois mil, um senhor deu dois e duzentos, outro dois e quinhentos e foram dando lances assim até chegar aos doze mil. Quando parecia que ninguém mais ia dar lances alguém lá de trás deu treze. Era o Gambit. Ninguém deu mais nada. Eu era dele.

Nenhum comentário: