Numa bela noite de abril, estava eu no interior, sentada na calçada do meu tio conversando com a Lena, quando vi passar ao longe uma senhora bêbada que eu conhecia. Era minha mãe. Ela e mais umas quatro pessoas, também bêbadas, entoavam musicas bregas e tropeçavam no calçamento da cidade.
Quase morri de vergonha. Fui com a Lena ver até onde eles iam. Descobri que era beber num bar. Ficamos espiando de longe. Minha mãe ria alto e fazia piadas grotescas. Depois ela se beijou com um dos homens da mesa. Tive vontade de vomitar. Não era birra de menina que acha que a mãe deve honrar a memória do pai pra sempre. Na verdade sempre achei que ela devia seguir em frente, mas sempre achei que fosse com um cavalheiro. E da idade dela.
Esse sujeito do bar parecia ter vinte anos e não era nenhum pouco atraente. Depois que chegamos mais perto (parecíamos duas retardadas se esgueirando nas paredes das casas) foi que percebi que o conhecia. Era Renato, o irmão mais novo de Sandro (o um “bad boy”).
Quase vomito (mesmo) dessa vez. Minha mãe tava se agarrando logo com quem? Voltamos pra casa do meu tio. Eu devia estar pálida porque assim que chegamos, ele perguntou: “Ô, você viu um fantasma?” “Mais ou menos, vi sua irmã se agarrando com um marginal feio ali no bar.” “Sua mãe?” “Você tem outra irmã aqui na cidade?” “Se agarrando com quem?” “Com o Renato irmão do Sandro.”
Meu tio fez uma cara que mostrou que ele tava tão feliz quanto eu. Depois disse desapontado: “Agora é esse, mal terminou com o Bebeto...” “Bebeto? Que Bebeto?” Foi então que ele percebeu que tinha falado bobagem. Depois disse: “Sua mãe ta ganhando fama de papa-anjo, esse é o terceiro com menos de 30 que ela fica.”
Fiquei decepcionada. Sinceramente decepcionada. Depois meu tio contou que ela vinha todo fim de semana ficar com esse tal de Bebeto do multirão, eles bebiam e ficavam se agarrando nos bares da cidade. Ficaram uns quatro meses juntos. Mas antes foi um tal de Carlinhos, que era mais novo que o Bebeto, que morava no outro lado da cidade. Com esse ela só ficava na praia.
E agora, mais novo que todos os outros, foi o Renato. Tinha acabado de completar dezoito anos. Meu tio ainda falou que ela tava virando a piada da cidade. “Todo mundo comenta sobre as preferências dela.” Fiquei com muita raiva. Eu sei que ela tinha o direito de ficar com ela quisesse, afinal a vida era dela. E eu respeitava isso, tanto que nunca cheguei pra ela pra dizer que eu desaprovava. Mas que me dava nos nervos isso dava.
Acho que todo mundo tem o direito de fazer o que lhe aprouver, eu sou uma das que mais defende livre arbítrio, mas que dá asco ver sua mãe se agarrando com bêbados em bares isso dá. Faltava à minha mãe um senso poético, o que ela fazia (a meus olhos) era grotesco e vulgar.
Como eu poderia respeitar essa mulher? Como eu podia receber conselhos ou punições dela? Isso somado ao fato de que ela tinha preferência pelo meu irmão foi o que causou meu total desapego à sua figura materna. Agora ela era somente alguém que morava comigo e nada mais. Eu a chamava de mãe, mas o peso da palavra não existia como antes. Era puro fingimento. A partir de então fiquei simplesmente indiferente.
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