segunda-feira, 8 de março de 2010

O retorno da bailarina

Eu tinha uma prima que fazia sapateado. No dia das mães, estávamos todos na casa dela quando ela me perguntou: “Minha turma de sapateado tá montando um espetáculo e precisamos de outras pessoas, você ainda dança?” “Faz um ano que não. E não sei sapateado. “Sem problemas, não é pra sapatear, e acho que você ainda tá em forma.”

Na outra terça fui ao estúdio de dança com ela. Me apresentou e o professor olhou pra mim com desinteresse. “Você dança alguma coisa, minha filha?” “Faz um ano que estou parada, mas danço balé e jazz desde os oito.” “Pelo menos você sabe o que é um plié.” Cardoso era alto e esguio, notava-se pelo andar que era um dançarino espetacular. Aparentava cerca de quarenta anos. E era muito elegante. Falava elegante, andava elegante e brigava elegante.

Fomos ensaiar. Era uma mistura de balé e sapateado. Pelo fato de ser atleta eu consegui agüentar o ritmo, mas estava bem enferrujada. Perguntei pra minha prima se podia praticar lá outros dias da semana. “Claro, nas horas que não tiver tendo aula.”

Comecei a ir ao estúdio todos os dias depois do colégio, queria estar em forma novamente. Em um desses dias estava dançando quando percebi que o Cardoso me observava. “Você tem um bom ponto de equilíbrio, mas sua fraqueza é que você confia demais no espelho.”

Ele se aproximou e disse: “Quer ser uma bailarina espetacular?” “Quero.” “Então confie em mim.” E vendou meus olhos. “A gente sabe se dança bem por dentro, e não por fora.” Ele veio até mim e se posicionou para dançarmos. A música começou a tocar, era um tango. Começamos a dançar. Tropecei nele algumas vezes. “Você não está se entregando, confie em mim.” Tropecei mais um pouco até que me deixei levar, deixei que ele me guiasse, completamente insegura.

“Agora que você já confia em mim, me seduza.” Eu parei, o fiz parar. Não falei nada. Me aproximei ainda mais dele. Senti seu cheiro, seu coração batendo. Comecei a passar as mãos pelo seu corpo, braços, peito, pescoço, costas. Colei ainda mais meu corpo no dele. “Agora eu sou toda sua.” Disse baixinho. E novamente começamos a dançar. Não tropecei, não pisei em seu pé, fluímos. Viramos instinto.

Depois ele tirou minha venda e disse: “Se você quiser tenho uma vaga pra você no meu estúdio. Eu sou gay, mas por um momento ali no meio deixei de ser. Se você sempre se entregar assim será uma bailarina esplêndida.” Eu apenas sorri. Também tinha sentido isso. Dancei de um jeito que nunca tinha dançado antes. Não pensei, nem por um segundo, foi puro reflexo.

Quando contei pra minha prima sobre o convite pra dançar no estúdio do Cardoso ela falou: “Ele nunca chamou nenhuma das meninas daqui pro estúdio dele, você tem certeza?” “Claro que eu tenho certeza, ele disse que tinha uma vaga lá pra mim.” Depois que ele mesmo confirmou o convite, apareceu na escola um boato de que eu teria dormido com ele.

Ele chegou na aula e disse: “Quero deixar uma coisa bem clara! Aquela moça tem mais talento do que todas vocês juntas! Ela não precisa dormir comigo para que eu reconheça.” Dito isso voltou pra aula como se nada tivesse acontecido.

Na outra semana comecei a dançar na escola dele. E foi nos meus braços que, dois anos depois, ele dançou pela última vez na terra.

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