segunda-feira, 15 de março de 2010

De como descobriram que eu não levo desaforo pra casa

Eu sempre tive a mania de cantarolar. E qualquer coisa que me dá na telha. Não me preocupo se a musica é chata, brega ou se eu não sei a letra. Canto mesmo assim. Já me peguei cantarolando Kelly Key por exemplo. Falcão, Mamonas Assassinas, Roberta Miranda, Britney Spears e os Travessos. Tirando aquelas músicas imorais e grotescas acho que todas tem, de alguma forma, algo a dizer.

Os urubus (turma do Grogue) encontraram um novo local no bairro pra se estabelecer. Um novo bar, chamado Blitzkrieg, que tinha sinuca e drinques coloridos. Sempre estavam lá. E começou a ser meio o point da galera. Um dia entrei cantarolando “Espumas ao vento” uma das músicas mais bonitas da minha lista.

Eles começaram a rir da minha cara. “Vai escutar música que preste!” “E o que seria música que preste pra você?” perguntei, e eles respondiam em coro: “Metal!” “Eu canto o que me dá vontade de cantar, e vou continuar cantando.” E continuei a entoar a música. Em minha defesa, eu sou afinada.

Outra vez, cantava “Heart of Glass” do Blondie. Foi a mesma palhaçada. E os urubus eram tão alheados que não entendiam as influências dos anos 80. Acho que sequer sabiam o que foi o Studio 54. Na cabeça deles só existiam roupas pretas, coturnos e metal. Mas eles não me intimidavam. Nunca deixei de cantar porque eles achavam ruim.

Um dia estávamos todos na praia, minha turma e os urubus, e começou a tocar a música “Eu te quero só pra mim” do Revelação. Comecei a cantar e meus amigos acompanharam. Levantamos e começamos a sambar e brincar entre nós. Os urubus fecharam a cara e cruzaram os braços, desaprovando aquilo tudo.

Mas um dia minha paciência esgotou. Eu estava de TPM e cantava “As long as you love me” dos Backstreet Boys. Assim que botei o pé no batente começaram com as piadas. “Eita, que a cada dia ela fica pior.” “Deviam proibir esse tipo de música aqui!” “Você é alienada por gostar de boy band!” “Aprende a gostar de música de verdade, menina!”

“Qual o problema?” perguntei “Isso é música de viado, eles são um bando de baitolas!” disse um urubu chamado Jonas. Eu dei uma gargalhada. “Deixa de ser invejoso! Você só tem raiva porque eles são lindos e gostosos, e tem um mundo inteiro de meninas loucas por eles. Elas choram, desmaiam, se rasgam por eles. E você é feio e asqueroso e ninguém te quer. Você só leva fora.”

“Pra andar com agente tem que escutar música que presta!” “E quem disse que eu ando com vocês? A gente se esbarra. Eu ando com meus amigos.” “Pois pra andar aqui tem que escutar música que presta.” “Vai se foder! Eu não vou viver minha vida de acordo com o que vocês acham adequado. Eu, ao contrario de vocês, tenho personalidade, vocês é que são os patéticos, que se vestem do mesmo jeito.”

“Isso é estilo!” “É? Pois é um estilo muito ruim.” “Essas merdas que você canta não se comparam ao verdadeiro metal!” “Então compare com o metal falso, não to nem aí. Eu vou cantar o que eu quiser cantar, e quero saber quem vai me impedir.”

A maioria já tinha se calado, mas o Jonas, que queria ser o machão, me empurrou. Caí no chão. Os outros o seguraram: “Ei, cara, tá doido?!” Mas assim que eu levantei peguei um dos tacos da mesa de sinuca que quebrei na cara dele. Depois joguei a primeira cadeira que coloquei a mão. Era uma daquelas dobráveis, de ferro. Aí vieram me segurar.

Eu fiquei com o cotovelo e o ombro arranhados (ele me empurrou numa parede cascarenta). Ele saiu com um corte de 5 cm no rosto (precisou levar ponto) e vários hematomas de onde a cadeira bateu. Os urubus foram com ele no hospital. Sentei na calçada junto com o pessoal. Depois de um longo silêncio comecei a cantar a música de novo. Demos uma grande gargalhada. Nem preciso dizer que não nos falamos mais depois desse dia.

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