domingo, 21 de março de 2010

Antes só que mal acompanhada

Decididamente eu estava em maus lençóis. De um lado duas meninas completamente sem noção me puxando pro mundo sem noção delas. Do outro uma amiga que tinha uma noção bem errada do que era a vida. Ariel chegou ao cúmulo de brigar com o Flávio. Ele geralmente relevava tudo, numa boa. Mas acho que se cansou das grosserias dela. Só comigo ela parecia baixar a crista. Quando ela queria mostrar a ignorância dela comigo, eu mostrava a ela que era três vezes mais ignorante, então ela desistia.

Teve na cidade um show do Angra. Foi numa casa de shows longe do nosso bairro e eu fui com ela e o Flávio. Lá encontramos todo mundo das nossas ex-turmas. Urubus e não urubus. Até o Marco tava lá (e agente ficou). Ariel tinha conseguido um emprego na galeria do rock e começava a ter mais contato com o pessoal da cena underground. Ela conhecia os integrantes da banda que abriria a noite.

Ficamos um tempo batendo papo, beijando na boca (eu e o Marco) e bebendo. Um pouco depois Ariel resolve dar um mosh (pular do palco na galera). A gente fazia muito isso na Division Bell, era tranqüilo. Mas o público lá era selecionado. Ali só tinha pirangueiro e piriguete. Basta dizer que ela ficou toda arranhada, com a roupa rasgada e desmaiou. Me perguntaram depois porque não a impedi. “E eu sou a mãe dela?”.

É claro que os urubus adoraram a cena. Foi meio que uma catarse. E o episódio virou a fofoca do bairro. Quando fui no Blitzkrieg devolver a jaqueta do Marco escutei todos em roda comentando e rindo. Pedi que parassem. Se era pra comentar que comentassem na frente dela. “Tá defendendo ela, agora?”

Eu fui a única que vi como ela ficou depois. Desmaiada, jogada no chão como uma trouxa de roupa velha. Não foi uma cena bonita. Desisti dela ali mesmo. Mas não deixei de cuidar dela. Consegui que nos deixassem entrar no camarim do Angra enquanto eles não chegavam e briguei com os integrantes que queriam tirá-la à força dali simplesmente porque eles eram o Angra.

Depois disso saí com ela cada vez menos. Só mesmo quando ela ia na minha casa e via que eu não tava fazendo nada. Porque se ligasse eu dizia que estava ocupada. Ela foi entendendo a deixa e ligou e apareceu cada vez menos. Também o Flávio não apareceu mais. E sempre que a via ela estava só, sem ele.

As outras duas Tina e Isabel tinham o comportamento ainda mais destrutivo. Viviam num excesso o tempo todo. Tudo era em excesso. Bebida, sexo, drogas, festas. Todo dia tinha uma festa, todo dia era motivo pra beber, todo dia tinha um “fumo do bom” ou uma coca “limpinha”. E com uma facilidade tremenda apareciam com ecstasy e comprimidos. Sabiam como fazer chá de cogumelos e bolo de maconha.

No começo achava que era uma grande aventura. Vê-las pular de droga em droga e saírem ilesas. Não precisava experimentar. Sempre me diverti apenas com meu fumo relax. Mas com elas comecei a cheirar e descobri que se continuasse viraria uma magrela drogada que nem elas. Meu ritmo de jogo começou a cair e sempre chegava atrasada. Não agüentava mais o tempo todo em quadra e ficava sempre muito mais exausta no final. Também comecei a faltar as aulas de dança. Levei um monte de bronca por isso. Nem digo o que aconteceu no colégio. Pela primeira vez tinha ficado de recuperação. E mais. Só passei pelo Conselho de Classe. Os professores se reuniam e selecionavam aqueles que mereciam a chance de passar. Como eu não era uma das bagunceiras recebi essa chance.

Foi quando saí do colégio com o boletim na mão que percebi o quanto minha vida tinha mudado. O quanto eu tinha mudado. Implorar a um professor que não te reprove é chegar ao fundo. Principalmente se você é uma aluna com histórico azul. Percebi que estava sendo levada pra baixo pelos dois lados. Pelas amigas do colégio e pelos amigos do bairro. O bairro eu podia simplesmente deixar de andar lá, como já vinha fazendo. O colégio seria um pouco mais difícil. Resolvi mudar meus ares e meus amigos. E comecei me matriculando na aula de teatro.

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