A Natália criou um pouco de juízo depois do episódio do Capeta e nossa turma se consolidou. Eu, Natália, Michele, Flávio, Tales e Ariel. Toda sexta nós íamos pra casa do Tales, que ficava me cantando. De vez em quando eu dava uns beijinhos nele, mas era só isso. E aos sábados íamos para a Division Bell, que começou a ser o point underground da cidade.
Era lá que todo mundo se encontrava, todas as tribos do rock e onde tinha os maiores shows. Hardcore, grunge, heavy metal, punk, trash e até white metal (metal que louva ao senhor). Nessa época não existiam emos, mas os esboços deles eram chamados de pirulitos. E lá na Division Bell todos tinham seu espaço e seu direito de ir e vir. Isso me dava orgulho de ser rock and roll.
Tinha sábado que meu irmão não queria sair de casa. Minha mãe queria que nós saíssemos juntos, mas só íamos juntos até a esquina. De lá combinávamos a hora da volta para irmos juntos da esquina até em casa, e ela achar que passamos a noite toda como dois irmãos que se amam. Ele não deixava barato. Era R$40,00 a noite e esse dinheiro era rapidamente convertido em maconha e pó.
O Tales fazia questão que eu fosse na frente com ele no carro. Pra passar a mão na minha coxa quando trocava a marcha. Eu deixava porque ia confortável na frente e não no apertado atrás. Foi no carro dele que eu dominei as três técnicas mais importantes pra uma adolescente do rock and roll: 1° Se maquiar num carro em movimento. 2° Se maquiar num carro em movimento em menos de 12 minutos. 3° Se maquiar num carro em movimento, em menos de 12 minutos e estando bêbada.
Nenhum dos locais permitia a entrada de menores, então eu mostrei meu truque da identidade falsa. Mas é claro que tinha risco. Tivemos que nos esconder no banheiro feminino uma vez (só a Ariel e o Tales era maiores) porque o juizado apareceu. Todo mundo subiu em cima da privada no último box. Depois a Ariel veio dizer que eles tavam pedindo a identidade de todo mundo, até das bandas.
Em um desses grandes shows, encontramos com alguns conhecidos do bairro. Só homens, de uns trinta anos, babando pelas gatinhas que acabavam de chegar. Um deles, chamado Gregório (apelido Grogue), começou logo a cantar a Michele. Eles ficaram. Outro deu em cima da Natália, ficaram também. O Flavio ficou com a Ariel e eu sobrei. Não me interessei por ninguém que sobrou.
Foi nesse momento que um cara lindo se aproximou, falou com o pessoal (era do bairro também), se apresentou, e disse que ia fumar um, chamou quem tivesse afim, ninguém tava, só eu. O nome dele era Marco e ele vai ter história própria. Basta dizer que nós ficamos.
Geralmente depois da farra na Division Bell nós íamos à praia. Ver o dia amanhecer. Fumar um baseado. E durante a semana encontrávamos o Grogue e sua turma (mais velha) num barzinho, bebíamos vinho e conversávamos. Eles se vestiam de preto, com blusas de bandas de rock e coturnos. Não importava se fossem ficar no bairro.
Quando meu irmão não queria cooperar mesmo a única saída era mentir. “Vou dormir na casa da Ariel.” Que convenientemente não tinha telefone. Ou então “É o aniversário da Natália, vai ter uma festa do pijama só com meninas.” Foi realmente uma festa do pijama, e essa era a única parte que era verdade.
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