quinta-feira, 18 de março de 2010

Quebrando a primeira regra

A In Omnia Paratus se reuniu mais cinco vezes depois do dia que conheci o Gambit. Sempre em mansões e em locais ermos. Nesse dia estávamos numa casa à beira da praia. Na areia privativa uma grande fogueira ardia. Mais a frente uma piscina recebia os convidados. E logo atrás um gramado extenso com tapetes e lampiões.

Avistei o Gambit assim que cheguei. Ele sempre me cumprimentava com um beijo na boca. Antes da acolhida sentamos no gramado e fumamos um baseado. Não sei se por causa da maconha, ou se por que relaxava completamente com ele, eu comecei a falar sobre meus problemas pessoais. O que era terminantemente proibido.

Nem percebemos que tínhamos quebrado uma regra. Seguimos a noite como se não tivéssemos um problema. Depois do leilão de novatos e do grito In Omnia Paratus fomos relaxar na piscina. Junto com muitos outros colegas. Ficamos nos acariciando assistindo, ao nosso lado, uma mulher que fazia sexo com dois homens.

Curtimos a noite inteira, juntos e separados. Mas dois dias depois percebi que tínhamos feito uma grande burrada. Cheguei no colégio e assim que abri meu armário avistei um envelope azul dentro. “Você quebrou uma regra. Terá uma punição.” Só tinha isso escrito. Deduzi que o Gambit tenha recebido uma igual. Mas deduzi que ainda não estávamos expulsos. Se o contato partia sempre deles bastava não mandar mais nenhuma carta. Em vez disso deixaram bem claro que nós seríamos punidos.

Descobri o que era a punição. Ficamos três meses sem saber o local da reunião. Eu até recebia carta, mas vinha sem endereço. Selada com cera branca, carimbada com o brasão e envolta na fita prateada. Mas era apenas uma folha em branco. Isso me deixava cada vez mais ansiosa. Parecia que o tempo não passava e a cada carta que chegava eu me desesperava pra ler.

Sentia muita falta do Gambit. E não podia falar pra ninguém. Ele era o único amigo que eu tinha lá dentro. O único amigo que sabia meu segredo. Passar quatro meses sem vê-lo foi sufocante, angustiante. E se eu soubesse onde funcionava a administração da In Omnia Paratus iria lá pedir desculpas. Viver sem ele era muito mais difícil.

Mas enfim a quarta carta chegou. E havia um endereço nela. Meu coração quase não cabia no peito. Pulei feito uma mongol no corredor do colégio. E na sexta, estava lá como esperado. Entrei procurando por ele. E assim que me viu deixou no vácuo uma garota que tentava impressioná-lo com sua beleza óbvia e amadora. Pedi muitas desculpas. Foi por minha culpa que ele perdeu três encontros. Foi por minha culpa que não nos vimos por três meses.

Ele sorriu. Me abraçou com seus braços compridos, que fazia eu me perder dentro deles. Nunca descrevi o Gambit. Era alto, branco quase pálido e tinha olhos grandes e negros. Os cabelos eram na altura do queixo, meio sem corte e pretos também. Não era forte, mas era definido e esbelto.

Quase no fim da noite e depois de um beck ele disse: “Fiquei triste por uma coisa. Quando a gente ficou sem se ver eu tentei lembrar de ti. Mas nunca vi teu rosto. Conseguia lembrar do teu corpo e da tua voz. Mas não teu sorriso. Nem dos teus olhos. Queria poder te ver.” “Também queria.” Passamos o resto da noite nus, deitados na grama e olhando as estrelas.

Talvez os dois especulassem a mesma coisa. Que talvez existisse um meio de nos vermos fora dali. Mal sabíamos que estávamos no meio de um segredo guardado a sete chaves. E que quebrar as regras era extremamente perigoso. Fisicamente perigoso.

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