terça-feira, 30 de março de 2010

Teste do sofá

À medida que o tempo foi passando notei que meus colegas do teatro iam para o grupo Próximo Ato (da mãe do meu diretor). E minha turma ficava cada vez menor. Então numa tarde o professor aproximou-se de onde eu, Átila e André estávamos e disse: “Vocês dois já pensaram em seguir a carreira de ator?” Nós três desconfiamos do que viria a seguir. “Porque vocês não passam na minha sala depois da aula pra discutirmos isso?”

Que descarado! Como alguém podia ser indiscreto assim? Ficamos ainda um tempo perplexos. Então André se manifestou: “O que a gente vai fazer?” “Como assim? Nada! A gente não vai fazer nada.” Disse Átila. E eu comecei a assistir a discussão dos dois. Átila era completamente contra, esse tipo de coisa só acontecia porque tinha gente disposta a fazer. Já André (que realmente queria ser ator) achava que ninguém era criança e todos nós sabíamos que era assim mesmo que funcionava.

“É só uma vez.” disse André “E a gente entra no maior grupo da cidade.” Mas isso deixava Átila inquieto. E eu simplesmente não tinha opinião. Não podia botar um preço no sonho dos outros. Não sei como eles decidiram ir em frente. Assim que a aula acabou eu fui esperar no carro (muito nervosa, diga-se de passagem) e eles foram “discutir o futuro” na sala do professor. Eu coloquei o som no ultimo volume e simplesmente comecei a chorar.

Imaginei como eles estariam se sentindo. Fiquei com a cabeça baixa simplesmente esperando. Depois de uns 40min os avistei saindo no portão da escola. Átila segurava André que, depois de alguns passos, se agachou encostando numa parede e vomitou. Depois os dois vieram na minha direção. Entraram sem dizer uma palavra. Átila acendeu um cigarro e só ligou o carro depois de alguns minutos.

Fomos pra praia. Ainda sem dizer palavra. Sentamos na areia e ficamos vendo o mar. Longos minutos em silêncio. Silêncio que fere. Quando olhei pra Átila vi uma tímida lágrima descendo de seu rosto. Ele limpou sem cerimônia. André desabou no choro. Abracei os dois. Isso não tinha nada a ver com sexualidade. A questão não era ser gay ou hétero. Nenhum deles era homofóbico, pode ter certeza. A questão era ser usado, se sentir impotente e invadido. Se vender por um sonho. Sonhos são poéticos, não podem ser desfeitos assim.

Em casa conseguimos conversar. Depois de umas caipirinhas e um baseado. No fim da tarde André deu uma grande gargalhada dizendo: “Amanhã somos atores do Próximo Ato!” Rimos um bocado. Me senti aliviada. Eles tinham acabado de superar aquilo. Foi aí que me ocorreu: “Amanhã vocês serão grandes atores. E eu vou ficar sozinha.” O riso sumiu. Depois de uma longa pausa eu tive uma idéia. “Eu vou entrar no grupo de vocês.” Os dois gritaram “Não!” ao mesmo tempo. Passaram meia hora tentando me convencer do contrário. Mas minha decisão estava tomada.

No outro dia (com resistência dos AA) procurei o professor depois do treino de vôlei. Claro que pensei em fumar um beck antes, mas se os dois tinham agüentado de cara limpa eu agüentaria também. Ele estava em sua sala arrumando uns papéis. Entrei e disse: “Ontem o senhor conversou com os meninos sobre o futuro deles, eu queria conversar sobre o meu também.” Ele soltou vagarosamente os papéis na mesa e olhou pra mim. Me examinou de cima a baixo. Depois disse: “Eh, acho que você tem futuro.” E apontou o sofá se levantando. Começou a desabotoar a camisa e eu comecei a tremer. Me arrependi de não ter fumado.

Joguei minha mochila no chão, tirei a blusa e o short. Com a mesma rapidez tirei o tênis e a meia. E ele disse desabotoando a calça: “Pode deixar que o sutiã e a calcinha eu tiro.” Começou a beijar meu pescoço e passar as mãos pelo meu corpo, senti uma agonia tremenda. Me fez ajoelhar e tirar sua cueca. Senti vontade de vomitar, mas fiz o que ele esperava. Fiz tudo o que ele queria em todas as posições que ele pediu. Liguei o piloto automático e deixei a maré me levar. Fiquei tentando colocar minha mente em outro lugar. E visualizei meus amigos. Era pra ficar perto deles que eu fazia isso. Então tudo terminou. Ainda nu ele pegou o telefone. “Alô. Oi, Simone, estou mandando mais uma pessoa pra você. Uma moça talentosíssima. Ok, tchau.” E apontando a porta disse: “Pronto, pode ir.”

Me vesti tão rápido que nem lembro se vesti o short ou a blusa primeiro. Não disse mais nada. Apenas saí. Lá fora os dois me esperavam, assim que cheguei me abraçaram. Disse chorando: “Pronto, estamos juntos de novo.” Repetimos o trajeto da tarde anterior. Fomos à praia, fumamos um beck, bebemos caipirinhas. E ao final da noite tudo era lembrança. Estávamos juntos novamente e isso era o que importava.

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