Lembra do Marco? Refrescando a memória... Estávamos na Division Bell, tínhamos acabado de conhecer os urubus. Michele ficou com o Grogue, Ariel com o Flávio e Natália com o Edu. Eu sobrei e depois que um moço lindo chegou fui fumar um beck com ele. Assim que o baseado acabou ele disse: “Nossa, você é muito gostosa.” Pode parecer ofensivo se não fosse sincero. Ele disse sem pretensões. Apenas uma observação. Como se uma Ferrari tivesse passado.
“Faz dias que quero ficar contigo.” Disse depois de uma cerveja. “E porque nunca disse antes?” “Por causa da Irene. (ela era dos urubus)” “O que tem a Irene?” “Ela é meio que apaixonada por mim. E não quer que eu fique com ninguém.” “Vocês tem alguma coisa?” “Não. Assim, a gente teve.” “E você obedece?” “Não. A gente namora desde os quinze anos, mas ela é muito obsessiva, ciumenta. Terminei tá com uns três meses e ela fica me perseguindo.” “Azar o dela.” “Não é assim tão simples. Se ela fica sabendo que eu fiquei com alguma menina ela persegue a menina também.” “Não tenho medo dela.”
Nos beijamos. Eu entendi que não era pra fazer alarde. Nem queria. Queria ficar com ele ali e pronto. Dar uns amassos e beijar na boca. Ficamos, ninguém soube e eu aproveitei pra perguntar pras meninas se essa historia era verdade mesmo. “A Irene é meio perturbada. Ela uma vez saiu de casa com uma faca na mão, atrás de uma menina que o Marco ficou.” Disse a Ariel. “Todas as meninas são loucas por ele, mas sabem que a Irene é obsessiva, então ninguém tenta.” Completou a Michele. “Dizem que ela toma remédio controlado.” Finalizou a Natália.
O que a Michele disse era verdade. Todas as meninas do bairro eram afim dele. Não só porque ele era o mais novo dos metaleiros (a maioria tinha mais de 27, ele tinha 25), mas era também o mais gato, mais gostoso e mais simpático deles. Era também o único que se vestia diferente.
Uns três meses se passaram desde a nossa primeira ficada. Teve um show de rock no nosso bairro. Todo mundo tava lá. Urubus e não urubus. Falei com todos (exceto o Jonas) e notei que o Marco me olhava. Depois ele chegou pra mim e disse: “To muito afim de te beijar, não paro de pensar nisso.” “Quer beijar? Então beija!” e o beijei. Tava já um pouco bêbada e nem aí que a Irene tava perto.
Ela saiu com ódio. Gritou alguma coisa e foi embora. “Eita, lá vem confusão.” Disse o Marco preocupado. “Se preocupe não. Eu me garanto.” E o beijei. Ficamos na frente de todos. As meninas me olhavam com ódio, eu estava ficando, na frente do bairro inteiro, com o cara mais disputado. Ficamos nos agarrando até o fim da festa. Depois fomos todos pro Blitzkrieg. Ficamos numa mesa na calçada.
De repente a Michele diz: “Lá vem a Irene.” O Marco levantou meio assustado. “Calma, relaxe.” Disse puxando ele pra sentar de novo. “Cara, tu num sabe o perigo que é essa menina. Ela toma até remédio.” “Eu sei disso. Mas ninguém dita como vai ser minha vida, nem uma louca.”
Só calei a boca ela chegou com uma faca na mão gritando: “Vem aqui sua vaca que eu vou te matar! O Marco é meu!” ainda sentada, passando a mão nos cabelos dele disse: “Engraçado, ele e eu temos uma opinião diferente.” “Vem aqui sua cadela que eu vou te matar agora!” “Porque você não vai pra casa se acalmar? Você está fazendo um papel ridículo.” “Tá com medo, sua puta?” Eu levantei, respirei fundo e disse: “Eu só aceito dois. No terceiro você está fora.”
Caminhei até a Michele, que estava a uns cinco passos de distancia, dei a última tragada no meu cigarro e peguei o skate dela que estava encostado na parede. Já me virei acertando as rodas no rosto dela. Ela cambaleou e derrubou a faca. “Essa é por ter me chamado de vaca.” Depois taquei o skate nas pernas dela, como estava no lado da lixa ficou arranhado. “Essa é por ter me chamado de cadela.” Ela fez que ia correr. Joguei o skate nas costas dela, que caiu no chão. “E essa foi por ter me chamado de puta." Ainda vai se meter comigo ou a gente para por aqui?”
Nem preciso dizer que uma multidão assistia a tudo. O Marco me puxou pela mão e me colocou no carro do Tales. Saiu com pressa. Esqueci de dizer que ele era da polícia militar, trabalhava numa parte administrativa. “O que foi?” Perguntei. O Marco estava sorrindo. “Só te tirei de lá porque vi uma viatura chegando. Depois eu volto lá e digo que foi uma briguinha à toa. Mas se preocupa não, o Tales tirou ela de lá e todo mundo tá vazando.” Disse olhando pelo retrovisor. “Que surra que você deu nela! Ela tava merecendo.”
Depois desse dia a Irene não foi mais um problema pra ninguém. E o bairro todo ficou sabendo que eu tinha o pavio curtíssimo.
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