Nas minhas andanças nas baladas da capital conheci um rapaz chamado Luke. A gente só se cumprimentava de longe, mas numa festa ele veio falar comigo. Disse que tinha me achado linda e queria me beijar. Ele era um pouco mais alto que eu, bem forte, tatuado e tinha o a cabeça raspada. Tinha uma personalidade contagiante, era muito engraçado e sempre contava as melhores histórias.
Ficamos umas três vezes em baladas, mas ele gostava de raves. Sabia onde tinha as melhores. E me chamou pra ir a uma. Fui com a Michele e encontramos ele e os amigos lá. Dançamos muito, beijamos muito e ele disse que queria namorar sério comigo. Que queria que eu fosse só dele. Achei super romântico, especialmente pelo carinho com que foi dito. Aceitei. Agora eu tinha um namorado.
O primeiro mês foi lindo. Ele era sempre muito simpático e carinhoso. Mas começou a ficar ciumento com os AA. Sempre perguntava por que eles tavam comigo e o que eles queriam quando ligavam. Comecei a notar que minha amizade com os dois o incomodava. Ele fechava a cara assim que meu celular tocava e começou a chamar os meninos por nomes pejorativos.
Um dia, estávamos só nos dois na casa dele quando meu celular tocou, era o André me dizendo que conseguiu um emprego. Fiquei muito feliz por ele, há dias que ele fazia entrevistas. Assim que desliguei o Luke perguntou: “O que a bichinha queria?” eu perdi minha paciência. Mandei ir à merda. Ele levantou do sofá e me segurou pelos braços me encostando na parede. “Você acha que tá falando com quem? Com seus amigos viadinhos?” e me deu uma tapa.
Ele tava transtornado. Realmente possesso. Depois segurou meu cabelo e me jogou no sofá. Foi pro quarto. Eu confesso que fiquei sem ação. Simplesmente chorei. Fiquei ali por não sei quanto tempo. Depois, meio aérea, fui olhar meu rosto no espelho. Estava apenas um pouco vermelho. Nessa hora ele abriu a porta do quarto e envergonhado me pediu desculpas. Disse que tinha se descontrolado, perdido a cabeça, que nunca mais ia acontecer. Não sei por que acreditei nele.
Ele tinha uma maneira de falar que parecia tão verdadeiro, que era impossível descartar. Não contei aos meninos o que tinha acontecido, não disse a ninguém. Guardei e engoli meu orgulho. Tinha a esperança que fosse a última vez mesmo. Mas não foi. Outro dia, estávamos na casa dele com amigos. Eu recebi um torpedo do Átila contando uma piada. Ri alto e ele fechou a cara. Levantou e me chamou pro quarto.
Ele trancou a porta e perguntou já alterado: “Que mensagem foi aquela?” “Só um amigo mandando uma piada.” Falei com muita cautela no “amigo”. “Amigo, que amigo? Um dos viadinhos, né?” “Já pedi pra você não chamar assim”. Ainda teve um pouco de conversa, mas não é essencial. O que aconteceu depois foi que ele me jogou na cama e sentou na minha barriga. “Você não vai mais sair com esse viados, tá ouvindo?” eu comecei a gritar por socorro. “Cala a boca! Senão eu te encho de porrada!” Não parei, continuei gritando.
Ele manteve a palavra dele. Só parou quando os amigos dele começaram a bater na porta pra ele abrir. Ninguém veio me ajudar, simplesmente tiraram ele dali. Mas antes de sair ele pegou meu celular. Fiquei jogada no chão chorando me sentindo impotente e imbecil. Me levantei de súbito e fui pegar minhas coisas pra ir embora. Ele não deixou. Disse que eu precisava me acalmar. Só deixou que eu ligasse pra casa avisando que ia dormir na casa de uma amiga.
Fui pra aula no outro dia com um quilo de maquiagem no rosto. Sentei bem no fundo e fingi que dormia a aula inteira. Não falei com ninguém. Assim que acabou fui pro portão, Luke já estava me esperando. Pediu desculpas e disse que queria conversar direito assim que eu entrasse no carro. Eu recusei e bem nessa hora o Átila apareceu com o André me oferecendo carona. Luke ficou furioso. Eu entrei no carro do Átila e ele deu partida. Ficamos em silêncio por uns vinte minutos até que o André perguntou: “Aconteceu alguma coisa entre vocês?” Só consegui negar com a cabeça, mas não agüentei e comecei a chorar. Átila parou o carro e perguntou preocupado. “Que foi? O que ele fez?” Não consegui responder. Tirei um pouco da maquiagem dos olhos e eles viram o hematoma. Átila me abraçou e disse: “Se preocupa não. Estamos do seu lado.”
Era sexta e passei todo o fim de semana em casa. Mas no domingo à tarde os dois vieram me buscar. “Estamos indo à praia” achei muito estranho, especialmente por eles estarem de calça jeans e tênis. Mas entrei no carro assim mesmo. Fomos realmente à praia. Paramos num estacionamento e André perguntou: “Reconhece aquela land rover?” Gelei. Era o carro do Luke. Eles desceram cada um com uma marreta na mão e literalmente acabaram com o carro. Fomos embora sem ninguém ver a gente.
Acho que o Luke entendeu o recado, por que simplesmente deixou de me procurar. Por precaução andávamos sempre os três juntos. Assim ele não pegaria ninguém só. Mas nunca mais o vi depois disso. Ele nunca devolveu meu celular também, mas eu não era louca de ir atrás. Nesse dia percebi que os AA seriam meus melhores amigos pro resto da vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário