sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Cliente

Era madrugada quando recebi o telefonema do hotel. Um cliente estava chegando dali à uma hora e eu deveria esperá-lo no aeroporto. Ele havia mudado a rota em cima da hora e em vez de ir para Lisboa resolveu passar primeiro no Brasil. Por causa do fuso horário o hotel só ficou sabendo que ele viria uma hora antes do avião pousar. E eu estava lá para recebê-lo.

Richard era americano, alto, cabelo grisalho e corpo sarado. Não parecia mesmo que tinha 46 anos. Era gentil e perguntava sobre os costumes locais. Ele me chamava de Precious (preciosa) e apesar de tecnicamente eu estar trabalhando pra ele, Richard abria portas, puxava cadeiras e não me deixava carregar peso. Tudo isso sob meus protestos.

Uma noite fizemos videoconferência com o escritório da frança. Ele fez questão de reservar um quarto no hotel pra mim e colocar as despesas em sua conta. Disse que era um jeito de retribuir o fato de me deixar a madrugada inteira acordada traduzindo em duas línguas. Aceitei, realmente não tinha sentido em voltar pra casa.

Estava tomando banho quando Richard bateu na porta do meu quarto. Queria que eu traduzisse alguns documentos. Saí enxugando o cabelo e vestida com o roupão. Ele parecia constrangido. Não pelos meus trajes, mas por eu ter que atendê-lo neles. Me pedia desculpas o tempo inteiro. “Não precisa, esse é meu trabalho, fazer o melhor por você.” Enquanto traduzia os textos notei pelo canto do olho que ele me observava. Terminei o que estava fazendo, ele me deu boa noite e saiu.

Na manhã seguinte uma camareira me trouxe alguns pacotes. Era simplesmente uma roupa nova. Calça, blusa e lingerie. “O senhor Richard pediu pra entregar.” Junto havia um cartão: “Esteja pronta às 10h.” e tivemos mais um dia de muito trabalho. Por volta das cinco disse: “Ah, tenho um encontro com alguns clientes hoje, um jantar. Queria que você viesse comigo.” “Sim, senhor” Respondi. Vesti um vestido bonito, fiz as unhas e esperei que viesse me buscar. Em casa.

No jantar notei que minha presença não era necessária. A maioria arranhava no inglês. E notei também que a maneira como se portava do meu lado mudou. Parecia que eu era amiga, e não que estava trabalhando. Quando enfim o evento acabou ele disse: “Engraçado, eu ainda estou com fome. Conversei tanto que me esqueci de comer. Você aceitaria jantar comigo de novo?” Aceitei. No restaurante começou a falar o quanto me achava inteligente e bonita. E que estava fascinado comigo.

Quando estávamos saindo disse que não poderia me envolver como ele. Que estava trabalhando. “Mas se você não trabalhasse pra mim, e a gente se esbarrasse na rua?” “Assim daria certo.” “Então você também está interessada, apenas não quer envolver seu trabalho?” “É, algo assim.” “Pois você está despedida.” E me beijou. Voltamos para o hotel.

No quarto, à meia luz, começamos a nos beijar. “Faz tempo que te desejo.” Falou abrindo o zíper do meu vestido que caiu no chão. Ele sentou-se numa poltrona me fazendo sentar no seu colo. O puxei para me beijar pela gravata. Isso o deixou louco. Depois a tirei devagar, maneira como também desabotoei sua blusa. Ele me agarrou pela cintura, levantou e me levou até a cama. Abriu o cinto de um jeito muito sexy. Olhou pra mim com cara de mau, de quem vai dar um corretivo porque fui uma menina levada.

Ele tinha um corpo muito gostoso pra um “senhor” de 46 anos. Bumbum durinho (que apalpei com gosto), barriga tanquinho (que lambi com prazer) e coxas saradas. E era charmoso como o Johnny Depp, daquele jeito relaxado e rebelde. Tinha um vigor enorme e um jeito másculo de pegar. Richard olhava nos meus olhos o tempo todo, como se ali aparecesse o que eu estava sentindo. Tirou meu ar e meu fôlego, e colocou as mãos em cantos do meu corpo que eu nem sabia que existiam. Nunca um homem me esgotou tanto. E nunca me senti tão cuidada.

Mantivemos o romance em segredo, claro. Mais uma semana e ele foi embora. E foi uma das semanas mais maravilhosas que tive. Provei das melhores comidas, bebi as melhores bebidas, conheci as pessoas mais influentes e ganhei os melhores presentes. Como por exemplo, uma gargantilha de brilhantes. Antes de embarcar me deu um longo beijo. “Não vou esquecer você nunca.” “Eu também.”

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Princesa

Até os 12 anos Michele era a única princesa da família. A mãe dela, que ficou grávida aos 17, era a mais velha dos quatro irmãos e irmãs. Então Michele, aos doze anos, tinha apenas dois primos. Um era um bebê de sete meses e o outro que ainda era um feto. E os dois eram meninos.

Aos treze ela teve que assistir de camarote a separação dos pais e aos catorze teve que fingir que era tudo bem o pai arrumar uma nova família. Deixou de ser princesa aí. Mas a mãe, sem saber como cuidar da filha fez o que a maioria dos pais fazem. A encheu de presentes e mimos. Roupas, TV no quarto e tudo o mais que ela quisesse.

E assim Michele cresceu, com um pai que nunca via e uma mãe que só aparecia pra dar presentes. Aos quinze ela entrou na fase rebelde. Skate, cigarro, maconha e noites na balada. A mãe quase nunca se importava, a filha estava feliz. Só falava alguma coisa quando o pai ligava e reclamava do comportamento da filha.

Mas Michele guardava um segredo debaixo do rastafári e das calças folgadas. Um segredo que ela tinha vergonha de mostrar. Talvez porque as pessoas com quem ela andava não iriam gostar de saber. Mas que depois que começou a andar comigo e viu que eu mandava à merda quem criticava meus gostos, também ela começou a ter esse comportamento.

Descobrimos então que Michele gostava de desenhar roupas, conhecia tecidos e sabia costurar. Descobrimos que as roupas mais legais que ela tinha foi ela mesma quem fez. E descobrimos que não só ela sabia o que tava fazendo como tinha talento pra coisa. Com nosso apoio, e nessa época André e Átila já faziam parte do nosso grupo, ela seguiu o sonho que tinha. Ser uma designer.

Michele era determinada e criativa. Mas só conseguiu atingir seu todo seu potencial depois que saiu de perto da mãe. Aqui entra um pouco minha opinião, porque eu nunca fui com a cara da mãe dela, mas sair de casa foi a melhor coisa que ela fez na vida. E eu a achei muito corajosa por fazer isso sem nem ter dezoito anos completos.

Ela tinha também outros talentos como, por exemplo, caipirinhas. Átila tirava o sossego da pobre querendo descobrir o que ela fazia. Mas ela nunca contava. Michele fazia a caipirinha perfeita. Não amargava, o açúcar era no ponto, ficava gelada sem ter tanto gelo assim e as rodelinhas de limão ficavam inteiras.

Mas quando se tratava de homem ela não tinha muita sorte. Às vezes aparecia um carinha legal, mas a maioria eram cérebros de esponja musculosos. “Adoro quando um bruto desses me pega de jeito.” Se justificava. E quando ela enfim encontrava um que fosse legal dispensava poucos dias depois alegando alguma incompatibilidade. Geralmente coisas como: “Ah, ele me segura feito uma bichinha, homem tem que me segurar com força.” Depois de frases assim ficávamos calados.

Michele nunca se aproveitou do fato de que era filha de um senador. Dizia que não queria se aproveitar. Era inteligente e talentosa o suficiente para não ter que precisar do “emprego fajuto” do pai para se dar bem na vida. Concordávamos com ela. Uma vez ele veio visitá-la na república. Queria parabenizá-la pelos dezoito anos e saber o que ela achava de ganhar um carro. “Agora é tarde, Inês é morta.” Respondeu.

Para alguns assuntos ela tinha um pavio muito curto. E esses assuntos eram: o pai e a mãe. Pro resto era paciente e lidava com certa tranqüilidade. Eu a achava segura e esclarecida. Depois que ela começou a trabalhar na Maison, um dos maiores ateliês de moda da cidade, vi que ela tinha ficou mais confiante. Mas sem nunca ser metida. Tinha os dois pés no chão, gostava de trabalhar e estava na companhia de pessoas fantásticas, eu inclusa. Um futuro brilhante a esperava.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Amiga da onça

Numa tarde de quarta feira recebi um telefonema de uma grande empresa que administrava os seis maiores hotéis da cidade. Me chamavam para uma entrevista. Vesti um terninho cinza muito bem cortado e elegante. Lá me disseram que gostavam muito do meu trabalho assessorando seus maiores clientes. Que era mais que uma simples tradução, eu fazia um serviço que ia de acordo com a missão da empresa e eles queriam me contratar efetivamente.

O salário era ótimo, com benefícios como plano de saúde completo e ajuda de custo em vestuário caso tivesse que acompanhar um cliente a um ambiente mais sofisticado. O único problema era: Horários extremamente flexíveis. Isso significava o que já acontecia, na hora que precisassem eu estaria lá. Comecei a trabalhar na segunda seguinte e conheci os outros Personal Translator, que não foram muito com a minha cara. Acharam que eu era nova demais (19 anos) para o trabalho, a maioria estava na casa dos trinta.

Uma delas, chamada Miriam foi a que mais se aproximou de mim. Ela falava apenas Italiano e era namorada do gerente de um dos hotéis. Tinha um jeito espalhafatoso e um pouquinho vulgar, mas eu a achava inofensiva. Caí na besteira de achar que todo mundo era como eu e os meus amigos. Gente boa, que não quer o mal de ninguém. Acontece que estava sendo apunhalada pelas costas e nem sabia.

Comigo falava dos outros personal e das outras fofocas que o namorado gerente contava. Pra ele dizia que eu era metida e que eu me achava melhor que os outros. Simplesmente porque quando eu atendia um cliente ele não queria mais nenhum outro. Gostavam do meu vasto vocabulário e do fato que eu guardava muita informação com rapidez. Gostavam de mim também porque eu tinha curiosidade de conhecer os países de onde vinham e conversava com eles. Assim se sentiam menos solitários. Mas eu nunca falei que era melhor que ninguém.

Pois bem, dois meses depois que eu tinha começado um cliente retornou ao hotel. Era um árabe que tinha uma empresa no ramo naval. Tinha uma fábrica de lanchas e Jet Skis e outra de roupas e equipamentos de mergulho. Geralmente era atendido por Célio, um senhor de 50 anos. Mas nessa ocasião Célio estava doente e eu era a única que podia atendê-lo, já que ele falava inglês e francês misturado. Abdalatif era bem tradicional e não gostou muito da mudança, mas aceitou que eu o atendesse.

Mas quis fazer um teste. Pediu que eu abrisse uma garrafa de champanhe. Ao lado da garrafa havia um sabre próprio pra isso. Sem embaraço abri a garrafa com o sabre (tinha aprendido com Átila) e Abdalatif olhou pra mim espantado depois sorriu discretamente. Misturando o franglês perguntou: “Você sabe a origem disso?” “Sim, era como os generais de Napoleão comemoravam uma vitória.” Ele levantou a taça, como um brinde oferecido a mim, acenei com a cabeça e ele bebeu sorrindo. “As moças ocidentais são mesmo um mistério.” Depois disso não quis mais o Célio.

Quando disse para o gerente que queria mudar de tradutor ficaram todos espantados, eu inclusive. E Miriam espalhou o boato de que meus clientes ficavam fiéis a mim por que eu os oferecia favores sexuais. E essa história chegou aos cinco hotéis. Quando eu enfim soube o que acontecia não procurei me justificar. Deixei que falassem. Pra mim o que importava era meu trabalho estar sendo reconhecido por quem importava. Se meus clientes não aceitavam que me substituíssem era porque eu estava fazendo o melhor, e ponto final.

Depois de umas duas semanas desse boato um dos recepcionistas me disse que ninguém acreditava nela, que eu não tinha com o que me preocupar. E que todos sabiam que ela dizia esse tipo de coisa porque ela era classe C (turismo sexual) e eu estava dominando a classe A (business e VIP), ela se sentia ameaçada. Só para esclarecer a classe B é a de turistas mesmo. Com o tempo fui ganhando respeito dos outros colegas, especialmente porque às vezes trabalhávamos juntos e eles viam meu trabalho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O irmão da minha amiga

Acho que dá pra notar pelos textos anteriores que eu tenho uma quedinha pelos Homo Ébanus. Os negros sempre foram pra mim motivo de interesse, tanto pela cultura quanto pela beleza. Sempre os achei mais bonitos. Nayana tinha um desses irmãos deuses do ébano. Tocava percussão numa banda de pagode e era muito assediado pelas amigas das irmãs. Euzinha inclusa.

Num dos muitos sábados em que a vó de Nayana fez sua famosa feijoada percebi o quanto ele era gostoso. Tinha dormido lá na sexta anterior e ao acordar fui ao banheiro. Abri a porta ainda sonolenta e me deparei com ele tomando banho. Nossa! Não poderia ter acordado melhor. Fechei a porta rapidamente e fui para a cozinha onde o resto da turma conversava sobre a balada da noite anterior e tomava café.

Depois do banho ele veio pra cozinha e não tirava os olhos de mim. Nem eu tirava os meus dele. Michele e Átila foram os únicos que perceberam o algo a mais. Érico saiu nos deixando na cozinha. Quando Nayana saiu também, Átila perguntou: “O que tá havendo entre vocês?” “Nada, ora.” Mas Michele não acreditou: “Sei. Quem viu quem pelado?” Tentei desconversar, mas aparentemente fui ficando vermelha porque eles começaram a rir. O resto do dia seguiu com olhares e sorrisos discretos.

No domingo fomos à praia e lá ficamos até anoitecer. A família foi embora por volta das cinco, deixando os jovens curtindo o lual que começava. Érico conversou primeiro com a irmã, como se pedisse permissão. Enquanto os dois conversavam um rapaz qualquer se aproximou de mim com segundas intenções. Érico viu de longe minha falta de interesse pelo cara, se aproximou e simplesmente me beijou. Depois disse: “Desculpa cara, mas ela tá comigo.” E que sorriso lindo!

Passamos a semana conversando somente pelo telefone. Os dois trabalhando e estudando muito. Mas na sexta veio jantar no meu apartamento. Despachei Michele para dormir com Eric e me preparei (se é que você me entende) para recebê-lo. Chegou por volta das oito. Vestia-se com estilo e estava muito cheiroso. Jantamos, coloquei Willie Dixon pra tocar e ficamos conversando no sofá. De repente ele disse: “Não agüento mais.” E me agarrou.

Sentei em seu colo e tirei minha blusa. Desabotoei a dele bem devagar, assim também tirei o cinto. Deitamos no sofá e ele tirou a calça e meu short. Tinha os braços fortes que me pegavam com autoridade. Me fez virar de costas e eu apoiei as mãos no braço do sofá. Segurou meu quadril e me trouxe pra perto de si. Depois com as mãos nos meus seios puxou meu torso e senti seu peito quente nas minhas costas.

Ele dizia coisas bem cafajestes no meu ouvido. E aquilo deixava tudo mais quente. Entenda: coisas cafajestes e não vulgares. Sentou-se no sofá e eu sentei em seu colo. Ele me acariciava e ficava repetindo o quanto me achava linda e gostosa. Pediu que eu gemesse alto, que adorava me ouvir. Ele me agarrou pela cintura e ficou de pé. Mais uns minutos e me encostou na parede.

O CD recomeçava pela terceira vez quando caímos esgotados no sofá. Dali fomos tomar banho e dormimos. Quando acordei o clube já estava na sala aguardando ansiosamente meu despertar. Assim que cheguei fizeram a algazarra peculiar que sempre faziam. Nayana era a única que não estava lá. Mas não se importou que tivéssemos ficado. Deixei bem claro pra ela que o lance era físico e nada mais que isso. Ninguém tava iludido na história.

Fiquei com Érico mais algumas vezes. Um mês ou dois depois desse dia. Logo ele arrumou uma namorada ciumentíssima. Que me odiava com todas as forças, talvez (com certeza) ele comentou sobre a gente. Mas Érico entrou pra minha coleção de melhores amantes. E com nota máxima.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Natureba

Duas coisas. A primeira: o clube dos cinco virou dos seis e a nova participante tinha que ganhar um texto como os outros. A segunda: natureba é a palavra que mais se aproxima do estilo de Nayana, mas ainda não é a mais adequada. Natureba soa mal, como se a pessoa fosse chata e exigente. Que fica corrigindo hábitos por onde passa por que sabe que o seu é melhor. Mas ela não era assim e não é nesse sentido que ela era natureba.

Nayana era natureba por gostar de coisas naturais, a começar pelas roupas. Quase todas eram de algodão. Ela não tinha uma peça de jeans. E comprava tudo nos cantos mais baratos. Os cabelos eram lavados com os produtos básicos e secos ao vento. Às vezes ela passava um reparador de pontas ou um ativador de cachos. A alimentação não incluía enlatados nem carne. Não tomava refrigerante, não comia frituras e não passava nem perto de uma restaurante de fast-food. Nesse sentido era natureba mesmo.

A criação ajudava. Nayana era neta de uma preta velha cachimbeira. A vó, a quem todo mundo chamava madame Suzete, era parteira e rezadeira. Ela tinha um carinho muito especial pelo André e pelo Átila. Mas todo o clube a chamava de vó. Madame Suzete era de um interior de um interior. Na verdade de uma vila que era distrito de uma cidadezinha de 25.000 habitantes. E dizia orgulhosa: “É minha filha, ajudei a botar metade daquela cidade no mundo.” Depois dava uma longa tragada no cachimbo.

Nayana escutava músicas “de raiz”. São aquelas que tem uma zabumba no meio. Andava com carinhas que calçavam sandália de couro, tinham barba e usavam brincos e anéis de coco. As meninas usavam batinhas indianas, chinelinha rasteira e também usavam brincos e anéis de coco. Alguns tinham dreadlocks, tanto meninos quanto meninas, mas nenhum deles tinha uma peça de roupa jeans.

Às vezes ela nos chamava pra festas dos amigos do lado “raiz” e no começo foi até interessante, mas não era nosso tipo de música nem nosso tipo de tribo. Era uma questão de preferência mesmo. Mas gostei do pessoal. Gente verdadeiramente da paz. Uma galera que não se estressava com nada e vivia em harmonia plena. Tinha até alguns deles que viviam numa sociedade alternativa numa praia.

E de tantos boys que tinham em seu encalço resolvi chamá-la de outra forma: Iracema, a virgem dos lábios de mel. Todo menino que ela beijava ficava apaixonado. Na verdade num precisava de esforço pra se apaixonar por ela. Mas depois que elas os beijava a paixão se intensificava. Um deles fez até uma daquelas loucuras de amor no carro de som. E depois disso eu fiquei curiosa sobre o que o beijo dela tinha de tão diferente.

Perguntei ao André, que como cavalheiro que era não falou nada, apenas que: “Foi uma experiência extremamente satisfatória.” E a frase foi dita no meio de um enorme sorriso de nostalgia. Desisti de tentar descobrir qual era, mas tive certeza que tinha um segredo. Mas nos limitamos a zombar dela toda vez que um menino aparecia apaixonado.

Para Nayana o copo estava sempre meio cheio. Pra ela não tinha tempo ruim ou desconforto. Pelo contrário. Tudo tinha um lado positivo. Na maior parte do tempo era ótimo estar ao lado dela, ela dava força, botava pra cima mesmo.

Mas tinha momentos em que tudo que eu queria era jogar uma coisa na parede, botar a raiva ou frustração pra fora. E a senhorita o-copo-está-meio-cheio aparecia com o papo auto-ajuda. O pior era que ela sempre era tão encantadora e meiga que não tinha como não esquecer tudo e pensar em pôneis e borboletas. O resto do dia inteiro. No fundo eu sempre soube o segredo dela. Nayana não era humana. Ela sempre foi uma fada.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Caso Perdido

Chegou a vez de falar sobre Eric, nosso amigo cor de rosa. Eric teve muita dificuldade em assumir sua homossexualidade. Especialmente pra família. O pai era sério e rigoroso, daqueles que impõem horário pra tudo. Um minuto atrasado para o almoço era motivo de sermão, não estudar três horas por dia era motivo de castigo. Tinha horário certo para cada atividade: ler, ver TV, passear. Imagino como deve ter sido difícil crescer num ambiente tão controlado.

A mãe era uma senhora distinta e católica, que acreditava na santidade do casamento. Foi herdeira de algumas propriedades que tinham sido vendidas há tempos para cobrir as despesas de casa. Agora só tinham a casa onde moravam. Eric tinha dois irmãos, um rapaz e uma moça de 16 e 14 anos respectivamente, e eles se davam muito bem. Mais com a irmã do que com o irmão, mas ainda assim uma relação harmônica.

Eric não gostava muito de se relacionar com as pessoas, geralmente ficava na dele. Tinha medo que descobrissem seu segredo. Só conversava mesmo com quem já sabia, colegas de escola, da faculdade, da dança e do teatro. Mas era notável a diferença com a gente do clube. Brincava, fazia piada, se montava. No dia a dia ele não tinha jeito de bichinha, mas na hora da bagunça fazia todas as caras e trejeitos.

Quando enfim tomou coragem e falou pra mãe que era gay a pobre ficou em choque. Todos os planos que tinha feito ficaram pra trás. Aos poucos foi aceitando e percebendo que não era nada demais. Para o pai foi um pouco mais difícil. Eric já morava fora quando contou, o pai dele não quis conversa, fechou a cara e ficaram sem se falar por quase um ano. O irmão se revoltou e fazia tudo pra começar uma briga. A irmã adorou.

A mãe dele caiu na besteira de contar a novidade para uma irmã. Logo a mais fuxiqueira. Resultado: Em dois dias a família toda estava sabendo. Eric começou a ser apontado nos encontros familiares e quando passava cochichavam alguma coisa. Ele escutou os tios conversando e um deles dizendo: “Esse mundo tá perdido mesmo, um rapaz de uma família tão boa... Se perder assim.” Eric respondeu: “Nossa, pelo jeito que vocês falam parece que eu resolvi vender crack. Não é nada disso. Apenas sou livre pra amar quem eu quiser... E vocês com isso?”

Mas esse tipo de atitude só começou a aparecer quando Eric começou a andar com a gente. Viu que não tinha motivo nenhum de vergonha e que nós o apoiávamos em tudo. Aprendeu inclusive a ter orgulho do que era apesar dos constantes insultos a que era submetido em todos os ambientes que andava. Perdeu empregos e “amigos” por isso. Mas na sua maneira deixa pra lá de ser fez exatamente isso: deixou pra lá.

Eric também sofreu um bocado amorosamente (e quem não sofreu?). O primeiro namorado que teve foi uma bichona de 50 anos que tinha até tudo em cima, mas que o mostrava como troféu. Resolveu terminar. O segundo foi um pitboy que jurava que não era gay, falava mal dos gays quando estava com os amigos, mas era uma passivinha que ligava pro Eric a cada dois dias com voz doce e segundas intenções. Depois que se satisfazia mudava completamente o comportamento. Virava um brutamontes machão.

Eric só deu um pouco de sorte depois disso. Conheceu um rapaz gente boa e até namoraram por uns meses, mas infelizmente o rapaz estava de mudança para outro estado. Ainda ficaram de tico tico no fubá pelo telefone um tempo, mas logo cada um seguiu seu rumo. E Eric começou a rodar no mundo gay de vez. Ia à festas e bares da tribo, fez amizades nos canais de bate papo e aprendeu as gírias e macetes do multiverso do arco íris. E claro nos levou para dar umas voltinhas por lá. Nós tínhamos o ticket dourado.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

All That Jazz

Uma noite cheguei do trabalho e tinha uma carta passada por baixo da minha porta. Era da Giza, amiga do Cardoso. Pedia que eu entrasse em contato e dizia que sentiam minha falta na escola. Ela também jurava que Cardoso a estava assombrando. Liguei no dia seguinte e ela me convidou para voltar dançar. Sentia falta mesmo de dançar e nem sei por que tinha parado. Assim que dividi a novidade com o resto do clube Eric se animou pra voltar também. Átila se interessou em aprender.

Dois dias depois estávamos de volta. Muitas caras antigas, mas a maioria eram caras conhecidas. Mesmo tendo um pouco mais de técnica que Átila eu e Eric resolvemos ficar na mesma turma que ele. Dava certo nos horários de todos também. Descobrimos o quanto estávamos enferrujados. Eu não tinha mais metade da minha elasticidade. E Eric não fazia mais tantas piruetas.

Mas foi uma mocinha de jeito simples e meigo que nos conquistou e fez aquela volta valer à pena. Tinha uma cor de chocolate maravilhosa e uma maneira simples de falar as coisas, sem muito rodeio. Chamava-se Nayana e era uma das caras novas do estúdio. Fizemos amizade rapidamente, e ela contou sobre os projetos sociais em que estava engajada. Nayana era personificação do manguebeat.

Ela também já dançava há algum tempo, mas em outros grupos. Decidiu que estava na hora de dançar profissionalmente e escolheu a melhor escola pra isso. Tinha uma adoração pelo Cardoso, que infelizmente nunca chegou a conhecer, mas se deliciava com as histórias que contávamos dele. Não tinha a ambição de ser melhor do que ninguém, dançava por prazer e queria continuar dançando por prazer. Nesse ponto eu a achava um pouco modesta demais. Tinha muito talento, mas não confiava em si o suficiente para mostrar tudo o que podia.

Nayana era a mais disciplinada de nós. Nunca se atrasava, nunca faltava e fazia relatórios do que tinha acontecido nas aulas. Quando tinha tempo ficava praticando no estúdio e mantinha um estilo de vida sem excessos. Nem sei por que ela começou a andar no nosso grupo. Não tínhamos mais aquele estilo de vida “Pro dia nascer feliz”, mas ainda saíamos no sábado pra tomar uns drinques e dançar.

Não foi de se admirar quando André se apaixonou por ela. Acho que todos nós nos apaixonamos por ela. Claro que só três desejavam um pouco mais. E confesso que eu estava no meio. Ela também se interessou por André, o que meu deu nos nervos, mas o babado deles não durou mais que seis meses. André estava ocupado demais com a faculdade. Tinha aulas nos dois turnos e quando chegava em casa ainda ia estudar mais.

Quando eles começaram a namorar tive um ataque brabo de ciúmes. Comecei a ser grossa e antipática com ela. Tudo que ela fazia me dava nos nervos. Comecei a ver defeito nas roupas que ela usava, no jeito como arrumava o cabelo, nas palavras que dizia, nas coisas que se interessava. Átila notou minha mudança repentina, saí de “nova BFF” pra “te odeio com todas as forças”. Ele veio conversar comigo. Quando percebi o que acontecia me senti tão idiota que fui pedir desculpas. Aos dois.

Nayana era a única de nós que tinha uma família feliz e equilibrada. Tinha pai, mãe, irmãos (2), irmãs (2) e vó. Moravam todos numa casa alegre e barulhenta, e onde achamos um novo point de diversão. Os irmãos tinham 25 e 14 anos, as irmãs 23 e 21 e ela 18. A mãe, apesar do monte de filho, era bonita e esguia (coisa que só as negras conseguem) e o pai era alto e bonitão, chovia de piriguete interessada nele, mas os dois eram completamente apaixonados um pelo outro. Eles tinham um desses amores que tem admiração e respeito antes de sexo.

Agora nossa turma estava completa. Infelizmente o nome Clube dos Cinco já não cabia. Nos rebatizamos então de Clube dos Seis.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Criminoso

Se André era o príncipe no cavalo branco Átila era o cavaleiro estiloso do lado dele. Era extrovertido e ousado, mas sempre educado e polido. Aprendeu a se virar muito cedo porque infelizmente não tinha ninguém que cuidasse dele. Já que era ele quem cuidava do irmão dois minutos mais novo. Talvez por isso, por ter que aprender a ser gente grande tão cedo, é que Átila aprendeu muito bem a usar caminhos alternativos.

Aos treze começou a beber e fumar, passou a andar com a turma barra pesada do bairro e aprendeu entre outras coisas a abrir fechaduras, bater carteiras, falsificar assinaturas e entrar em contato com revendedores de você sabe o quê. A habilidade é mais do que pegar o telefone e saber o que dizer. É numa festa ou na praia saber quem está vendendo e se é coisa boa ou não. Ele sabia isso de longe.

Átila também conhecia gente que trabalhava com clonagem de cartões, falsificação de documentos (tinha uma identidade falsa aos 15), roubo de carro e fraudes na previdência social. Mas se mantinha longe disso tudo. Acenava de longe quando via alguém desse mundo e se ligassem pedindo uma dica de quem fazia, por exemplo, uma carteira de habilitação falsa desconversava e negava tudo. Pra gente dizia: “Apenas conheço caras que conhecem caras...” E sorria.

Ele também tinha um ar de Justiceiro quando algum de nós tinha problema. Como no dia em que, junto com André, detonou à marretadas o carro de um ex namorado meu por que ele tinha me batido. Ou no dia em que descobriu que um dos “bad ass” da escola encomendou uma surra para André porque teve a namorada roubada e foi apanhar no lugar dele. Teve o braço quebrado e foi levado ao hospital. Quando perguntaram o que houve disse somente que tinha entrado numa briga, sem explicar o porquê.

Átila começou a trabalhar com 16 anos em qualquer coisa que aparecesse. Empacotador de super mercado, entregador de pizza, vendedor de material de construção. Mas não era por necessidade financeira, a mãe era uma cantora de MPB bem famosa no país e viviam consideravelmente bem. A necessidade era pessoal. Necessidade de ser independente e fazer as coisas do jeito que bem entendesse. Fez inclusive um acordo com André: “Você estuda, eu trabalho.”

Em alguns momentos ele parecia um senhor da década de 40. Sentava na varanda, acendia um cigarro e com as pernas cruzadas contemplava a paisagem. Mas combinava com ele. Tinha uma maneira elegante de se portar e conversar. E isso deixava as moçoilas loucas. Ele não tinha medo de ser idiota, de ser apaixonado e fazer loucuras de amor espontâneas. Inclusive com as amigas. Ganhávamos flores e massagens no nosso aniversário. O mesmo tratamento era estendido a Eric, exceto pelas flores, no lugar delas Eric ganhava chocolates.

E pela maneira gentil que nos tratava não cobrava absolutamente nada. Fazia por prazer, por gostar de nos ver felizes. Talvez uma compensação pelo comportamento explosivo que tinha. Ele não tinha muita paciência de escutar desaforo, agia por pura emoção. Átila era à vista enquanto André era a prazo. Mas ele não tinha a menor dificuldade de reconhecer quando estava errado. Pedia desculpas com sinceridade. E quando fazia uma promessa com certeza cumpria.

Quando eu e Eric voltamos a dançar Átila resolveu fazer uma aula com a gente. Descobriu uma nova paixão. E descobrimos que ele levava jeito pra coisa. Com um pouco de técnica seria um extraordinário dançarino. Mas aí já outra história.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ainda clichê

Quase no fim do semestre um novo professor chegou à faculdade. Era um dos maiores especialistas em José de Alencar e muito respeitado no exterior. E eu, claro, não podia perder o curso de literatura do século XIX que ele ministraria. Fui uma das alunas convidadas pessoalmente por ele. Quando saí de uma aula estava me esperando na porta. Me entregou o panfleto e conversamos um pouco sobre a carreira de professor.

Na quarta feira seguinte o curso começou. Era um curso de um mês apenas, um teste para uma possível disciplina optativa, onde conversaríamos sobre o básico. Mas comigo ele sempre queria conversar um pouco mais depois das aulas. Acabávamos sempre na cantina tomando um café e batendo papo. Numa noite na segunda semana me chamou para jantar. Disse que eu tinha um carisma muito difícil de encontrar. “O frescor da mocidade com a contemplação da experiência.” Segundo ele.

É claro que o clube dos cinco tirou sarro da minha cara. Mas o professor não era um velho caquético, na verdade era um cinqüentão que tinha uma orelha furada. Nasceu nos Estados Unidos, mas veio morar no Brasil ainda bebê. Tinha nome de americano: Andrew. E um filho dois anos mais velho que eu que estudava Jornalismo na mesma faculdade chamado Felipe. Nos conhecemos depois.

Então fui jantar com ele. Durante a noite inteira foi elegante e atencioso. “A maioria das garotas da sua idade são muito imaturas, achei você diferente.” “Ela não viveram tudo o que eu vivi.” Tivemos um jantar maravilhoso. Depois foi me deixar em casa. Dois dias depois saímos novamente. Dessa vez fomos pra casa dele depois do jantar. Homens mais velhos tem um jeito bem diferente de se dirigir a uma dama. Não são apressados como os moçoilos, sabem que ritmo seguir. Criam uma atmosfera e enfeitiçam de tal maneira que quando dei por mim ele me beijava e abria o zíper do meu vestido.

Tirou vagarosamente cada uma das peças que eu vestia. Com olhar sedutor tirou as dele. Depois mudou completamente de doce e romântico para apaixonado e intenso. Passava as mãos pelo meu corpo sem moderação e com satisfação notável. Quando enfim deitei nua na cama me observou como um escultor que observa sua musa. Procurando cada detalhe, cada poro, cada músculo tensionado. E comigo em seu colo observou cada gesto, cada suspiro e cada gemido meu nos instantes seguintes. Sorriu quando a contração dos meus músculos foi mais forte que eu. E me abraçou pra sentir cada espasmo.

Antes de dormir disse-lhe que não seria exclusiva. Ele era meu amante, não meu dono, nem meu marido. E desde que tivéssemos esse acordo quando estivesse com ele seria somente dele, sem mais ninguém no meu pensamento. Ele aceitou. Disse que eu era caprichosa e que ele não poderia fazer nada senão se render às minhas ordens. Mas que ia ser difícil aceitar que eu poderia estar com outra pessoa. “Farei o favor de não te dizer.” “Obrigado pela consideração.”

Ele se tornou membro do corpo docente oficial da faculdade e no semestre seguinte o mini curso virou uma disciplina optativa. Nós ficamos nesse rala e rola por uns três ou quatro meses. Depois disso nos encontrarmos foi ficando cada vez mais difícil. Ele começou a se interessar por outras musas e eu por outros cavalheiros e cavaleiros (porque não?). Mas não perdemos o contato completamente. Ocasionalmente nos encontrávamos pra tomar um café e botar os papos em dia. Mas os encontros amorosos ficaram tão esporádicos que por fim deixaram de existir.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sem tempo nem pra me coçar

Em algumas épocas do ano o fluxo de eventos internacionais na cidade aumentava, o que significava um aumento de trabalho pra mim. Às vezes trabalhava em dois ao mesmo tempo e tinha que conciliar com a faculdade e o vôlei. Eu podia me gabar de ter certo respeito no mercado, meu nome era conhecido e cobiçado. Uma empresa inclusive me contratou como exclusiva simplesmente para não temer que eu fosse exclusiva de outra. Ainda assim aceitava que eu trabalhasse com empresas parceiras.

Meu preço era alto, confesso, mas não era muito fácil encontrar alguém que traduzisse simultaneamente e com fluência três idiomas. Inglês, Francês e Espanhol. Até tinha quem conseguisse fazer no papel, mas fazer isso de cabeça era mais complicado. E por ter uma pronúncia bem similar à dos estrangeiros eu era, por vezes, designada para assessorá-los, ficando assim 24 horas de plantão. A alta estação era uma correria. Dormia quando dava, comia enquanto me deslocava (fosse no elevador, no carro ou nos corredores) e ficava o tempo todo de salto.

Mas isso não significava que a baixa estação seria tranqüila. Também trabalhava um bocado, geralmente como professora substituta em cursos de línguas. Cobria uma aula ou duas de professores que faltavam porque estavam doentes ou precisavam resolver problemas pessoais. Eu não tinha formação de professora, mas pela minha experiência no mercado dava pra quebrar o galho. Meu outro bico era numa escola de reforço escolar. Os professores de matemática, física e química (obviamente) trabalhavam mais.

Até aí as coisas ainda andavam nos eixos. Era um horário apertado, mas eu dava conta. Mas resolvi adicionar mais um. O gerente de um hotel me ligou numa tarde de domingo. Disse que precisava de alguém que pudesse assessorar um cliente VIP. O homem, um empresário americano, chegaria à cidade pra fiscalizar a montagem da nova filial de sua empresa. Ficaria 15 dias e precisava de alguém com vocabulário vasto e ótima pronúncia. Meu nome surgiu na pesquisa e o lucro era extraordinário. Aceitei.

Por esse cliente eu parei de fazer todas as outras coisas. Mas depois que o atendi com tanta excelência outros quiseram o mesmo serviço. E comecei a receber telefonemas de quase todos os grandes hotéis da cidade. Não podia mais parar minha vida inteira por isso. Então fiz a burrice de tentar conciliar. No começo foi até interessante. Mas de repente comecei a não ter tempo para mais nada. Via meus amigos cada vez menos, faltava aulas, perdia treinos e estava ficando cada vez mais cansada.

Até que num dia que eu tive folga (aleluia) o clube dos cinco se reuniu e fez uma intervenção. Disseram que sentiam minha falta e que meus trabalhos estavam atrapalhando outros aspectos da minha vida. Como a faculdade, onde eu já tinha tantas faltas que talvez reprovasse algumas disciplinas. Eu nem sabia por que trabalhava em tantos lugares. Então tirei o que dava mais trabalho de conciliar. Ser professora substituta e o reforço escolar. Fiquei com os clientes VIPs e os eventos. Depois que fiz essa escolha consegui retomar meus treinos no Stella, depois de um sermão e focar na faculdade, depois de pedir muito aos professores que não me reprovassem.

Fiquei mais feliz assim. Ainda era muito e exaustivo trabalho. Mas conciliável. Ainda fazia minhas refeições no caminho, na escada, no corredor. Ainda chegava exausta por ter usado salto o dia inteiro (e ganhava massagens do André). Ainda recebia ligações de madrugada dos clientes que queriam qualquer coisa. Mas agora podia ir ao cinema, aos almoços de famílias e tinha, às vezes, uma semana inteira de folga. Que eu aproveitava muito bem, obrigada.

domingo, 18 de abril de 2010

Judas

Tudo começou quando fiquei com o menino que Michele tava afim. Em minha defesa eu não sabia que ela estava afim dele. E em nenhum momento ela disse ou fez nada que mudasse minha impressão. Ele veio cheio de galanteios e eu que estava livre e desimpedida me deixei fisgar. Fui desapontada. Ele nem era tão bom ficante assim. Era egocêntrico e vaidoso (duas qualidades que sempre andam juntas), e tinha a mania de exagerar em certas coisas. Uma menina impressionável cairia na lábia. Not me.

Mas o problema veio depois daí. Michele não gostou de ver a gente ficando e em vez de falar comigo sobre o que sentia resolveu falar com os outros. Outros esses que não eram do nosso convívio e falar sobre coisas que eu só falei com ela. Como por exemplo, meus encontros amorosos com os dois irmãos. E os episódios de indiferença da minha família. Coisas íntimas e confidenciadas que não necessitam de pedido de segredo, fica implícito. E coisas que a irmandade das BFFs (Best friend forever) condena veemente que sejam compartilhadas.

Michele contou às amigas do curso de moda basicamente tudo de errado, embaraçoso ou reprovável que eu fiz. E elas fizeram o favor de passar tudo isso mais pra frente ainda. Percebi que havia algo errado quando numa conversa com alguns colegas da faculdade escutei alguém cochichar: “Era o namorado da mãe dela.” Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha. Mas a confirmação veio quando cheguei ao restaurante da faculdade e fui surpreendida por uma briga. Consegui reconhecer André, Átila e Eric no meio dela. Aparentemente soltaram alguma piada com meu nome e os três resolveram sair no braço com os mal feitores.

No apartamento dos dois e com bifes na cara me contaram o que tinha acontecido. Fiquei sem acreditar que Michele fizesse algo assim. E por puro ciúme. Não consegui voltar pro meu apartamento. Não queria vê-la nem pintada. Quando anoitecia veio me pedir desculpas. Deixei que falasse sozinha e fui pro quarto do André. Dormi lá mesmo. Passei em casa de manhã pra trocar a roupa e pegar meus livros, ela tentou mais uma vez se redimir, mas foi em vão. Fingi que estava sozinha e saí o mais depressa possível.

Na segunda noite fiquei no quarto do Átila. Ela apareceu querendo conversar. “Michele, eu entendo que você ficou chateada comigo e claro que eu vou eventualmente te perdoar. Mas não agora. Eu preciso de um tempo. Só isso.” Ela saiu sem dizer mais nada. E eu fiquei mais uma semana com os AA. Numa noite o Átila foi dormir no apartamento com ela pra fazer companhia. Me abri com André sobre meus sentimentos em relação a tudo. Chorei até. Ele me deu um beijo carinhoso. Depois contou a história da Bela Adormecida pra eu dormir.

Na manhã seguinte resolvi me divertir com a coisa toda. Passei num fliperama e troquei 15 reais em moedas de cinquenta centavos. Coloquei num saco de pano e deixei na porta do quarto de Michele. Escrevi um bilhete. “Aqui está seu pagamento... 30 peças de prata.” Ela ficou meio desconfiada de que eu ainda estivesse aborrecida. Mas sabia que quando eu estava brincando com a situação era porque metade já estava esquecida. Comentou quando me viu: “Recebi um dinheiro hoje, o que você acha de tomarmos sorvete?”

Ainda demorou um pouco pra que voltássemos completamente ao normal novamente. E ela acabou ficando com o tal carinha dias depois, mas concordou comigo que ele era chato e pateta. “Perdi meu tempo.” Disse depois pra gente. E demos uma grande gargalhada. Passamos tanto tempo rindo que nos esquecemos do que ríamos. Rimos, então, por isso.

sábado, 17 de abril de 2010

O Cérebro

André sempre foi muito inteligente. Desde criança. Ele tinha uma memória quase eidética (memória fotográfica), quase porque ele não memorizava tudo. E, além disso, era curioso. Gostava de ler e aprender sobre tudo. De insetos a buracos negros. De tradição circense a hidrocarbonetos. Era a única pessoa que eu conhecia que sabia o que era (realmente) o complexo de Golgi. André aprendia por ler sobre, vendo e escutando explicações detalhadas.

O jeitão rebelde com brincos e roupas bem folgadas era um mecanismo de defesa. A mãe fez o favor de não dizer de quem ele era filho, então o único macho com quem ele podia contar era o irmão Átila. Ela teve vários namorados e amantes ao longo da vida deles, mas nenhum deles foi aceito de verdade pelos dois irmãos. Átila principalmente. Os dois tiveram uma infância doída e efêmera. Tiveram que crescer rápido e aprender logo os macetes da vida.

A mãe deles era cantora, logo levava uma vida de excessos e festas infinitas. Onde os dois aprenderam desde cedo a beber e fumar. Foi na presença dela que experimentaram maconha pela primeira vez. André quase sempre apenas ia na onda. Não era pressionado diretamente, mas vendo o irmão estiloso sempre popular e divertido se sentia um pouco descolado se não participasse de certas coisas. Foi assim com o piercing que colocaram.

André era romântico, sensível e carinhoso. Tinha um carisma natural e não precisava forçar um sorriso sincero. Era mais tranqüilo e pacifico que Átila, e sempre ouvia os dois lados de uma briga. Era com ele também que ficavam os maiores segredos. O presente de aniversário perfeito para André era com certeza livros. Não importa de que fosse. Ficção, técnico, drama, auto ajuda, história da Polônia. Ele os lia com a mesma paixão e intensidade. Sempre levava um livro consigo.

Ele descobriu a paixão por medicina antes mesmo de chegar ao ensino médio. Com 12 anos a carreira estava decidida. Com 12 também colocou o primeiro brinco e levou a primeira surra do amante da mãe. Átila, claro, se meteu e os dois passaram uns quatro anos morando com uma tia. Ficaram ainda mais grudados e a ligação paranormal aflorou de vez. Átila bagunçava com uns amigos na piscina de um deles quando foi pego de surpresa e jogado na água. André que dormia a 7 km dali sonhou que estava sendo jogado dentro de uma piscina e acordou assustado.

Quando enfim voltaram pra casa da mãe eram “homens feitos” com quase 17 anos. Ela prometeu mundos e fundos (e entrou em reabilitação) e viveram felizes por um bom tempo. De vez em quando discutiam sobre a paternidade desconhecida e algumas peças de decoração eram atiradas na parede. Sempre entre ela e Átila. André preferia o silêncio. Se afastava e lidava com aquilo tudo depois. E com o apoio do irmão. Era assim que lidava com tudo. Se afastava e analisava com a cabeça fria e todas as informações. Por isso sempre acabava perdoando a mãe. E Átila se negava a entender o porquê.

André chegou a receber ofertas de bolsas de estudos em outros estados onde moraram. Recusou todas. De que adiantaria ser um gênio sozinho? Preferia ser mediano com o irmão do lado. Átila chegou a dizer uma vez que André tinha um Q.I. de 147, o que André negava com um sorriso envergonhado. Mas sabíamos que era verdade. Ele era o cabeça da turma. O que tinha os melhores conselhos e as idéias mais práticas. Era o que tinha as melhores respostas também. Tinha um diálogo simpático e amigável, que cativava qualquer um.

Quando disse que ia fazer vestibular pra medicina as pessoas fizeram o que sabem fazer melhor: estragar as coisas. Disseram que seria muito difícil, que ele deveria ter determinação e que ninguém passava de primeira. Fiquei muito feliz em estar presente no dia em que André calou a boca de todos eles. Enquanto o parabenizavam disse: “É, pra maioria imbecil da população passar em medicina deve ser difícil mesmo. Pra mim não foi.” Passou em quinto lugar geral e segundo do curso. Depois disso só ouvimos o cricrilar dos grilos.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Minha mãe apronta mais uma

Pouco tempo depois que comecei na faculdade fui a um almoço de família. Lá meu irmão me informou que nossa mãe estava de namorado novo. E que ele estudava na nossa faculdade. Fazia Educação Física. Meu queixo começou a cair por aí. Mas tinha mais. Os dois tinham algumas cadeiras juntos. E ela aparentemente não sabia. Nem minha vó sabia do romance.

Dias depois desse almoço fui a uma pizzaria com o clube dos cinco e mais uns amigos do teatro. Adivinha quem estava lá? Minha mãe e o bofe dela. Fiquei morta de vergonha. Todo mundo começou a comentar que minha mãe tava lá com um rapaz que tinha idade pra ser filho dela. Quando me viu me chamou até a mesa onde estavam. Me apresentou o dito cujo. Fui o mais simpática possível. Conversamos trivialidades da minha vida e pronto.

Na quinta-feira seguinte ela me liga (o que era bastante estranho) dizendo que precisa de um favor. Aparece na minha porta com a marmota e diz: “A casa dele tá sendo dedetizada, ele pode ficar aqui?” Meu queixo foi bater no chão. Que audácia! Queria que eu hospedasse o bofe dela. “É só por esse fim de semana.” A Michele não tava em casa, tinha ido visitar o pai. “Vou ligar pra Michele, se ela deixar por mim tudo bem (mentira!).” Ela deixou.

Sexta quando voltei da aula o bonito tinha reorganizado minha geladeira. “Posso saber por que você mexeu na minha geladeira?” “Só fiz otimizar o espaço.” “Prefiro meu espaço pessimizado.” “Fica mais fácil achar as coisas assim.” “Eu gosto de demorar a achar as coisas, assim a gente tem tempo pra pensar na vida. Ou você nunca abriu a geladeira pra pensar?” Fui tomar banho e deixei ele falando sozinho.

Ainda toda ensaboada meu celular toca. Era minha mãe reclamando que eu não sabia receber visita. “Aprendi assim porque fui ensinada assim.” Desliguei o telefone e fui terminar meu banho. Fomos almoçar com o resto do clube. Assim que sentamos começou a explicar que não deveríamos comer carne, que uma dieta vegetariana era melhor e que pelo que tinha visto no meu apartamento eu tinha uma alimentação muito precária. “E daí?” Perguntei. “Essa é a sua opinião, eu penso de outra forma.” Disse me levantando e indo fazer meu prato. Não tenho nada contra quem é vegetariano, mas não aceito que tentem me impor coisa alguma.

Quando começamos a comer ele fez cara de nojo. Nem nos preocupamos. Continuamos com nossa refeição rindo e conversando sobre os acontecimentos do dia. Depois do almoço voltamos pra casa onde ele sentou-se em frente à TV como se tivesse em casa. Fui tirar minha sagrada soneca. Ele não aprontou mais nada até sábado quando eu disse que estava de saída para o teatro. Ele pareceu não entender então eu disse com todas as letras e pingos nos is. “Eu vou sair agora e não quero que você fique sozinho no meu apartamento. Não te conheço, não sei se você é um ladrão, um psicopata ou um maconheiro. Então por gentileza levante a bunda do meu sofá e fique fora até que eu volte.” Só assim ele levantou. Lembre-se que ele tinha por volta de 22 anos.

No domingo à tarde ele foi (até que enfim) embora. Mas minha mãe apareceu pra dizer o quanto eu tinha sido insolente. Discutimos um bocado e eu disse tudo que pensava desse “romance” de meia tigela. Disse que tinha vergonha desse comportamento e principalmente de ter que fazer parte disso tudo. Ela engoliu e foi embora. Conversando com os meninos eles disseram que talvez eu tivesse sido um pouco agressiva demais. Respondi que tinha esse direito. Ela podia fazer o que quisesse da vida desde que bem longe de mim. Mas que não esperasse nem minha aceitação nem meu respeito. Eu não fazia as minhas frivolidades na frente dela, queria a mesma gentileza. Assunto encerrado.

E foi isso. Minha relação com a minha mãe terminou de verdade nesse dia. Ainda nos víamos em almoços e Natais, riamos e conversávamos sobre coisas supérfluas. Mas nunca mais tive nenhum sentimento. Se ainda existia algum se esvaiu. Ela era como a mãe de um amigo. Longe e desconhecida e por quem eu nutria um sentimento apenas de “ser humano como eu” e nada amais.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Menina com Menina

Assim que as aulas começaram Eric ficou amigo de uma colega de sala chamada Isabel. Ela começou a aparecer muito no apartamento dele pra estudar e fazer trabalhos e notei o quanto eu a achava bonita. André também. Ele inclusive quis ficar com ela numa festa, mas descobrimos que ela não ficava com meninos. E Eric disse que ela tava afim de mim. Eu já tinha beijado a Michele, mas tinha sido de brincadeira. Mas ficar com uma menina com interesse mesmo nunca cogitei.

Depois que soube que ela tava a fim de mim fiquei pensado nisso o tempo todo. Não conseguia tirar a menina da cabeça. Então tivemos uma calourada. Festa onde os veteranos dão as boas vindas aos novos estudantes. E foi um lual na praia. Ela estava absolutamente deslumbrante. Com um vestido branco e coroa de flores que acentuava os cachos ruivos. Parecia uma ninfa. Aquilo me deixou caidinha e falei pra Eric que estava a fim dela. Ele tratou de juntar dois mais dois.

Nos afastamos um pouco pra conversar. Ela disse que me achava linda e que era afim de mim desde que me viu a primeira vez. Confessei que nunca tinha ficado com uma menina. Mas isso não me impediu de beijá-la. As meninas são mais carinhosas, pelo menos as femininas, as caminhoneiras nunca me despertaram nenhum sentimento romântico. E me sentia bem com ela.

Começamos a nos encontrar mais vezes. Ela vinha pro meu apartamento e ficávamos nos agarrando no sofá. Eu comecei a ter o desejo de acariciá-la, de beijar seu corpo inteiro. Aos poucos algumas peças de roupa eram atiradas no chão e mãos cada vez mais bobas apareciam. Migramos pro quarto. Lá ficávamos sem roupa nenhuma. Nesses assuntos Isabel era mais experiente que eu, mas eu não fazia feio.

Mas tudo quase chegou ao fim quando sem querer vi Átila tomando banho. Fiquei sem café e fui ao apartamento deles pegar um pouco. Era pra estar vazio, os dois trabalhavam naquele horário, mas escutei o chuveiro ligado. Fui ver quem era e me deparei com Átila tomando banho. A espuma descia maliciosa pelas suas costas e fiquei hipnotizada com a cena. Percebi que sentia falta de um braço forte me pegando. Do cheiro masculino no meu corpo. Quando percebi me despia e beijava Átila no chuveiro. Ele foi tomado por uma selvageria momentânea e sem dizer nenhuma palavra me devorou embaixo da água.

Ainda assim não terminei com Isabel. Gostava das duas coisas. Gostava das carícias gentis e dos afagos carinhosos que ela fazia. Dos lábios cuidadosos na minha pele e das mãos finas que passeavam espevitadas pelo meu corpo. Mas gostava também das mãos grandes e desajeitadas, do corpo forte e da pegada doída que só um homem tem. Na verdade os dois se completavam. Depois do momento com Átila no chuveiro tive coragem de ir aos finalmente com Isabel, até então tínhamos ficado só nas carícias.

Pedi que Michele dormisse fora uma noite e preparei um ambiente feminino e romântico. Digno de uma ninfa. Isabel chegou linda e radiante como sempre e não consegui só observá-la. Queria colocar minhas mãos nela. Minha boca. Meu cheiro. Ali no tapete da sala me debrucei sobre seu corpo quase franzino e delicado. A voracidade de Átila ainda corria no meu corpo e a usei para satisfazê-la. Ela gemeu, gritou, ficou febril e trêmula. Depois desmoronou sem forças no chão.

Depois que adormeceu uma inquietação tomou conta do meu corpo. Levantei e enrolada no lençol fui bater na porta dos AA. André foi quem abriu. Sem pensar muito comecei a beijá-lo e fui empurrando ao quarto. Ele parecia um pouco confuso, mas não hesitante. Me jogou na cama e veio se entrelaçar no meu corpo. Senti com ele tudo o que tinha feito Isabel sentir. Me deixou no mesmo estado trêmulo e febril que ela. Dormimos esgotados.

Pela manhã conversei com os AA. Cheguei a conclusão que isso não era saudável pra ninguém. Quando cheguei em casa ela ainda dormia. Esperei que acordasse e terminei tudo. Disse que tinha adorado tudo, mas que infelizmente gostava do outro time. Tinha saudade do amor dos homens. Ela entendeu. Sabia desde o começo que pra mim era apenas uma experiência e não uma decisão. Ainda continuou amiga pelo tempo que estudou com Eric. Aos poucos seus caminhos se desencontraram. E os nossos também.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Atleta

Meu treinador me chamou pra conversar minutos antes do meu último jogo pela escola. Disse que naquele jogo estariam assistindo técnicos de times da liga profissional e que seria bem possível que eu fosse convidada pra jogar por algum deles. Ele tava certo. Nem precisei jogar meu máximo e assim que saí da quadra uma senhora de uns 40 anos (e 1,80m) veio falar comigo. Disse que eu tinha reflexos muito bons e que não tinha medo de porrada. Me chamou pra fazer um teste no time dela dali a dois dias. Aceitei.

Mas eu não sabia que se tratava de um dos maiores e mais respeitados: o Stella. O time foi formado na década de 20 e enfrentou muitos preconceitos. Era o único time que não pertencia a um clube e tinha sede e investimentos próprios. Um dos poucos que tinha participação ativa de ex-membros. Já tinha criado até associação, que contava com aulas de dança de salão, pintura e ginástica. Fazia oficinas de Literatura e tinha uma biblioteca enorme. Tudo isso podia ser desfrutado por associados e pela comunidade. Mas quem era ou foi do time tinha tratamento especial.

Quando cheguei à quadra notei que várias senhorinhas observavam tudo da arquibancada. Eram ex atletas do Stella, e tinham direito de opinar no time, entre elas estava a senhora que me chamou. Me preparei pra entrar em quadra e notei que todas as outras jogadoras em teste eram mais altas que eu. Felizmente a vaga de líbero não exige altura. A técnica (de quase dois metros) se aproximou e disse: “Com esse tamanho você deve ser levantadora ou líbero.” “Líbero” Respondi. Ela apontou pro outro lado da quadra e disse: “Você joga no time de lá.”

Joguei o melhor que eu pude. Quando o time é estranho esse trabalho fica mais difícil. Mas mesmo assim fiz defesas incríveis. Quando o primeiro tempo acabou alguns nomes foram chamados. O meu não estava entre eles. “Se você foi chamada obrigada pela visita, mas infelizmente não foi dessa vez. Quem eu não chamei por gentileza me acompanhem.” A seguimos até uma sala. Uma das meninas disse baixinho: “Agora vem a entrevista.” “Entrevista?” perguntou outra. “É, pra saber se a gente tem uma boa conduta, uma amiga minha me disse, elas perguntam se você bebe, fuma ou tem namorado.” “Porque elas querem saber se a gente tem namorado?” perguntei. “Pra saber se o foco está todo aqui.”

Quando enfim me chamaram eu fiz o mais lógico: menti. “Você fuma?” “Não.” “Usa drogas?” “Não.” “Bebe?” “Uma taça de champanhe em eventos sociais.” Depois de mais algumas perguntas me entregaram um papel. “Seus treinos começam em duas semanas.” E pediu pra que eu chamasse a próxima. Saí sem acreditar. Passei na secretaria pra pegar meus uniformes de treino e assinei um termo de exclusividade. Agora eu era uma atleta do Stella. Recebi um código de conduta, um calendário de eventos sociais e um livreto com toda a história do time.

O Stella tinha dois times. O juvenil e o profissional. O juvenil jogava contra times de faculdades e o profissional contra os clubes e empresas. Eu, como era universitária tinha que ficar no juvenil. Apenas quem já fosse formada podia entrar no profissional. Mas os dois tinham o mesmo respeito, o mesmo treinamento e o mesmo acompanhamento de perto das ex integrantes.

Cheguei em casa e fui experimentar os uniformes. Me senti duas vezes mais alta e mais forte. Senti o peso da história toda do time nas minhas costas. Minhas farras e bebedeiras estavam com os dias contados. Com certeza teria que fazer exames de sangue. Já tinham me dito que nas ligas universitárias os exames de dopping eram constantes. E eu não ia jogar pela janela a chance de jogar num dos times mais importantes da minha cidade.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Clube dos Cinco

Pouco depois das aulas começarem achei um cartaz que fazia a propaganda de um novo tipo de república de estudantes. Uma pousada do bairro estudantil tinha sido desativada e transformada em condomínio. Não era uma república propriamente dita, mas os apartamentos só poderiam ser locados por universitários. O bairro era próximo a maioria das faculdades da cidade, e por isso seus produtos e serviços eram geralmente mais baratos.

Tinham dois tipos de apartamentos. De um quarto ou dois. Mas muitos estudantes, para baratear as contas, se amontoavam em beliches e colchões e faziam até para cinco um quarto para dois. Não foi nosso caso. Eric completou 18 anos no começo de janeiro e no dia seguinte fizemos sua mudança. Ficou comigo e com os AA. Uma semana depois foi a vez de Michele, que ainda não tinha completado 18, mas não agüentou mais a casa da mãe. Nosso apartamento ficou levemente bagunçado. Começamos então a procurar outro lugar e aquele cartaz foi uma benção.

Eu fui dividir minha morada com Michele, os AA ficaram a duas portas da nossa e em frente a eles Eric, que pegou o último apartamento de um quarto. Todos eles tinham cozinha e sala. E alguns, como o de Eric, tinham varanda. A semana de mudança foi caótica e barulhenta, o prédio de três andares recebia estudantes de todo o estado, que em apenas duas semanas lotaram os sessenta apartamentos.

Nosso grupo começou a ser conhecido como o clube dos cinco. Eu era a atleta, porque jogava vôlei por um time local; André era o cérebro, porque passou em medicina de primeira; Michele era a princesa, porque estudava moda e se vestia com seus designs; Átila era o criminoso, porque conseguia qualquer droga que pedissem (de maconha a ecstasy) e Eric era o caso perdido, porque era fechadão com os outros e não dava em cima de meninas.

Começamos a ficar famosos no prédio. Famosos pelas nossas qualidades e pela nossa amizade incondicional e inabalável. As pessoas estranhavam que os AA aceitassem tão bem a sexualidade de Eric. Uma vez estávamos comemorando o aniversário dos gêmeos na piscina (ah é, o prédio tinha piscina), Eric entregou o presente de Átila que agradeceu dando um abraço e um beijo no rosto. Minutos depois estávamos conversando com um grupo quando um dos caras perguntou pra Átila: “E qual é a história de vocês dois?” E apontou pra Eric. “Ele é meu amigo, por quê?” “Amigo, é?” Disse com aquele sorrisinho imbecil de quem é isso: imbecil. “É, amigo. Você acha que porque eu dei um beijo no rosto dele eu sou gay? Pois eu já beijei ele na boca e nem virei gay.” Depois completou: “E se eu fosse gay, qual o problema?”

Calaram-se. Mais porque era Átila e ele era meio pavio curto mesmo. Mas ninguém nunca teve a coragem de falar o que quer que fosse de Eric na frente da gente. Sabiam que se isso acontecesse provavelmente teria um barraco gigantesco. E sangue. A gente sabia que tinha preconceito, mas os preconceituosos se mantinham discretos. Eles não entendiam nossa relação, e nós nos mantínhamos cada vez mais próximos.

Átila saiu do bar e foi trabalhar numa locadora, o que nos fez ter mais tempo juntos. Estudávamos na mesma faculdade, nos encontrávamos pra almoçar, trabalhávamos a tarde e nos encontrávamos novamente a tempo de jantar e bater papo na varanda de Eric. Vi ali a família que nunca tive. Parceria, companheirismo e cuidado. E principalmente voz. Voz que nunca tive na casa da minha mãe. No clube dos cinco nos éramos verdadeiros. Sem amarras, sem meias palavras, sem códigos hipócritas de conduta. The Criminal, The Princess, The Jock, The Basket Case and The Brain.