Em algumas épocas do ano o fluxo de eventos internacionais na cidade aumentava, o que significava um aumento de trabalho pra mim. Às vezes trabalhava em dois ao mesmo tempo e tinha que conciliar com a faculdade e o vôlei. Eu podia me gabar de ter certo respeito no mercado, meu nome era conhecido e cobiçado. Uma empresa inclusive me contratou como exclusiva simplesmente para não temer que eu fosse exclusiva de outra. Ainda assim aceitava que eu trabalhasse com empresas parceiras.
Meu preço era alto, confesso, mas não era muito fácil encontrar alguém que traduzisse simultaneamente e com fluência três idiomas. Inglês, Francês e Espanhol. Até tinha quem conseguisse fazer no papel, mas fazer isso de cabeça era mais complicado. E por ter uma pronúncia bem similar à dos estrangeiros eu era, por vezes, designada para assessorá-los, ficando assim 24 horas de plantão. A alta estação era uma correria. Dormia quando dava, comia enquanto me deslocava (fosse no elevador, no carro ou nos corredores) e ficava o tempo todo de salto.
Mas isso não significava que a baixa estação seria tranqüila. Também trabalhava um bocado, geralmente como professora substituta em cursos de línguas. Cobria uma aula ou duas de professores que faltavam porque estavam doentes ou precisavam resolver problemas pessoais. Eu não tinha formação de professora, mas pela minha experiência no mercado dava pra quebrar o galho. Meu outro bico era numa escola de reforço escolar. Os professores de matemática, física e química (obviamente) trabalhavam mais.
Até aí as coisas ainda andavam nos eixos. Era um horário apertado, mas eu dava conta. Mas resolvi adicionar mais um. O gerente de um hotel me ligou numa tarde de domingo. Disse que precisava de alguém que pudesse assessorar um cliente VIP. O homem, um empresário americano, chegaria à cidade pra fiscalizar a montagem da nova filial de sua empresa. Ficaria 15 dias e precisava de alguém com vocabulário vasto e ótima pronúncia. Meu nome surgiu na pesquisa e o lucro era extraordinário. Aceitei.
Por esse cliente eu parei de fazer todas as outras coisas. Mas depois que o atendi com tanta excelência outros quiseram o mesmo serviço. E comecei a receber telefonemas de quase todos os grandes hotéis da cidade. Não podia mais parar minha vida inteira por isso. Então fiz a burrice de tentar conciliar. No começo foi até interessante. Mas de repente comecei a não ter tempo para mais nada. Via meus amigos cada vez menos, faltava aulas, perdia treinos e estava ficando cada vez mais cansada.
Até que num dia que eu tive folga (aleluia) o clube dos cinco se reuniu e fez uma intervenção. Disseram que sentiam minha falta e que meus trabalhos estavam atrapalhando outros aspectos da minha vida. Como a faculdade, onde eu já tinha tantas faltas que talvez reprovasse algumas disciplinas. Eu nem sabia por que trabalhava em tantos lugares. Então tirei o que dava mais trabalho de conciliar. Ser professora substituta e o reforço escolar. Fiquei com os clientes VIPs e os eventos. Depois que fiz essa escolha consegui retomar meus treinos no Stella, depois de um sermão e focar na faculdade, depois de pedir muito aos professores que não me reprovassem.
Fiquei mais feliz assim. Ainda era muito e exaustivo trabalho. Mas conciliável. Ainda fazia minhas refeições no caminho, na escada, no corredor. Ainda chegava exausta por ter usado salto o dia inteiro (e ganhava massagens do André). Ainda recebia ligações de madrugada dos clientes que queriam qualquer coisa. Mas agora podia ir ao cinema, aos almoços de famílias e tinha, às vezes, uma semana inteira de folga. Que eu aproveitava muito bem, obrigada.
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