domingo, 18 de abril de 2010

Judas

Tudo começou quando fiquei com o menino que Michele tava afim. Em minha defesa eu não sabia que ela estava afim dele. E em nenhum momento ela disse ou fez nada que mudasse minha impressão. Ele veio cheio de galanteios e eu que estava livre e desimpedida me deixei fisgar. Fui desapontada. Ele nem era tão bom ficante assim. Era egocêntrico e vaidoso (duas qualidades que sempre andam juntas), e tinha a mania de exagerar em certas coisas. Uma menina impressionável cairia na lábia. Not me.

Mas o problema veio depois daí. Michele não gostou de ver a gente ficando e em vez de falar comigo sobre o que sentia resolveu falar com os outros. Outros esses que não eram do nosso convívio e falar sobre coisas que eu só falei com ela. Como por exemplo, meus encontros amorosos com os dois irmãos. E os episódios de indiferença da minha família. Coisas íntimas e confidenciadas que não necessitam de pedido de segredo, fica implícito. E coisas que a irmandade das BFFs (Best friend forever) condena veemente que sejam compartilhadas.

Michele contou às amigas do curso de moda basicamente tudo de errado, embaraçoso ou reprovável que eu fiz. E elas fizeram o favor de passar tudo isso mais pra frente ainda. Percebi que havia algo errado quando numa conversa com alguns colegas da faculdade escutei alguém cochichar: “Era o namorado da mãe dela.” Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha. Mas a confirmação veio quando cheguei ao restaurante da faculdade e fui surpreendida por uma briga. Consegui reconhecer André, Átila e Eric no meio dela. Aparentemente soltaram alguma piada com meu nome e os três resolveram sair no braço com os mal feitores.

No apartamento dos dois e com bifes na cara me contaram o que tinha acontecido. Fiquei sem acreditar que Michele fizesse algo assim. E por puro ciúme. Não consegui voltar pro meu apartamento. Não queria vê-la nem pintada. Quando anoitecia veio me pedir desculpas. Deixei que falasse sozinha e fui pro quarto do André. Dormi lá mesmo. Passei em casa de manhã pra trocar a roupa e pegar meus livros, ela tentou mais uma vez se redimir, mas foi em vão. Fingi que estava sozinha e saí o mais depressa possível.

Na segunda noite fiquei no quarto do Átila. Ela apareceu querendo conversar. “Michele, eu entendo que você ficou chateada comigo e claro que eu vou eventualmente te perdoar. Mas não agora. Eu preciso de um tempo. Só isso.” Ela saiu sem dizer mais nada. E eu fiquei mais uma semana com os AA. Numa noite o Átila foi dormir no apartamento com ela pra fazer companhia. Me abri com André sobre meus sentimentos em relação a tudo. Chorei até. Ele me deu um beijo carinhoso. Depois contou a história da Bela Adormecida pra eu dormir.

Na manhã seguinte resolvi me divertir com a coisa toda. Passei num fliperama e troquei 15 reais em moedas de cinquenta centavos. Coloquei num saco de pano e deixei na porta do quarto de Michele. Escrevi um bilhete. “Aqui está seu pagamento... 30 peças de prata.” Ela ficou meio desconfiada de que eu ainda estivesse aborrecida. Mas sabia que quando eu estava brincando com a situação era porque metade já estava esquecida. Comentou quando me viu: “Recebi um dinheiro hoje, o que você acha de tomarmos sorvete?”

Ainda demorou um pouco pra que voltássemos completamente ao normal novamente. E ela acabou ficando com o tal carinha dias depois, mas concordou comigo que ele era chato e pateta. “Perdi meu tempo.” Disse depois pra gente. E demos uma grande gargalhada. Passamos tanto tempo rindo que nos esquecemos do que ríamos. Rimos, então, por isso.

Nenhum comentário: