Depois que a gente sai da casa dos pais é que se dá conta de como é difícil e cansativo manter uma casa funcionando. Pagar contas, fazer reparos, trocar o gás, fazer supermercado, colocar o lixo pra fora e levar eletrodomésticos para o conserto. E ainda estudar e trabalhar. Facilitava o fato de que eu não estava só, tinha Átila e André comigo. E a mãe deles ajudava um bocado. Inclusive mais do que a minha.
Quando viram nós três trabalhando e independentes Michele e Eric, que eram um ano mais novos que eu, começaram a pensar em arrumar emprego também. Michele desenvolveu um talento natural pra moda. Desenhava e costurava com primor. A maioria das minhas roupas era ela que fazia. Conseguiu rapidamente um trabalho num disputadíssimo ateliê da cidade. Era lá que os estudantes das faculdades de moda matavam pra fazer estágio, ela entrou sem ter nem concluído o ensino médio.
Eric começou como qualquer outro jovem de 17 anos. Foi numa agencia de empregos e começou num dos trabalhos mais comuns pra quem não tem experiência em nada: Loja de departamento de shopping. Trabalhava feito um escravo em todos os departamentos da loja. Tinha 30min pra lanchar e pronto. Entrava às 14h e só saía às 22h. Isso quando tinha sorte de não ficar no caixa. Arrumou logo um paquera, um rapaz chamado Anderson que ensinou todos os macetes do trabalho.
Nosso point sagrado depois do trabalho era o Magu-Sh. Bar/boate onde o Átila trabalhava. Eu chegava primeiro com André. Depois Michele e por último Eric. Ficávamos tomando drinques e conversando sobre o (geralmente) dia horrível que estávamos tendo. Íamos embora cedo, por volta de meia noite, mas Átila tinha que ficar até as duas. Mas ele (pelo menos) não trabalhava de domingo à terça. Ele começou inclusive a estudar no turno da tarde, assim tinha mais tempo pra dormir.
André, como adorava estudar física química e biologia e era um dos mais inteligentes do colégio, conseguiu um trabalho de um turno num laboratório de análises clínicas indicado por um dos professores. Era o único que tinha a carteira assinada, plano de saúde e um salário de respeito. Ele trabalhava fazendo aqueles exames de colesterol e sei lá mais o quê. E eu fazia cursos na parte da tarde, geralmente das 15h às 18h e trabalhava quando aparecia um evento. Passava cinco ou seis dias enfurnada em congressos e conferências.
Essa foi a época com menos baladas. Quando o fim de semana enfim chegava estávamos tão acabados que só queríamos descansar. Ninguém tinha mais pique de virar a noite bebendo ou dançando. Isso acontecia uma vez no mês. Pela manha íamos à praia e talvez ao cinema. Mas na maior parte do tempo alugávamos filmes ficávamos de pijama no sofá. O único compromisso que mantínhamos era o teatro. Todo sábado, infalivelmente, estávamos lá.
Começamos a pensar também no futuro. Estávamos no ano do tão temido vestibular. Eric estudava numa escola com currículo comum e Michele cresceu achando que tinha um ano amais, a mãe dela se confundiu nas contas e matriculou a filha na escola um ano antes do normal. Quando o erro foi descoberto Michele fazia (muito bem) 6° série. Deixaram assim mesmo. Ela estava decidida a seguir carreira no mundo da moda. André estudava pra fazer medicina e era a única profissão que combinava com ele. Nada menos. Queria ainda se especializar em pediatria.
Átila sempre quis ser arquiteto e quando bebia ficava falando das estruturas das pontes. Falava das influências renascentistas e góticas dos prédios antigos da cidade e venerava Oscar Niemeyer. E eu, desde que conheci o Alex tinha decidido fazer Letras. Queria ser professora de Literatura como ele. Eric também já sabia o que ia fazer: Publicidade e Propaganda. Só falava nisso, chegava até a irritar às vezes. É impressionante o tanto que a gente pode crescer quando os pais não tem mais como podar a gente. Pra mim foi a melhor coisa que já aconteceu.
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