Pouco tempo depois que comecei na faculdade fui a um almoço de família. Lá meu irmão me informou que nossa mãe estava de namorado novo. E que ele estudava na nossa faculdade. Fazia Educação Física. Meu queixo começou a cair por aí. Mas tinha mais. Os dois tinham algumas cadeiras juntos. E ela aparentemente não sabia. Nem minha vó sabia do romance.
Dias depois desse almoço fui a uma pizzaria com o clube dos cinco e mais uns amigos do teatro. Adivinha quem estava lá? Minha mãe e o bofe dela. Fiquei morta de vergonha. Todo mundo começou a comentar que minha mãe tava lá com um rapaz que tinha idade pra ser filho dela. Quando me viu me chamou até a mesa onde estavam. Me apresentou o dito cujo. Fui o mais simpática possível. Conversamos trivialidades da minha vida e pronto.
Na quinta-feira seguinte ela me liga (o que era bastante estranho) dizendo que precisa de um favor. Aparece na minha porta com a marmota e diz: “A casa dele tá sendo dedetizada, ele pode ficar aqui?” Meu queixo foi bater no chão. Que audácia! Queria que eu hospedasse o bofe dela. “É só por esse fim de semana.” A Michele não tava em casa, tinha ido visitar o pai. “Vou ligar pra Michele, se ela deixar por mim tudo bem (mentira!).” Ela deixou.
Sexta quando voltei da aula o bonito tinha reorganizado minha geladeira. “Posso saber por que você mexeu na minha geladeira?” “Só fiz otimizar o espaço.” “Prefiro meu espaço pessimizado.” “Fica mais fácil achar as coisas assim.” “Eu gosto de demorar a achar as coisas, assim a gente tem tempo pra pensar na vida. Ou você nunca abriu a geladeira pra pensar?” Fui tomar banho e deixei ele falando sozinho.
Ainda toda ensaboada meu celular toca. Era minha mãe reclamando que eu não sabia receber visita. “Aprendi assim porque fui ensinada assim.” Desliguei o telefone e fui terminar meu banho. Fomos almoçar com o resto do clube. Assim que sentamos começou a explicar que não deveríamos comer carne, que uma dieta vegetariana era melhor e que pelo que tinha visto no meu apartamento eu tinha uma alimentação muito precária. “E daí?” Perguntei. “Essa é a sua opinião, eu penso de outra forma.” Disse me levantando e indo fazer meu prato. Não tenho nada contra quem é vegetariano, mas não aceito que tentem me impor coisa alguma.
Quando começamos a comer ele fez cara de nojo. Nem nos preocupamos. Continuamos com nossa refeição rindo e conversando sobre os acontecimentos do dia. Depois do almoço voltamos pra casa onde ele sentou-se em frente à TV como se tivesse em casa. Fui tirar minha sagrada soneca. Ele não aprontou mais nada até sábado quando eu disse que estava de saída para o teatro. Ele pareceu não entender então eu disse com todas as letras e pingos nos is. “Eu vou sair agora e não quero que você fique sozinho no meu apartamento. Não te conheço, não sei se você é um ladrão, um psicopata ou um maconheiro. Então por gentileza levante a bunda do meu sofá e fique fora até que eu volte.” Só assim ele levantou. Lembre-se que ele tinha por volta de 22 anos.
No domingo à tarde ele foi (até que enfim) embora. Mas minha mãe apareceu pra dizer o quanto eu tinha sido insolente. Discutimos um bocado e eu disse tudo que pensava desse “romance” de meia tigela. Disse que tinha vergonha desse comportamento e principalmente de ter que fazer parte disso tudo. Ela engoliu e foi embora. Conversando com os meninos eles disseram que talvez eu tivesse sido um pouco agressiva demais. Respondi que tinha esse direito. Ela podia fazer o que quisesse da vida desde que bem longe de mim. Mas que não esperasse nem minha aceitação nem meu respeito. Eu não fazia as minhas frivolidades na frente dela, queria a mesma gentileza. Assunto encerrado.
E foi isso. Minha relação com a minha mãe terminou de verdade nesse dia. Ainda nos víamos em almoços e Natais, riamos e conversávamos sobre coisas supérfluas. Mas nunca mais tive nenhum sentimento. Se ainda existia algum se esvaiu. Ela era como a mãe de um amigo. Longe e desconhecida e por quem eu nutria um sentimento apenas de “ser humano como eu” e nada amais.
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