quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Princesa

Até os 12 anos Michele era a única princesa da família. A mãe dela, que ficou grávida aos 17, era a mais velha dos quatro irmãos e irmãs. Então Michele, aos doze anos, tinha apenas dois primos. Um era um bebê de sete meses e o outro que ainda era um feto. E os dois eram meninos.

Aos treze ela teve que assistir de camarote a separação dos pais e aos catorze teve que fingir que era tudo bem o pai arrumar uma nova família. Deixou de ser princesa aí. Mas a mãe, sem saber como cuidar da filha fez o que a maioria dos pais fazem. A encheu de presentes e mimos. Roupas, TV no quarto e tudo o mais que ela quisesse.

E assim Michele cresceu, com um pai que nunca via e uma mãe que só aparecia pra dar presentes. Aos quinze ela entrou na fase rebelde. Skate, cigarro, maconha e noites na balada. A mãe quase nunca se importava, a filha estava feliz. Só falava alguma coisa quando o pai ligava e reclamava do comportamento da filha.

Mas Michele guardava um segredo debaixo do rastafári e das calças folgadas. Um segredo que ela tinha vergonha de mostrar. Talvez porque as pessoas com quem ela andava não iriam gostar de saber. Mas que depois que começou a andar comigo e viu que eu mandava à merda quem criticava meus gostos, também ela começou a ter esse comportamento.

Descobrimos então que Michele gostava de desenhar roupas, conhecia tecidos e sabia costurar. Descobrimos que as roupas mais legais que ela tinha foi ela mesma quem fez. E descobrimos que não só ela sabia o que tava fazendo como tinha talento pra coisa. Com nosso apoio, e nessa época André e Átila já faziam parte do nosso grupo, ela seguiu o sonho que tinha. Ser uma designer.

Michele era determinada e criativa. Mas só conseguiu atingir seu todo seu potencial depois que saiu de perto da mãe. Aqui entra um pouco minha opinião, porque eu nunca fui com a cara da mãe dela, mas sair de casa foi a melhor coisa que ela fez na vida. E eu a achei muito corajosa por fazer isso sem nem ter dezoito anos completos.

Ela tinha também outros talentos como, por exemplo, caipirinhas. Átila tirava o sossego da pobre querendo descobrir o que ela fazia. Mas ela nunca contava. Michele fazia a caipirinha perfeita. Não amargava, o açúcar era no ponto, ficava gelada sem ter tanto gelo assim e as rodelinhas de limão ficavam inteiras.

Mas quando se tratava de homem ela não tinha muita sorte. Às vezes aparecia um carinha legal, mas a maioria eram cérebros de esponja musculosos. “Adoro quando um bruto desses me pega de jeito.” Se justificava. E quando ela enfim encontrava um que fosse legal dispensava poucos dias depois alegando alguma incompatibilidade. Geralmente coisas como: “Ah, ele me segura feito uma bichinha, homem tem que me segurar com força.” Depois de frases assim ficávamos calados.

Michele nunca se aproveitou do fato de que era filha de um senador. Dizia que não queria se aproveitar. Era inteligente e talentosa o suficiente para não ter que precisar do “emprego fajuto” do pai para se dar bem na vida. Concordávamos com ela. Uma vez ele veio visitá-la na república. Queria parabenizá-la pelos dezoito anos e saber o que ela achava de ganhar um carro. “Agora é tarde, Inês é morta.” Respondeu.

Para alguns assuntos ela tinha um pavio muito curto. E esses assuntos eram: o pai e a mãe. Pro resto era paciente e lidava com certa tranqüilidade. Eu a achava segura e esclarecida. Depois que ela começou a trabalhar na Maison, um dos maiores ateliês de moda da cidade, vi que ela tinha ficou mais confiante. Mas sem nunca ser metida. Tinha os dois pés no chão, gostava de trabalhar e estava na companhia de pessoas fantásticas, eu inclusa. Um futuro brilhante a esperava.

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