quinta-feira, 1 de abril de 2010

Mea Culpa

Alguns dias depois da volta às aulas recebi mais uma carta da In Omnia Paratus, mas antes de ir passei e repassei na minha cabeça planos pra conhecer o Gambit pessoalmente. Passei um filme completo de espionagem na minha cabeça, achando às vezes algumas coisas ridículas. Hoje vejo que não eram nenhum um pouco.

Assim que cheguei o levei ao jardim, onde com muito cuidado coloquei um bilhete em seu bolso. Ele leu no banheiro e depois voltou preocupado. Escrevi que queria conhecê-lo, lá fora, longe de tudo. Sabia que o risco era grande. O contrato era claro, qualquer tentativa de contado fora era terminantemente proibido. Ele disse no meu ouvido que queria também, mas que seria loucura. Depois de uma pequena pausa pra reflexão disse: “Mas por você eu faço qualquer loucura.” E colocou outro bilhete no meu decote. “Lê depois e memoriza.”

Curtimos a noite tranquilamente. Só quando cheguei em casa lembrei do bilhete no forro do meu sutiã. Tinha escrito um endereço de email e uma senha. Memorizei como ele pediu. Mais em baixo uma data, dali a três dias. Deduzi que era o dia que eu deveria checar o email. E assim o fiz. Com uma ansiedade fora do comum esperei três dias em que as horas simplesmente não passavam. Quando enfim a terça chegou fui a uma lan house longe do meu bairro e acessei.

A caixa de entrada tinha somente um email, com o assunto: “Enfim sós”, olhei ao redor antes de clicar. “Olá, minha linda. Se vamos fazer isso tem que ser bem feito. Sábado que vem esteja às duas da tarde na rodoviária. Vista uma blusa vermelha e fique com o cabelo solto. Compre um bilhete, qualquer um, pra qualquer cidade a menos de 50 km. Leve um jornal do dia anterior e fique lendo na área de espera. Entre no ônibus normalmente com o resto dos passageiros, e prefira um local na janela. Eu estarei usando uma camisa com as letras IOP, e estarei seguindo você de longe. Entrarei no ônibus no último minuto.”

Anotei tudo tão rápido que minha letra parecia de médico. Quando enfim o sábado chegou fiz como combinado, levava um jornal do dia anterior embaixo do braço, estava com uma blusa vermelha e cabelo solto. Comprei a passagem e olhei ao redor, procurando a silhueta dele. Não encontrei, não sei como iria me encontrar. Fui pra área de espera e comecei a ler o jornal. Em 10min anunciaram a partida e todos começaram a embarcar. Entrei também. Sentei na janela procurando por ele, mas não achei.

O motorista deu a última chamada. Vi ao longe uma camiseta amarela com as letras IOP. Mas o rapaz que a vestia foi segurado por dois seguranças. Ele estava a 20 metros de mim, mas foi encostado na parede e revistado. O ônibus deu partida e começou a se mover lentamente, tive um sobressalto e comecei a bater na janela. Gambit olhou pra mim, ficamos enfeitiçados um pelo outro. É verdade quando dizem que nessas horas tudo fica em câmera lenta. Ele sorriu. Um dos sorrisos mais lindos que já vi. Sorri de volta.

Mas também é verdade que depois o tempo passa mais rápido pra compensar. O ônibus foi ganhando distancia e fui vendo ele lutar pra se desvencilhar dos guardas. Tentei me levantar, mas um homem gigantesco sentou do meu lado me segurando, lutei pra me soltar dele. Ele usou a força de urso que tinha e me fez sentar. Depois disse tirando os óculos: “Tantos jovens que se perdem pras drogas.” E os limpou dizendo: “Acabou Lucíola, acabou.” Comecei a chorar. Mesmo com todas as precauções fomos descobertos.

Ele não me deixou sair até o limite da cidade. Voltei pra rodoviária. Mas Gambit não estava mais lá. Ainda voltei outros dias, mas em nenhum tive sorte. Acessei o email no dia seguinte, mas a conta havia sido deletada. Esperei, em vão, pelas cartas azuis que nunca mais apareceram. Só me restou lamentar. O perdi pra sempre porque não agüentei tê-lo pela metade. Passei muito tempo triste e guardo até hoje o bilhete que ele me escreveu.

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