Meu grupo de teatro ganhou um novo membro assim que O Mágico de Oz acabou. Nossa diretora o apresentou dizendo: “Gente, esse é o Eric, ele é dançarino e vai fazer parte da nossa família de agora em diante.” Aplausos para o novo membro e cochichos sobre a parte “família” do comentário. Eric era alto e esguio e tinha um olhar inocente de quem não sabe onde está se metendo.
Como carne fresca que era, no intervalo teve que se desvencilhar de gente tentando conversar com ele. Todos interessadíssimos em suas conquistas e sucesso. Todos muito falsos. Eu não fiz questão de gastar meu tempo assim. Se fosse um “bad ass” como eu e os AA o mundo seria o responsável por nos juntar. E rapidamente a grande teia do destino provou que contra ela não há argumento.
Na terça seguinte fui pra dança como costume. Assim que entro na sala encontro um rosto familiar (mas nem tanto) no meio dos outros. Era Eric. Cardoso se aproximou e disse: “Esse é o Eric, ele era aluno de outra turma, mas infelizmente teve que mudar o horário, vai ficar com a gente agora.” Eric sorriu pra mim e ao final da aula veio conversar comigo: “Nossa que coincidência!” “Verdade, a gente dançava no mesmo estúdio e nem sabia.”
Ficamos mais alguns minutos conversando e no encontro do teatro seguinte ele ficou na nossa panelinha. Apesar dos pedidos e súplicas dos outros fingidos do grupo. Começamos a nos encontrar fora das artes. Íamos à praia, ao shopping e às baladas. E o apresentamos a Michele que como não podia ver homem ficou cantando ele. Tão iludida. Depois de um mês que éramos amigos ele confidenciou aos quatro que era gay. Estranhou que a gente não fez alarde. Nem os meninos.
Agora todos os lugares no carro estavam completos. Eric começou a andar com a gente até nas altas rodas da sociedade. Infelizmente não podia fazer parte completamente, a posição econômica da sua família não deixava. Não que eles fossem pobres, mas os pais dele nãos eram nem políticos, nem empresários e nem donos de grandes propriedades. A mãe era professora de Geografia e o pai funcionário do banco.
Mas ele era aceitável na maioria dos lugares, esse era o termo que usavam, sempre aceitável, nunca aceito. Eric na verdade não se importava com isso. Queria, como nós, estar na bagunça. Então fomos aos poucos mostrando o nosso jeito de ver as coisas, a nossa maneira de fazer diversão. Eu, pela primeira vez, tive um amigo na dança. E no teatro causamos inveja e fofocas.
Eric não demorou a cativar a gente. Em dois meses éramos cinco melhores amigos. Que faziam tudo junto, que conversavam sobre tudo. E por ele ser gay conhecemos um novo modo de ver o mundo. Conhecemos o que era raiva, preconceito e intolerância. Eric mantinha sua sexualidade sempre em segredo. Apenas com a gente ele podia relaxar de verdade, sem pensar sempre duas vezes em tudo o que ia dizer.
Quando conhecemos a família dele notamos o quanto ele vivia tensionado. O tom de voz mudava, a postura e os trejeitos. Seu pai era um homem muito sério, que tinha servido no exército, se sonhasse que o filho era gay provavelmente aconteceria uma tragédia. A única que sabia era a mãe, que apesar do choque do primeiro momento amava o filho incondicionalmente.
Eric nos fez perceber que todos nós tínhamos esse “distanciamento” com os pais. Eu reconhecia minha mãe apenas por biologia, nossos diálogos eram curtos e monossilábicos. Michele odiava os dois pais (a mãe um pouco menos) e os dois namorados deles e os AA simplesmente não sabiam de quem eram filho, a mãe deles aparentemente tinha esquecido quem a havia engravidado.
Quando mostramos essas cicatrizes uns para os outros atingimos um nível de confiança e companheirismo que nos acompanha até hoje. Viramos irmãos. Mais que isso, viramos uma família inteira.
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