quinta-feira, 22 de abril de 2010

All That Jazz

Uma noite cheguei do trabalho e tinha uma carta passada por baixo da minha porta. Era da Giza, amiga do Cardoso. Pedia que eu entrasse em contato e dizia que sentiam minha falta na escola. Ela também jurava que Cardoso a estava assombrando. Liguei no dia seguinte e ela me convidou para voltar dançar. Sentia falta mesmo de dançar e nem sei por que tinha parado. Assim que dividi a novidade com o resto do clube Eric se animou pra voltar também. Átila se interessou em aprender.

Dois dias depois estávamos de volta. Muitas caras antigas, mas a maioria eram caras conhecidas. Mesmo tendo um pouco mais de técnica que Átila eu e Eric resolvemos ficar na mesma turma que ele. Dava certo nos horários de todos também. Descobrimos o quanto estávamos enferrujados. Eu não tinha mais metade da minha elasticidade. E Eric não fazia mais tantas piruetas.

Mas foi uma mocinha de jeito simples e meigo que nos conquistou e fez aquela volta valer à pena. Tinha uma cor de chocolate maravilhosa e uma maneira simples de falar as coisas, sem muito rodeio. Chamava-se Nayana e era uma das caras novas do estúdio. Fizemos amizade rapidamente, e ela contou sobre os projetos sociais em que estava engajada. Nayana era personificação do manguebeat.

Ela também já dançava há algum tempo, mas em outros grupos. Decidiu que estava na hora de dançar profissionalmente e escolheu a melhor escola pra isso. Tinha uma adoração pelo Cardoso, que infelizmente nunca chegou a conhecer, mas se deliciava com as histórias que contávamos dele. Não tinha a ambição de ser melhor do que ninguém, dançava por prazer e queria continuar dançando por prazer. Nesse ponto eu a achava um pouco modesta demais. Tinha muito talento, mas não confiava em si o suficiente para mostrar tudo o que podia.

Nayana era a mais disciplinada de nós. Nunca se atrasava, nunca faltava e fazia relatórios do que tinha acontecido nas aulas. Quando tinha tempo ficava praticando no estúdio e mantinha um estilo de vida sem excessos. Nem sei por que ela começou a andar no nosso grupo. Não tínhamos mais aquele estilo de vida “Pro dia nascer feliz”, mas ainda saíamos no sábado pra tomar uns drinques e dançar.

Não foi de se admirar quando André se apaixonou por ela. Acho que todos nós nos apaixonamos por ela. Claro que só três desejavam um pouco mais. E confesso que eu estava no meio. Ela também se interessou por André, o que meu deu nos nervos, mas o babado deles não durou mais que seis meses. André estava ocupado demais com a faculdade. Tinha aulas nos dois turnos e quando chegava em casa ainda ia estudar mais.

Quando eles começaram a namorar tive um ataque brabo de ciúmes. Comecei a ser grossa e antipática com ela. Tudo que ela fazia me dava nos nervos. Comecei a ver defeito nas roupas que ela usava, no jeito como arrumava o cabelo, nas palavras que dizia, nas coisas que se interessava. Átila notou minha mudança repentina, saí de “nova BFF” pra “te odeio com todas as forças”. Ele veio conversar comigo. Quando percebi o que acontecia me senti tão idiota que fui pedir desculpas. Aos dois.

Nayana era a única de nós que tinha uma família feliz e equilibrada. Tinha pai, mãe, irmãos (2), irmãs (2) e vó. Moravam todos numa casa alegre e barulhenta, e onde achamos um novo point de diversão. Os irmãos tinham 25 e 14 anos, as irmãs 23 e 21 e ela 18. A mãe, apesar do monte de filho, era bonita e esguia (coisa que só as negras conseguem) e o pai era alto e bonitão, chovia de piriguete interessada nele, mas os dois eram completamente apaixonados um pelo outro. Eles tinham um desses amores que tem admiração e respeito antes de sexo.

Agora nossa turma estava completa. Infelizmente o nome Clube dos Cinco já não cabia. Nos rebatizamos então de Clube dos Seis.

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