Muita agitação antecedeu a semana de apresentações do estúdio de dança do Cardoso. Além de apresentarem espetáculos a companhia participava também de concursos. E em alguns seletos e restritos o próprio Cardoso dançava. E ele escolhia a melhor dançarina de toda a escola pra dançar com ele.
O que quase ninguém sabia era que Cardoso estava muito doente. E descobri da pior forma possível. Primeiro ele colocou no quadro de avisos uma lista com os nomes das possíveis candidatas ao direito de dançar com ele. Meu nome, claro, estava no meio. Depois fez testes de vaidade e maturidade com cada uma. Colocava a gente pra dançar sozinhas na frente de uma platéia enorme. Quem segurasse o tranco estava aceita.
Duas conseguiram. Eu e Bruna. Depois mandou todo mundo sair. A segunda parte do teste seria tête-à-tête. Primeiro foi Bruna, que tinha que chegar em casa cedo. Eu como era “do mundo” aceitei ficar por último. Primeiro ele falou sobre o concurso, que iria dançar duas músicas. Uma valsa e um tango. A valsa já estava decidida, seria com outra professora da escola chamada Giza (amiga particular dele). Mas precisava de alguém pra dançar o tango.
Colocou uma música e enquanto dançávamos disse: “Fiz esses testes pra ser justo, você já estava escolhida desde que dançamos a primeira vez.” Fiquei surpresa. Não me achava isso tudo. Mas depois de alguns minutos Cardoso começou a tossir incessantemente. Ficou vermelho, sentou numa cadeira e pegou um guardanapo pra cobrir a boca. Quando finalmente parou o papel estava coberto de sangue.
Fiquei paralisada. Confesso que não sabia o que fazer. Giza adentrou a sala em seu socorro. Precisou da minha ajuda para levá-lo até o carro e para tirá-lo quando chegamos ao hospital. Fiquei esperando no corredor que o medicassem, depois ele foi internado pra ficar em observação pela noite. Giza foi embora e aparentemente esqueceu de mim ali. Entrei no quarto para vê-lo.
Ele primeiro ficou chateado com a minha presença, depois ficou envergonhado por eu ter presenciado tudo, por fim contou o que havia de errado. Tinha começado a fumar aos sete anos de idade, agora aos 43 estava com câncer nos pulmões. E não parou de fumar quando descobriu o diagnóstico. Agora era tarde, Inês era morta. Sua paixão era a dança. Viveu dançando, iria morrer dançando. Dormi no hospital apesar da resistência dele. Acordou bem melhor e pronto pra outra.
Duas semanas de exaustivos ensaios depois estávamos prontos pro concurso. Cardoso vestia um terno risca de giz feito sob medida, que acentuava sua silhueta esbelta. Eu vestia um vestido vermelho com rendas pretas e com uma enorme fenda do lado direito. Antes de entrarmos no salão notei que ele olhava diferente pra tudo. Como uma criança que vê tudo pela primeira vez, encantada.
Cardoso me abraçou como nunca tinha abraçado. Dançamos como nunca tínhamos dançado. E ao final da apresentação me deu um longo e apaixonado beijo. “Ajuda na nota.” Se explicou. Mas sorriu como se não fosse bem isso. Nos juntamos ao pessoal da escola e notei que Giza tinha um pouco de ciúme no olhar. Conseguimos a nota máxima e os elogios começaram aparecer deixando a professora ainda mais chateada. Saímos de lá com troféu na mão.
Assim que saímos da competição Cardoso teve outro acesso de tosse. Tossiu tanto que precisou sentar-se porque estava sem ar. E mais uma vez tossiu até ensopar de sangue o lenço que cobria a boca. Fomos ao hospital dali mesmo. Ele foi novamente internado, mas dessa vez não achavam que ele iria voltar pra casa. Depois de medicado foi levado a um quarto onde pediu que somente duas pessoas entrassem para vê-lo. Giza e eu. Pra ela disse como proceder com suas coisas. O estúdio agora era só dela, mas o nome dele ficaria na fachada. Suas roupas e objetos deveriam ser doados e uma caixa de sapato misteriosa entregue a mãe dele que morava em algum interior.
Pra mim disse apenas: “Me apaixonei por você, e se você não se transformar numa estrela eu volto pra puxar suas pernas.” Depois deu uma grande gargalhada e continuou: “Com tantos anjos no céu até parece que eu vou perder meu tempo.” Cardoso morreu duas horas depois com falência múltipla de órgãos. O câncer tinha se espalhado e ninguém conseguia dizer até onde. Pediu pra ser enterrado naquele mesmo terno e na manhã seguinte dissemos adeus a um dos mais brilhantes artistas que conheci.
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