quinta-feira, 8 de abril de 2010

Beijo a três

Tudo começou quando o Átila arrumou um emprego num bar muito badalado da cidade. E era duplamente badalado porque recebia nas quartas e sextas o público hétero e nas quintas e sábados o público GLS. E nós cinco freqüentávamos da quarta ao sábado. Todo mundo, numa boa. Agora tínhamos um amigo que trabalhava lá todas as noites. E que, não raramente, conseguia bebidas de graça pra gente.

O local era meio bar meio boate. Tinha três pisos: o primeiro era o bar com sinucas e onde tocava mais pop e rock. Tinha aquela atmosfera mais escura e underground. O segundo era uma boate com um jogo de luz fantástico onde dançávamos adoidado. E era o piso onde a maconha, o pó e os comprimidos rolavam soltos. E no terceiro ficavam os lounges privativos. Apenas os “Very Important People” VIPs tinham acesso. E onde o serviço de buffet era completo.

Fizemos lá nosso point. Nos encontrávamos depois do trabalho pra relaxar, jogar conversa fora e falar mal da vida alheia. Num desses encontros depois do trabalho Eric quis ficar com Átila. Nós estávamos conversando, descontraídos e Eric comentou como Átila estava sexy. Depois de muito papo e algumas tequilas chegamos à conclusão (não sei como) de que um beijo entre eles dois com mais alguém no meio não seria considerado como uma ficada. Seria apenas um beijo.

Nessa condição Átila aceitou. Mas teria que ter uma menina beijando também. Nem precisamos discutir. Eu me ofereci. Primeiro eu beijei Átila, Eric entrou depois. Então beijamos os três. Só posso dizer que é esquisito. Não dá pra entender de quem é o quê ali. Mas depois isso virou uma brincadeira. Com a participação dos outros dois. Fizemos todas as combinações possíveis. Sete no total. Não preciso lembrar que dois eram irmãos. Depois disso todo mundo beijou sozinho todo mundo. De novo, exceto os dois irmãos. E sim, eu beijei Michele. E sim, foi o melhor momento pros AA.

Você pode até estar pensando: “Hétero não beija pessoas do mesmo sexo.” Bem posso dizer uma coisa? Eu e meus amigos éramos tão bem resolvidos nesse sentido que um beijo não mudaria absolutamente nada. Era somente isso: um beijo. Não transformávamos em algo que não era: um luta homofóbica pelo uso de rótulos. Não estávamos interessados em provar nada a ninguém, queríamos simplesmente nos divertir entre amigos.

Quem olhava de fora achava tudo muito estranho, todo mundo se beijando daquele jeito e nem era carnaval. Pra gente era brincadeira pura e simples. E estávamos bêbados. Todos nós. Depois outras pessoas (assanhadinhas) apareceram querendo participar do beija beija, mas não nos sentíamos a vontade pra beijar mais ninguém. Era divertido porque era a gente, e só a gente.

Ficamos levanto cantada até o final da noite. Em grupo e individualmente. Um homem de uns 45 anos se aproximou e começou a falar em quanto era excitante ver eu e a Michele beijando. Mas ele tinha uma cara tão tarada que resolvemos nos agarrar com um dos AA cada uma. Ela se agarrou com o Átila, eu com o André. Eric se agarrou com um cara qualquer que ficou dando mole.

A gente achava que ia ter problema, porque começou uma certa agitação em torno disso. O gerente chamou Átila num canto e falou alguma coisa que não deu pra escutar. Depois ele disse que o chefe tinha chamado ele pra marcar uma festa temática. Uma vez por semana a casa teria a festa do beijo a três, pelo sucesso que tava fazendo. Olhamos ao redor e vimos que várias pessoas beijavam a três. Alguns tentaram beijar a quatro, mas não deu muito certo. Num dava pra mexer a cabeça.

Durante uns três meses essa festa foi a que mais bombou na cidade. Toda sexta feira estava liberada a beijação coletiva. Mas aos poucos outras festas foram aparecendo. A festa do Sinal, do Avesso, dos Sete Pecados. E a novidade da vez ganhava sempre mais adeptos. Pouco a pouco o beijo a três foi sendo esquecido.

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