Meu treinador me chamou pra conversar minutos antes do meu último jogo pela escola. Disse que naquele jogo estariam assistindo técnicos de times da liga profissional e que seria bem possível que eu fosse convidada pra jogar por algum deles. Ele tava certo. Nem precisei jogar meu máximo e assim que saí da quadra uma senhora de uns 40 anos (e 1,80m) veio falar comigo. Disse que eu tinha reflexos muito bons e que não tinha medo de porrada. Me chamou pra fazer um teste no time dela dali a dois dias. Aceitei.
Mas eu não sabia que se tratava de um dos maiores e mais respeitados: o Stella. O time foi formado na década de 20 e enfrentou muitos preconceitos. Era o único time que não pertencia a um clube e tinha sede e investimentos próprios. Um dos poucos que tinha participação ativa de ex-membros. Já tinha criado até associação, que contava com aulas de dança de salão, pintura e ginástica. Fazia oficinas de Literatura e tinha uma biblioteca enorme. Tudo isso podia ser desfrutado por associados e pela comunidade. Mas quem era ou foi do time tinha tratamento especial.
Quando cheguei à quadra notei que várias senhorinhas observavam tudo da arquibancada. Eram ex atletas do Stella, e tinham direito de opinar no time, entre elas estava a senhora que me chamou. Me preparei pra entrar em quadra e notei que todas as outras jogadoras em teste eram mais altas que eu. Felizmente a vaga de líbero não exige altura. A técnica (de quase dois metros) se aproximou e disse: “Com esse tamanho você deve ser levantadora ou líbero.” “Líbero” Respondi. Ela apontou pro outro lado da quadra e disse: “Você joga no time de lá.”
Joguei o melhor que eu pude. Quando o time é estranho esse trabalho fica mais difícil. Mas mesmo assim fiz defesas incríveis. Quando o primeiro tempo acabou alguns nomes foram chamados. O meu não estava entre eles. “Se você foi chamada obrigada pela visita, mas infelizmente não foi dessa vez. Quem eu não chamei por gentileza me acompanhem.” A seguimos até uma sala. Uma das meninas disse baixinho: “Agora vem a entrevista.” “Entrevista?” perguntou outra. “É, pra saber se a gente tem uma boa conduta, uma amiga minha me disse, elas perguntam se você bebe, fuma ou tem namorado.” “Porque elas querem saber se a gente tem namorado?” perguntei. “Pra saber se o foco está todo aqui.”
Quando enfim me chamaram eu fiz o mais lógico: menti. “Você fuma?” “Não.” “Usa drogas?” “Não.” “Bebe?” “Uma taça de champanhe em eventos sociais.” Depois de mais algumas perguntas me entregaram um papel. “Seus treinos começam em duas semanas.” E pediu pra que eu chamasse a próxima. Saí sem acreditar. Passei na secretaria pra pegar meus uniformes de treino e assinei um termo de exclusividade. Agora eu era uma atleta do Stella. Recebi um código de conduta, um calendário de eventos sociais e um livreto com toda a história do time.
O Stella tinha dois times. O juvenil e o profissional. O juvenil jogava contra times de faculdades e o profissional contra os clubes e empresas. Eu, como era universitária tinha que ficar no juvenil. Apenas quem já fosse formada podia entrar no profissional. Mas os dois tinham o mesmo respeito, o mesmo treinamento e o mesmo acompanhamento de perto das ex integrantes.
Cheguei em casa e fui experimentar os uniformes. Me senti duas vezes mais alta e mais forte. Senti o peso da história toda do time nas minhas costas. Minhas farras e bebedeiras estavam com os dias contados. Com certeza teria que fazer exames de sangue. Já tinham me dito que nas ligas universitárias os exames de dopping eram constantes. E eu não ia jogar pela janela a chance de jogar num dos times mais importantes da minha cidade.
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