quarta-feira, 28 de abril de 2010

Amiga da onça

Numa tarde de quarta feira recebi um telefonema de uma grande empresa que administrava os seis maiores hotéis da cidade. Me chamavam para uma entrevista. Vesti um terninho cinza muito bem cortado e elegante. Lá me disseram que gostavam muito do meu trabalho assessorando seus maiores clientes. Que era mais que uma simples tradução, eu fazia um serviço que ia de acordo com a missão da empresa e eles queriam me contratar efetivamente.

O salário era ótimo, com benefícios como plano de saúde completo e ajuda de custo em vestuário caso tivesse que acompanhar um cliente a um ambiente mais sofisticado. O único problema era: Horários extremamente flexíveis. Isso significava o que já acontecia, na hora que precisassem eu estaria lá. Comecei a trabalhar na segunda seguinte e conheci os outros Personal Translator, que não foram muito com a minha cara. Acharam que eu era nova demais (19 anos) para o trabalho, a maioria estava na casa dos trinta.

Uma delas, chamada Miriam foi a que mais se aproximou de mim. Ela falava apenas Italiano e era namorada do gerente de um dos hotéis. Tinha um jeito espalhafatoso e um pouquinho vulgar, mas eu a achava inofensiva. Caí na besteira de achar que todo mundo era como eu e os meus amigos. Gente boa, que não quer o mal de ninguém. Acontece que estava sendo apunhalada pelas costas e nem sabia.

Comigo falava dos outros personal e das outras fofocas que o namorado gerente contava. Pra ele dizia que eu era metida e que eu me achava melhor que os outros. Simplesmente porque quando eu atendia um cliente ele não queria mais nenhum outro. Gostavam do meu vasto vocabulário e do fato que eu guardava muita informação com rapidez. Gostavam de mim também porque eu tinha curiosidade de conhecer os países de onde vinham e conversava com eles. Assim se sentiam menos solitários. Mas eu nunca falei que era melhor que ninguém.

Pois bem, dois meses depois que eu tinha começado um cliente retornou ao hotel. Era um árabe que tinha uma empresa no ramo naval. Tinha uma fábrica de lanchas e Jet Skis e outra de roupas e equipamentos de mergulho. Geralmente era atendido por Célio, um senhor de 50 anos. Mas nessa ocasião Célio estava doente e eu era a única que podia atendê-lo, já que ele falava inglês e francês misturado. Abdalatif era bem tradicional e não gostou muito da mudança, mas aceitou que eu o atendesse.

Mas quis fazer um teste. Pediu que eu abrisse uma garrafa de champanhe. Ao lado da garrafa havia um sabre próprio pra isso. Sem embaraço abri a garrafa com o sabre (tinha aprendido com Átila) e Abdalatif olhou pra mim espantado depois sorriu discretamente. Misturando o franglês perguntou: “Você sabe a origem disso?” “Sim, era como os generais de Napoleão comemoravam uma vitória.” Ele levantou a taça, como um brinde oferecido a mim, acenei com a cabeça e ele bebeu sorrindo. “As moças ocidentais são mesmo um mistério.” Depois disso não quis mais o Célio.

Quando disse para o gerente que queria mudar de tradutor ficaram todos espantados, eu inclusive. E Miriam espalhou o boato de que meus clientes ficavam fiéis a mim por que eu os oferecia favores sexuais. E essa história chegou aos cinco hotéis. Quando eu enfim soube o que acontecia não procurei me justificar. Deixei que falassem. Pra mim o que importava era meu trabalho estar sendo reconhecido por quem importava. Se meus clientes não aceitavam que me substituíssem era porque eu estava fazendo o melhor, e ponto final.

Depois de umas duas semanas desse boato um dos recepcionistas me disse que ninguém acreditava nela, que eu não tinha com o que me preocupar. E que todos sabiam que ela dizia esse tipo de coisa porque ela era classe C (turismo sexual) e eu estava dominando a classe A (business e VIP), ela se sentia ameaçada. Só para esclarecer a classe B é a de turistas mesmo. Com o tempo fui ganhando respeito dos outros colegas, especialmente porque às vezes trabalhávamos juntos e eles viam meu trabalho.

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