No dia seguinte ao meu aniversário de 18 anos comecei a procurar um novo lugar pra morar. Primeiro conversei com meu padrinho e tomei posse dos meus investimentos. Depois anunciei essa decisão a minha mãe, que até então era quem tomava conta das minhas finanças. Durante um almoço simplesmente levantei o rosto e disse: “Ah, como já fiz 18 vou tomar conta das minhas coisas agora, antes de sair deixe meus cartões e documentos na mesa. Me mudo até o fim do mês.”
Não sei como ela tomou essa informação, nem me importo. Acho que ainda fiz muito em anunciar o que iria fazer, mas simplesmente não queria ser indelicada. E esse era o máximo de sentimento que eu tinha por ela, educação como para qualquer estranho. Sei que ela me botou no mundo, mas sinto muito em dizer (se isso te ofende) que animais dão cria todos os dias. Não é uma tarefa tão difícil assim. A falta de afeto que senti por toda a minha infância e adolescência foi muito maior que qualquer resquício de ternura que ela teve por mim, afinal de contas não lembro de nenhum episódio desse tipo.
Um mês depois estava de mudança para um apartamento de dois quartos num bairro muito procurado pela classe artística e perto da praia. O aluguel não era caro, tinha elevador, porteiro, sala, cozinha, varanda e área de serviço, além de dois banheiros. O problema era a vizinhança: uma favela perigosa de cada lado. Mas foi só fumar uns (e comprar) por lá que logo eu era figurinha conhecida, sem problemas.
Comecei a trabalhar como tradutora e intérprete de uma agência de eventos. A diferença é: Intérprete é quando o trabalho é feito ao vivo e simultâneo; Tradução se faz de texto escrito. Termos técnicos somente. Como a maior parte do trabalho era por curtos períodos e em finais de semana não atrapalhava nem a escola e nem o vôlei. Tinha parado de dançar desde a morte de Cardoso, não que fosse parar pra sempre, mas queria dar um tempo.
E assim me mantinha numa boa. Meus investimentos rendiam cerca de R$8000,00 por mês, então eu me mantinha muito bem. Usava sapatos e bolsas de grife, ia ao salão de beleza duas vezes por semana, comprava roupas de boutiques e fazia os cursos que me dava na telha. Só de línguas fiz inglês, francês e espanhol. Fiz até uma viagem ao Rio de Janeiro pra visitar um carinha que conheci na net (outra história).
Tinha me libertado da minha antiga e fria morada. Desde que meu pai morreu me sentia sozinha no mundo. Agora, pelo menos, eu estava dando as cartas do jeito que eu queria. Era maior de idade, tinha meu trabalho, meu dinheiro, estudava e pagava minhas contas sempre em dia. Minha mãe virou o que ela sempre foi: uma estranha. É um pouco de exagero meu, confesso. Ainda a visitava nos feriados e ocasionalmente nos fins de semana, quando ela conseguia trazer o vô.
Um mês depois os AA vieram morar comigo. Tinha um quarto sobrando mesmo. Eles só fizeram oficializar a mudança, porque viviam no meu apartamento. Tinham escovas de dente desde o dia da minha mudança, roupas e objetos. Nos transformamos numa família muito mais feliz do que eu jamais fui com meus parentes consangüíneos. Os outros dois também viviam por lá. Menos que os AA antes da mudança, mas ainda sim constantemente. Dormiam, passavam dias e nunca queriam voltar pra suas casas.
Ali éramos livres. Não existia julgamento, intolerância nem egoísmo. Éramos um por todos e todos por um sempre. Quando tínhamos problemas esses eram resolvidos com conversa e abraços. E percebi que família não tem nada a ver com sangue, liberdade não acontece quando se está sozinho e verdadeiros amigos são aqueles que quando estão por perto fazem a gente chorar e ri com a mesma intensidade.
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