terça-feira, 13 de abril de 2010

O Clube dos Cinco

Pouco depois das aulas começarem achei um cartaz que fazia a propaganda de um novo tipo de república de estudantes. Uma pousada do bairro estudantil tinha sido desativada e transformada em condomínio. Não era uma república propriamente dita, mas os apartamentos só poderiam ser locados por universitários. O bairro era próximo a maioria das faculdades da cidade, e por isso seus produtos e serviços eram geralmente mais baratos.

Tinham dois tipos de apartamentos. De um quarto ou dois. Mas muitos estudantes, para baratear as contas, se amontoavam em beliches e colchões e faziam até para cinco um quarto para dois. Não foi nosso caso. Eric completou 18 anos no começo de janeiro e no dia seguinte fizemos sua mudança. Ficou comigo e com os AA. Uma semana depois foi a vez de Michele, que ainda não tinha completado 18, mas não agüentou mais a casa da mãe. Nosso apartamento ficou levemente bagunçado. Começamos então a procurar outro lugar e aquele cartaz foi uma benção.

Eu fui dividir minha morada com Michele, os AA ficaram a duas portas da nossa e em frente a eles Eric, que pegou o último apartamento de um quarto. Todos eles tinham cozinha e sala. E alguns, como o de Eric, tinham varanda. A semana de mudança foi caótica e barulhenta, o prédio de três andares recebia estudantes de todo o estado, que em apenas duas semanas lotaram os sessenta apartamentos.

Nosso grupo começou a ser conhecido como o clube dos cinco. Eu era a atleta, porque jogava vôlei por um time local; André era o cérebro, porque passou em medicina de primeira; Michele era a princesa, porque estudava moda e se vestia com seus designs; Átila era o criminoso, porque conseguia qualquer droga que pedissem (de maconha a ecstasy) e Eric era o caso perdido, porque era fechadão com os outros e não dava em cima de meninas.

Começamos a ficar famosos no prédio. Famosos pelas nossas qualidades e pela nossa amizade incondicional e inabalável. As pessoas estranhavam que os AA aceitassem tão bem a sexualidade de Eric. Uma vez estávamos comemorando o aniversário dos gêmeos na piscina (ah é, o prédio tinha piscina), Eric entregou o presente de Átila que agradeceu dando um abraço e um beijo no rosto. Minutos depois estávamos conversando com um grupo quando um dos caras perguntou pra Átila: “E qual é a história de vocês dois?” E apontou pra Eric. “Ele é meu amigo, por quê?” “Amigo, é?” Disse com aquele sorrisinho imbecil de quem é isso: imbecil. “É, amigo. Você acha que porque eu dei um beijo no rosto dele eu sou gay? Pois eu já beijei ele na boca e nem virei gay.” Depois completou: “E se eu fosse gay, qual o problema?”

Calaram-se. Mais porque era Átila e ele era meio pavio curto mesmo. Mas ninguém nunca teve a coragem de falar o que quer que fosse de Eric na frente da gente. Sabiam que se isso acontecesse provavelmente teria um barraco gigantesco. E sangue. A gente sabia que tinha preconceito, mas os preconceituosos se mantinham discretos. Eles não entendiam nossa relação, e nós nos mantínhamos cada vez mais próximos.

Átila saiu do bar e foi trabalhar numa locadora, o que nos fez ter mais tempo juntos. Estudávamos na mesma faculdade, nos encontrávamos pra almoçar, trabalhávamos a tarde e nos encontrávamos novamente a tempo de jantar e bater papo na varanda de Eric. Vi ali a família que nunca tive. Parceria, companheirismo e cuidado. E principalmente voz. Voz que nunca tive na casa da minha mãe. No clube dos cinco nos éramos verdadeiros. Sem amarras, sem meias palavras, sem códigos hipócritas de conduta. The Criminal, The Princess, The Jock, The Basket Case and The Brain.

Nenhum comentário: