Chegou a vez de falar sobre Eric, nosso amigo cor de rosa. Eric teve muita dificuldade em assumir sua homossexualidade. Especialmente pra família. O pai era sério e rigoroso, daqueles que impõem horário pra tudo. Um minuto atrasado para o almoço era motivo de sermão, não estudar três horas por dia era motivo de castigo. Tinha horário certo para cada atividade: ler, ver TV, passear. Imagino como deve ter sido difícil crescer num ambiente tão controlado.
A mãe era uma senhora distinta e católica, que acreditava na santidade do casamento. Foi herdeira de algumas propriedades que tinham sido vendidas há tempos para cobrir as despesas de casa. Agora só tinham a casa onde moravam. Eric tinha dois irmãos, um rapaz e uma moça de 16 e 14 anos respectivamente, e eles se davam muito bem. Mais com a irmã do que com o irmão, mas ainda assim uma relação harmônica.
Eric não gostava muito de se relacionar com as pessoas, geralmente ficava na dele. Tinha medo que descobrissem seu segredo. Só conversava mesmo com quem já sabia, colegas de escola, da faculdade, da dança e do teatro. Mas era notável a diferença com a gente do clube. Brincava, fazia piada, se montava. No dia a dia ele não tinha jeito de bichinha, mas na hora da bagunça fazia todas as caras e trejeitos.
Quando enfim tomou coragem e falou pra mãe que era gay a pobre ficou em choque. Todos os planos que tinha feito ficaram pra trás. Aos poucos foi aceitando e percebendo que não era nada demais. Para o pai foi um pouco mais difícil. Eric já morava fora quando contou, o pai dele não quis conversa, fechou a cara e ficaram sem se falar por quase um ano. O irmão se revoltou e fazia tudo pra começar uma briga. A irmã adorou.
A mãe dele caiu na besteira de contar a novidade para uma irmã. Logo a mais fuxiqueira. Resultado: Em dois dias a família toda estava sabendo. Eric começou a ser apontado nos encontros familiares e quando passava cochichavam alguma coisa. Ele escutou os tios conversando e um deles dizendo: “Esse mundo tá perdido mesmo, um rapaz de uma família tão boa... Se perder assim.” Eric respondeu: “Nossa, pelo jeito que vocês falam parece que eu resolvi vender crack. Não é nada disso. Apenas sou livre pra amar quem eu quiser... E vocês com isso?”
Mas esse tipo de atitude só começou a aparecer quando Eric começou a andar com a gente. Viu que não tinha motivo nenhum de vergonha e que nós o apoiávamos em tudo. Aprendeu inclusive a ter orgulho do que era apesar dos constantes insultos a que era submetido em todos os ambientes que andava. Perdeu empregos e “amigos” por isso. Mas na sua maneira deixa pra lá de ser fez exatamente isso: deixou pra lá.
Eric também sofreu um bocado amorosamente (e quem não sofreu?). O primeiro namorado que teve foi uma bichona de 50 anos que tinha até tudo em cima, mas que o mostrava como troféu. Resolveu terminar. O segundo foi um pitboy que jurava que não era gay, falava mal dos gays quando estava com os amigos, mas era uma passivinha que ligava pro Eric a cada dois dias com voz doce e segundas intenções. Depois que se satisfazia mudava completamente o comportamento. Virava um brutamontes machão.
Eric só deu um pouco de sorte depois disso. Conheceu um rapaz gente boa e até namoraram por uns meses, mas infelizmente o rapaz estava de mudança para outro estado. Ainda ficaram de tico tico no fubá pelo telefone um tempo, mas logo cada um seguiu seu rumo. E Eric começou a rodar no mundo gay de vez. Ia à festas e bares da tribo, fez amizades nos canais de bate papo e aprendeu as gírias e macetes do multiverso do arco íris. E claro nos levou para dar umas voltinhas por lá. Nós tínhamos o ticket dourado.
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