André sempre foi muito inteligente. Desde criança. Ele tinha uma memória quase eidética (memória fotográfica), quase porque ele não memorizava tudo. E, além disso, era curioso. Gostava de ler e aprender sobre tudo. De insetos a buracos negros. De tradição circense a hidrocarbonetos. Era a única pessoa que eu conhecia que sabia o que era (realmente) o complexo de Golgi. André aprendia por ler sobre, vendo e escutando explicações detalhadas.
O jeitão rebelde com brincos e roupas bem folgadas era um mecanismo de defesa. A mãe fez o favor de não dizer de quem ele era filho, então o único macho com quem ele podia contar era o irmão Átila. Ela teve vários namorados e amantes ao longo da vida deles, mas nenhum deles foi aceito de verdade pelos dois irmãos. Átila principalmente. Os dois tiveram uma infância doída e efêmera. Tiveram que crescer rápido e aprender logo os macetes da vida.
A mãe deles era cantora, logo levava uma vida de excessos e festas infinitas. Onde os dois aprenderam desde cedo a beber e fumar. Foi na presença dela que experimentaram maconha pela primeira vez. André quase sempre apenas ia na onda. Não era pressionado diretamente, mas vendo o irmão estiloso sempre popular e divertido se sentia um pouco descolado se não participasse de certas coisas. Foi assim com o piercing que colocaram.
André era romântico, sensível e carinhoso. Tinha um carisma natural e não precisava forçar um sorriso sincero. Era mais tranqüilo e pacifico que Átila, e sempre ouvia os dois lados de uma briga. Era com ele também que ficavam os maiores segredos. O presente de aniversário perfeito para André era com certeza livros. Não importa de que fosse. Ficção, técnico, drama, auto ajuda, história da Polônia. Ele os lia com a mesma paixão e intensidade. Sempre levava um livro consigo.
Ele descobriu a paixão por medicina antes mesmo de chegar ao ensino médio. Com 12 anos a carreira estava decidida. Com 12 também colocou o primeiro brinco e levou a primeira surra do amante da mãe. Átila, claro, se meteu e os dois passaram uns quatro anos morando com uma tia. Ficaram ainda mais grudados e a ligação paranormal aflorou de vez. Átila bagunçava com uns amigos na piscina de um deles quando foi pego de surpresa e jogado na água. André que dormia a 7 km dali sonhou que estava sendo jogado dentro de uma piscina e acordou assustado.
Quando enfim voltaram pra casa da mãe eram “homens feitos” com quase 17 anos. Ela prometeu mundos e fundos (e entrou em reabilitação) e viveram felizes por um bom tempo. De vez em quando discutiam sobre a paternidade desconhecida e algumas peças de decoração eram atiradas na parede. Sempre entre ela e Átila. André preferia o silêncio. Se afastava e lidava com aquilo tudo depois. E com o apoio do irmão. Era assim que lidava com tudo. Se afastava e analisava com a cabeça fria e todas as informações. Por isso sempre acabava perdoando a mãe. E Átila se negava a entender o porquê.
André chegou a receber ofertas de bolsas de estudos em outros estados onde moraram. Recusou todas. De que adiantaria ser um gênio sozinho? Preferia ser mediano com o irmão do lado. Átila chegou a dizer uma vez que André tinha um Q.I. de 147, o que André negava com um sorriso envergonhado. Mas sabíamos que era verdade. Ele era o cabeça da turma. O que tinha os melhores conselhos e as idéias mais práticas. Era o que tinha as melhores respostas também. Tinha um diálogo simpático e amigável, que cativava qualquer um.
Quando disse que ia fazer vestibular pra medicina as pessoas fizeram o que sabem fazer melhor: estragar as coisas. Disseram que seria muito difícil, que ele deveria ter determinação e que ninguém passava de primeira. Fiquei muito feliz em estar presente no dia em que André calou a boca de todos eles. Enquanto o parabenizavam disse: “É, pra maioria imbecil da população passar em medicina deve ser difícil mesmo. Pra mim não foi.” Passou em quinto lugar geral e segundo do curso. Depois disso só ouvimos o cricrilar dos grilos.
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