Duas coisas. A primeira: o clube dos cinco virou dos seis e a nova participante tinha que ganhar um texto como os outros. A segunda: natureba é a palavra que mais se aproxima do estilo de Nayana, mas ainda não é a mais adequada. Natureba soa mal, como se a pessoa fosse chata e exigente. Que fica corrigindo hábitos por onde passa por que sabe que o seu é melhor. Mas ela não era assim e não é nesse sentido que ela era natureba.
Nayana era natureba por gostar de coisas naturais, a começar pelas roupas. Quase todas eram de algodão. Ela não tinha uma peça de jeans. E comprava tudo nos cantos mais baratos. Os cabelos eram lavados com os produtos básicos e secos ao vento. Às vezes ela passava um reparador de pontas ou um ativador de cachos. A alimentação não incluía enlatados nem carne. Não tomava refrigerante, não comia frituras e não passava nem perto de uma restaurante de fast-food. Nesse sentido era natureba mesmo.
A criação ajudava. Nayana era neta de uma preta velha cachimbeira. A vó, a quem todo mundo chamava madame Suzete, era parteira e rezadeira. Ela tinha um carinho muito especial pelo André e pelo Átila. Mas todo o clube a chamava de vó. Madame Suzete era de um interior de um interior. Na verdade de uma vila que era distrito de uma cidadezinha de 25.000 habitantes. E dizia orgulhosa: “É minha filha, ajudei a botar metade daquela cidade no mundo.” Depois dava uma longa tragada no cachimbo.
Nayana escutava músicas “de raiz”. São aquelas que tem uma zabumba no meio. Andava com carinhas que calçavam sandália de couro, tinham barba e usavam brincos e anéis de coco. As meninas usavam batinhas indianas, chinelinha rasteira e também usavam brincos e anéis de coco. Alguns tinham dreadlocks, tanto meninos quanto meninas, mas nenhum deles tinha uma peça de roupa jeans.
Às vezes ela nos chamava pra festas dos amigos do lado “raiz” e no começo foi até interessante, mas não era nosso tipo de música nem nosso tipo de tribo. Era uma questão de preferência mesmo. Mas gostei do pessoal. Gente verdadeiramente da paz. Uma galera que não se estressava com nada e vivia em harmonia plena. Tinha até alguns deles que viviam numa sociedade alternativa numa praia.
E de tantos boys que tinham em seu encalço resolvi chamá-la de outra forma: Iracema, a virgem dos lábios de mel. Todo menino que ela beijava ficava apaixonado. Na verdade num precisava de esforço pra se apaixonar por ela. Mas depois que elas os beijava a paixão se intensificava. Um deles fez até uma daquelas loucuras de amor no carro de som. E depois disso eu fiquei curiosa sobre o que o beijo dela tinha de tão diferente.
Perguntei ao André, que como cavalheiro que era não falou nada, apenas que: “Foi uma experiência extremamente satisfatória.” E a frase foi dita no meio de um enorme sorriso de nostalgia. Desisti de tentar descobrir qual era, mas tive certeza que tinha um segredo. Mas nos limitamos a zombar dela toda vez que um menino aparecia apaixonado.
Para Nayana o copo estava sempre meio cheio. Pra ela não tinha tempo ruim ou desconforto. Pelo contrário. Tudo tinha um lado positivo. Na maior parte do tempo era ótimo estar ao lado dela, ela dava força, botava pra cima mesmo.
Mas tinha momentos em que tudo que eu queria era jogar uma coisa na parede, botar a raiva ou frustração pra fora. E a senhorita o-copo-está-meio-cheio aparecia com o papo auto-ajuda. O pior era que ela sempre era tão encantadora e meiga que não tinha como não esquecer tudo e pensar em pôneis e borboletas. O resto do dia inteiro. No fundo eu sempre soube o segredo dela. Nayana não era humana. Ela sempre foi uma fada.
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