Andando com a turma do colégio conheci duas meninas piradas. Isabel e Tina. Tina era loura e bem, bem, bem magrinha. Parecia até doente. Não tinha peito nem bunda e era modelo. Isabel era bem branca, também bem magra e tinha o cabelo chanel preto, o que comparado com seu corpo franzino ficava desproporcional. Fumava feito uma caipora e tinha os braços tatuados. Eu não era muito amiga delas, apenas colega. Mantinha certa distância de certos assuntos.
Secretamente eu chamava as duas de Cocão e Desbundada. Mas saía com elas por falta de coisa melhor. Pelo menos elas tinham amigos bonitos e ricos, saíam pras festas mais badaladas e conheciam o que havia de mais fino na cidade, entre pessoas, drogas e lugares. As duas cheiravam muito pó, pela profissão de modelo, e fumavam muita maconha pela pressão de viver na nata branca da alta sociedade.
Um desses amigos da nata era o JP. Um gordo tarado que era um dos maiores produtores de shows da cidade. Era ele que trazia bandas como Angra, O Rappa, Raimundos, Ratos de Porão e até o Blaze Bayley pra cidade. E foi por causa dele que assistimos, no primeiro Ceará Music, o show da Cássia Eller do palco.
Mas ele era mais gentil com elas, entendi porque depois. Elas iam pra casa dele onde os três bebiam, fumavam maconha e cheiravam pó à vontade. E depois ele fazia ensaios fotográficos com elas nuas. As duas tinham 16. Ele fazia promessas de ajudá-las na carreira de modelo e dava o quanto elas quisessem de maconha e pó. A Tina soltou que às vezes ele ficava nu também e se masturbava enquanto batia as fotos. E que com certa freqüência contratava michês para apimentar o ensaio. JP gostava de assistir as meninas sendo penetradas e, depois ia brincar a sós com os garotos.
Porém a verdadeira festa acontecia depois de algum show. Geralmente estava a banda toda e os produtores, mais amigos íntimos. A bebida e a maconha rolavam soltas, mas o pó era consumido restritamente. Os homens mais velhos adoravam a seleção de jovens garotas bêbadas (não éramos as únicas) e lhes prometiam mundos e fundos. Algumas acreditavam. Eu preferia os músicos. E somente os bonitos. E dificilmente ficava com algum vocalista. Preferia os baixistas e bateristas. Não sei por que eles me atraíam mais.
Comecei a colecionar baquetas e cordas de baixo. Um dia estava beijando um baterista, quando abri os olhos percebi que a Tina estava entrando num quarto com mais três caras, e que a Isabel tinha sumido. Algumas meninas ainda estavam na sala, mas todas elas já beijavam ou tinha a mão (ou mãos) dentro das calças de alguém. Fomos procurar um local mais calmo pra gente. Entramos num quarto, mas o casal que “ocupava” uma das camas não se incomodou com a nossa presença. Meu baterista quis ficar, eu recusei, decidimos ficar no banheiro, que era enorme e tinha banheira.
Depois daquela noite fui dormir na casa da Tina. Ela pediu que eu guardasse o pó dela na minha bolsa, o pai dela que não era bobo suspeitava que ela usasse drogas e vasculhava as coisas dela. No outro dia eu tinha um jogo bem cedo. Acordei exausta e lenta, a maconha ainda fazia efeito, e não podia jogar daquele jeito. Se dissesse pro técnico que tinha farreado na noite anterior ele me tiraria do time, responsabilidade era a coisa número um. Lembrei do pó que tinha na bolsa. Sabia muito bem como preparar e cheirar. Fiquei tão elétrica que tive medo de dar na telha, mas ninguém percebeu. O jogo foi tranqüilo.
Descobri mais uma diversão pras festinhas do JP. Agora além de beber, fumar maconha e transar com músicos eu também cheirava pó. Quando dei por mim tinha uma gaveta cheia de crachás VIPs, baquetas e cordas de baixo. Não lembrava o nome dos caras que tinha ficado, nem de que banda eram. Não lembrava detalhes de certas noites. Tinha no quarto um esconderijo de maconha e pó. Acordava nua ao lado de estranhos sem saber como tinha chegado ali. Às vezes mais do que um na mesma cama. E percebi que tinha atingido a decadência. Dei um basta. Eu era jovem, bonita e talentosa demais pra deixar minha vida se esvair assim. Mandei as “amigas” pro inferno e decidi abrir meus horizontes.
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