No primeiro dia de aula do meu 3° ano tive uma surpresa. Acanhada, a um canto uma velha amiga parecia não se encaixar direito naquele cenário. Quando a cumprimentei ela ficou genuinamente surpresa e pareceu que tirou um peso enorme das costas. “Oi, Michele. Senta pra cá, é onde nossa turma fica.” Como já me conhecia ela estava aceita na turma, que, aliás, ficou muito mais unida nesse ano.
Michele falou que entrou no nosso colégio porque o pai dela, que era separado da mãe, era suplente de um senador que morreu em exercício. Ele assumiu o cargo e agora ela era filha de um senador. E tinha que estudar na melhor escola da cidade. Michele agora entrava na alta sociedade e por causa da mãe dela entrou com o pé esquerdo. Não a culpo, ela não teve uma rainha de Genóvia como eu.
Helena era uma mulher brega e desbocada, que assistia muita TV e lia romances de banca de revistas. Jogava num bar toda noite e namorava um caminhoneiro que dava em cima da Michele. Foi o máximo quando ela descobriu que o ex marido era senador. E pediu uma pensão gordíssima pra ele. No mesmo mês comprou móveis (breguíssimos), uma geladeira nova e começou a reformar a casa. No outro comprou um carro. E contratou um motorista.
Esse tipo de comportamento denotava exatamente o tipo de pessoa que ela era. Sem classe. Nunca tinha visto um talher de peixe, não sabia o que era RSVP, mas tinha toda a pose como se soubesse. Ninguém é obrigado a saber. Mas se quer entrar nesse mundo de festas e eventos requintados tem que, pelo menos, estudar um pouco. Não sair esbanjando pra mostrar tudo o que (não) sabe ou tudo o que tem.
Michele acabou entrando na onda da mãe. Agora ela tinha dinheiro, podia comprar o que quisesse, o que desse na telha. Começou a andar com as patricinhas, tirou o rastafári, ia fazer compras no shopping, ao salão de beleza e trocou as calças de skatista por jeans coladinhos. O que ela não sabia era que por trás as Patys ficavam comentando o quanto ela era sem estilo e uma “nova rica”.
Mas nem tudo estava perdido. Depois de algumas semanas eu e Michele éramos amigas de novo como se Ariel nunca tivesse acontecido. Comecei, aos poucos, a dar dicas e explicações sobre certas coisas e pessoas. Passei pra frente todo o ensinamento que D. Zilda me deu. Não sei se tão bem quanto ela. Mas no nosso grupo, e principalmente na escola, eu era um modelo de estilo.
Michele demorou um pouco, mas logo pegou o jeito da coisa. Dispensamos o motorista desnecessário, começamos a ir ao salão nós duas e a apresentei aos amigos do Jóquei clube e do Iate clube. Mostrei a diferença entre dia e noite (não literal). De dia você é uma moça respeitável, alinhada, sempre educada e sorridente. À noite somos nós mesmas. Festas e bagunças.
Fiquei feliz por ela entrar nesse mundo sufocante dos eventos sociais. Era alguém que junto comigo vivia duas vidas. Com quem eu podia contar nos dois lados. Não tinha mais segregação. É claro que ela ainda tinha coisas pra aprender, mas isso viria com o tempo, como foi comigo. Mas agora eu não precisava mais ficar só.
O mais difícil, claro, era convencer a mãe dela de que o menos era mais. Um dia voltávamos da escola quando notamos que havia um grande churrasco em frente a casa da Michele. A mãe dela tinha fechado a rua e chamado o bairro todo pra comemorar seus 43 anos. Depois de bêbada cantou o que quis e o que não quis e tirou muitas, muitas fotos. Deixei bem claro pra Michele: “Se você não der um jeito na sua mãe pode esquecer sua vida social, porque você vai ficar marcada como a filha do senador e da brega.”
Michele entendeu meu recado. Conversou com a mãe. E ela aceitou fazer umas aulinhas de etiqueta. Aos poucos as estampas de oncinha sumiram. E fazer escova virou um hábito.
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