segunda-feira, 22 de março de 2010

A morte da minha verdadeira mãe

Como já disse antes minha mãe era apenas alguém com quem eu convivia, chamava de mãe por puro protocolo e acatava certas ordens pelo bem geral. Mas o sentimento que eu nutria não era materno. Era mais fraterno. Claro que eu a amava. Ela era uma pessoa muito cativante e alegre. No quesito amizade. No quesito mãe era bem diferente. Chegava a ser distante e desinteressada.

Outra pessoa cumpria esse papel muito bem. Era D. Zilda, a esposa do vô. Além de muito inteligente era elegantérrima. E se interessava pela minha vida muito mais do que minha mãe. Me perguntava sobre boys e festas, me ensinava sobre contracepção e me dava broncas discretas. Como por exemplo: “Querida você foi à aula de dança hoje?” perguntava levantando os olhos do jornal que lia na varanda. “Não.” Eu respondia envergonhada. “E o que você acha disso?” ela dizia voltando à leitura. Não tinha muito o que responder. Ela também não dizia mais nada.

Foi no colo dela que eu chorei quando descobri que o Roberth ia casar e ser pai. Foi pra ela que contei que tinha entrado na escola de dança do Cardoso. Era pra ela contava as fofocas da alta sociedade. Era com ela que eu ia ao salão de beleza, que fazia compras. Ela era o “Em caso de emergência avisar:” na minha agenda do colégio. E o número um na discagem rápida do meu celular.

No segundo dia de férias acordei com o telefone da sala tocando. Corremos todos para o hospital. Ela teve um ataque cardíaco no começo da manhã. Estava bem, fora de perigo, mas em observação. Me ofereci pra ficar com ela no hospital. Na manhã seguinte voltamos pra casa. Mais alguns dias e ela passou mal de novo, o vô ligou no meio da noite. Fomos pro hospital mais uma vez.

Dessa vez ela ficou internada. Ligamos pros filhos dela e eles sequer vieram visitá-la. Ficou cerca de uma semana, fazendo exames e sendo examinada por muitos especialistas. Nenhum deles descobriu o que havia errado. Tudo dela tava normal. Colesterol, ácido úrico, leucócitos, pressão arterial. Não parecia haver nenhum problema, então voltamos todos pra nossa casa.

Ela passou vários dias bem. Dormindo bem, comendo bem, conversando bem. Até que uma noite percebi que alguém me cobria e me beijava na testa. Não pude ver quem era, distingui apenas uma silhueta contra a luz do corredor, mas meus olhos pesavam demais. E o afago me fez relaxar ainda mais. Há tempos não dormia bem assim. Sonhei com meu pai. Ele me disse alguma coisa que não consegui entender. Vestia um terno branco.

Acordei com a imagem dele na minha cabeça. Quando cheguei à cozinha vi que meu vô olhava distante pela janela da varanda ainda de pijama. Acho que nunca tinha visto meu vô de pijama. Minha mãe chorava no telefone e minha avó andava pra cima e pra baixo. Eu nunca fui burra. Mas nesse momento precisei de uma informação direta.

“O que houve?” perguntei só pra ter certeza, porque saber eu já sabia. Minha mãe respondeu: “D. Zilda...” ela nem precisou dizer o resto. Fui até o quarto. Ela parecia tão calma, tão serena. Acho que tinha até um sorriso no canto da boca. Me ajoelhei e fiquei olhando seu peito, procurando por um mínimo sinal de respiração. As vezes tinha a impressão que mexia.

Segurei sua mão, chorando. Estava um pouco gelada e levemente pálida. Mas seu rosto continuava rosa. Fiquei ali sentada ao pé da cama nem sei quanto tempo. Só levantei quando as pessoas que iam levá-la chegaram. Mas a ficha ainda não tinha caído. Até o enterro minha ficha não tinha caído. Não chorei no velório e nem no enterro. Um primo meu veio me questionar. “Porque você não está chorando? Não gostava dela?” Levou uma bofetada. Eu saí de lá e fui passear no jardim. Gosto de ficar só quando estou triste.

Acho que o vô também. Assim que achei um local longe e quieto pra ficar percebi que ele tinha me seguido. “Você tem um daqueles cigarrinhos aí?” perguntou assim que sentou do meu lado. Tirei o baseado da bolsa e acendi. Só então meu vô chorou. Chorei junto com ele. Ficamos ali em silêncio até que meu irmão chegou chamando a gente pra missa. Uma cerimônia simples e elegante como ela. De todas as pessoas que passaram pela minha vida ela é, com certeza, uma das que mais sinto saudades.

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