domingo, 14 de março de 2010

Quatro amigas e um jeans viajante 2

As quatro amigas eram a Ariel, a Natália, a Michele e eu. Ariel era quase da minha altura, bem branca e tinha o cabelo vermelho quase berrante. Não gostava de suar, de areia e de insetos. Natália era a mais nova, também muito branca e loura natural. Pintava o cabelo de preto e tinha um piercing na sobrancelha. Michele andava de skate e matinha o visual largado, era negra e tinha um rastafári invejado. Fazia as melhores caipirinhas que eu já tomei. E eu aprendi a usar vestido e salto, mas ainda mantinha o cabelo longe de tintura e usava calças gigantes de vez em quando.

O jeans viajante, nesse caso, era o Flávio. E ele era um fofo. Não tinha aquele jeitão de homem, era mais meninão. Loiro, surfista, olho azul, bem magro e bem, bem alto. Entre nós tinha o apelido de Espigão. Ele tinha uma espécie de humor negro que só nele servia. Outra pessoa dizendo as mesmas coisas soaria arrogante e insensível. Nele ficava engraçado. Era também o melhor pra guardar segredo. As meninas comentavam entre si. O Tales comentava com todo mundo.

Flávio conseguiu a façanha de ficar com as quatro amigas. Primeiro ficou com a Ariel numa noite de sábado em que fomos pra Division Bell. Começaram a se agarrar do nada dentro do carro. Acho que o fato dela estar sentada no colo dele ajudou. Senti um cutucado e quando olhei pelo retrovisor os dois estavam aos beijos.

Ficaram mais umas duas semanas. Achávamos mesmo que ia dar namoro. Mas da maneira que começou, abruptamente, terminou. Um dia eles simplesmente não estavam mais juntos. Foi então que descobrimos a paixão secreta da Natália. Ela parecia um pouco comigo, no meu primeiro amor, tremia um pouco e dizia umas coisas super idiotas.

Até que um dia na praia, eu e ele estávamos fumando um e a Natália se aproximou. Disse na lata: “Quero ficar contigo.” Eu, discreta que sou, me escafedi. Eles começaram a se agarrar. Ele e a Natália ficaram por um mês, depois ela se apaixonou por um dos urubus. Os urubus, que era como a gente chamava a turma do Grogue por eles só andarem de preto e coturnos (até na praia), começaram uma aposta pra ver em quanto tempo ele ficaria com as quatro. O Flavio não sabia disso.

E como a Michele estava namorando com o Grogue eles começaram a apostar em meses em vez de dias. Mas o destino é basicamente um cachorro agitado (a gente nunca sabe o que ele vai fazer). Numa noite de “Girls Night Out”, ou Clube da Luluzinha, encontramos o Flávio com uns amigos surfistas num barzinho. Estávamos as quatro bebendo e jogando sinuca, falando de homem, maquiagem e liquidação de bolsa. Mas quando me dei conta éramos só três.

Quando finalmente soubemos o paradeiro da Michele, descobrimos que ela estava se agarrando com o Flávio no carro de um amigo dele. E pelo embaçado dos vidros o negócio tava pegando fogo. Depois ela chegou (ele já tinha ido) com a maior cara de Amélia e disse: “É, ele beija bem.” Caímos todas na gargalhada. Brindamos a mim, a última que faltava. Elas começaram a contar como tinham sido as experiências.

Duas semanas depois teve um lual na praia. Até os urubus foram. Eu estava dançando quando o Flávio chegou e me abraçou. “Só falta você né?” disse baixinho. Depois colocou uma flor no meu cabelo. “É, mas eu não sou tão fácil.” “O que eu tenho que fazer pra você ficar comigo?” Depois de um charme falei: “Primeiro: conseguir uma bebida de graça. Segundo: conseguir uma blusa de algum segurança. E terceiro: cantar uma música no palco com a banda.”

Ele riu. Depois disse: “As mais difíceis são as melhores.” E saiu. Depois de uns 15min ele volta com a blusa e com a bebida. “Como você conseguiu?” “Apenas falei a verdade. Que a gata que eu quero conquistar é caprichosa.” E foi me puxando pra perto da banda. “Agora vou cantar pra você.” E subiu no palco. Com ajuda dos seguranças e que sorriram quando ele apontou pra mim. O cantor pediu licença e quando o Flávio pegou o microfone eles começaram a cantar “Is This Love” (esqueci de mencionar que era uma banda de reggae).

Desceu sob aplausos e me beijou. É claro que as outras três ficaram com inveja. E enquanto as meninas sabiam que o Flávio tinha completado a coleção, os meninos ficavam zoando o Grogue que só faltava a mina dele. Mas claro que a gente não ia falar nada. A piada sendo interna era mais engraçada. Ficamos mais algumas vezes e chegamos às vias de fato, mas continuamos como amigos.

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