quarta-feira, 24 de março de 2010

Um tablado, dois atores e uma paixão

Segunda semana de aula e recebi um comunicado. “Você conseguiu uma vaga na aula de teatro”. Agora além da dança, do vôlei e do piano eu teria aula de teatro. Cheguei à sala já atrasada porque fiquei batendo papo com as meninas do vôlei e esqueci do novo compromisso. E notei que a professora não gostou muito disso.

Ainda com roupa de treino (a coladinha era só pra jogo) sentei no chão, na roda de pessoas com batinhas indianas e calças de algodão. Me senti diferente deles. Eles usavam brincos e anéis de coco, roupas naturebas (se é que isso existe) e cabelos ao natural. Cachos e ondas sem produtos que as adestrasse. As meninas não sabiam o que era um esmalte, os meninos tinham a barba por fazer e alguns eu não diferenciava o gênero.

A professora, chamada Dora, começou a falar sobre os métodos de avaliação e as produções de fim de ano. Depois contou a história do teatro. Onde surgiu, com quem e o significado das duas máscaras. Depois fizemos um exercício pra relaxar (fazendo caretas uns pros outros). Eis que nesse momento a porta abre e dois irmãos entram estabanados na sala.

Dois irmãos gêmeos (acho que atraio). Um tinha o cabelo espetado vermelho, blusa regata e calças frouxíssimas. O outro usava um boné pra trás, camisa enorme e corrente no pescoço. Levaram bronca assim que entraram. Pegaram o bonde andando e no fim a professora chamou nós três pra conversar. “Não admito atrasos. Essa foi a última vez.” Depois se virou e saiu, e nós descobrimos que seríamos as ovelhas negras. Nos apresentamos e eles me deram uma carona pra casa.

Nas aulas seguintes chegamos na hora. Fazíamos alongamento e eu pela dança era mais elástica que os naturebas (era assim que a gente chamava), que faziam teatro desde sempre. Não sei por que eles pareciam não gostar de mim. Um dia um deles disse olhando pra mim: “Essas modelos que querem aparecer na malhação estragam a profissão do ator.” Eu respondi sem dar muita bola: “Nossa, que dramático.” E notei que eles tinham certa tendência a dramatizar tudo.

Eu não tinha nenhum interesse em ser atriz profissional, mas gostava das aulas e da idéia. Eles odiavam isso. Achavam que eu não teria compromisso. Deixava bem claro pra eles, se tivesse que trocar ou trocaria. Tinha paixões mais antigas, não ia abandoná-las pelas convicções de outras pessoas. Mas adorava os exercícios e as leituras.

Porém nada se comparava com meu dom. Foi essa professora que descobriu que eu tinha um talento natural pra reproduzir posturas e gestos. Num exercício ela pediu que imitássemos um colega de sala. Escolhi uma menina aleatória. Deduziram com facilidade quem era. Daí em diante Dora começou a me ver com olhos diferentes. O que, para os naturebas, foi o fim da picada.

Não chegou a ser uma guerra declarada, mas era notável o desconforto deles com a minha presença. Até que um dia a professora me perguntou se eu não acharia melhor ir para outra turma. Ela já tinha falado com o professor que ficou muito feliz em me receber. Os dois meninos ficaram muito tristes em saber que eu ia pra outra turma, estávamos bem amigos. Na realidade éramos os únicos amigos uns dos outros.

Então eu impus uma condição: “Eu vou, se os gêmeos forem também.” Foram aceitos na hora. Passamos pra turma mais “amadora”. Eles eram bem mais “felizes” que a outra turma. Não existia a briga de egos, apenas amor à arte. O professor, Alberto, era filho de uma grande diretora da cidade. E, fiquei sabendo depois, o “passaporte” pra entrar no grupo dela.

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