Tudo começou quando a Ariel fez um comentário sobre a roupa da Michele: “Com essas calças você parece uma sapatão.” A Ariel tinha um comportamento meio digo-tudo-na-lata. Comigo ela nunca tentou nada, acho que ela tinha medo que eu jogasse alguma coisa nela, mas com as outras, de vez em quando, dizia umas coisas insensíveis. A Michele, em vez de mandá-la à merda (como qualquer pessoa faria), foi se justificar. “Eu gosto de usar roupas assim, é meu estilo.” As duas quase entraram na tapa ali mesmo, e depois desse dia deixaram de se falar.
A briga foi entre ela e a Ariel, não entre ela e o grupo todo, mas a Michele deixou de sair com a gente e começou a andar só com o Grogue e os urubus. Ela ainda falava com a gente, mas não éramos mais sua turma. Me perguntaram se eu não iria tentar uma reaproximação. “Eu? Foi ela que deixou de andar com a gente.”
Então sobraram cinco. Mas a Natália caiu na besteira de contar pra mãe dela que fumava maconha. Foi mandada pra Universal do Reino de Deus. A coitada da mãe dela era namorada de um pastor de lá. Que, aliás, sempre que me via queria me converter, mas eu dizia com todas as letras: “Não posso, sou bruxa.” Ele pegava a bíblia e começava a recitar os capítulos e versículos. “Você renega ao senhor todo poderoso?” “Não.” “Mas você diz que é bruxa, bruxos são seguidores de satanás!” “É que eu sou uma bruxa boa.” E caia na gargalhada.
De repente ela começou a andar com saias abaixo do joelho, blusas de mangas compridas e abotoadas até o pescoço e com uma bíblia na mão. Mas o pior foi quando realmente fizeram a lavagem cerebral e ela veio com o papo de crente pra cima da gente. Chamava a gente de pecadores, dizia que as meninas estavam desvirtuadas e toda essa lengalenga. Deixamos de andar com ela também.
Então sobraram quatro. Mais um mês e o Tales conheceu uma nova garota que se mudou para o bairro. Não só ele se apaixonou, como todos os outros. E não sei o que eles viam nela, porque ela era tão insípida que dava nojo. Mas o Tales foi o grande ganhador do coração da donzela (sim, descobrimos que ela era donzela). Todos nós achamos que não ia durar muito, mas ela deu as ordens e ele deixou de andar com a gente. Nunca chegou a dizer que ela não deixava, apenas estava sempre “ocupado”. Deixou de beber, fumar (as duas coisas) e mudou o visual. Pensando bem, acho que ela deve ter feito um trabalho pra ele, porque ele mudou do vinho pra água.
Com os outros três longe, ficamos eu, Flávio e Ariel. Meia turma. Não era mais a mesma coisa. Não era mais tão divertido. As piadas ficavam rapidamente sem graça, as fofocas perdiam o sentido. Sentia falta de conversar com as outras, mas elas sempre estavam ocupadas demais pra mim. Deixamos de sair com tanta freqüência pra lugares fora do bairro. Ficávamos sempre ali, com as mesmas pessoas, com as mesmas conversas. Comecei a dormir cedo, a estudar mais, me concentrar em outras coisas.
Fiquei mais próxima dos amigos do colégio. Recusava cada vez menos os convites deles. Me entedia mais com as meninas, saía com elas para fazer unha e massagem. Passeávamos no shopping, fazíamos compras e contávamos cada uma das calorias que comíamos durante o dia. Saía com filhos e netos de grandes empresários da cidade, aparecia em colunas sociais e achava aqueles eventos cada vez menos entediantes.
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