quarta-feira, 31 de março de 2010

Quarteto Fantástico

Durante o ano do meu 17° aniversário fiz (e refiz) três dos cinco melhores amigos que tenho até hoje. Eram Átila, André e Michele. O quarto (Eric) e a quinta (Nayana) fiz com 18 e 19 anos respectivamente. Eric entrou no meu grupo de teatro e Nayana no meu grupo de dança. Mas a história deles é mais pra frente.

Eu, Michele e os AA criamos um vínculo tão forte que, como já disse, dura até hoje. Michele demorou um pouco mais pra entrar de vez na amizade, mas depois que começou a namorar com o Átila ela ficou por dentro de todos os babados. E eles começaram a namorar num show da mãe deles. Estávamos no camarote vip, bebendo e (porque não?) fumando um beck, quando percebi que os dois se agarravam do meu lado. Eu já tinha beijado os dois antes. Primeiro foi Átila, numa rave. Estávamos dançando quando ele disse: “Você hoje tá mais linda que nunca.” “Concordo.” Disse André. Átila simplesmente me beijou. Assim mesmo, do nada. Depois disse: “Deu vontade.” André fez biquinho e disse: “Ah, eu também quero.” E me beijou também. Acho que dei mais uns dois ou três beijos em cada. E foi só.

Mas na noite que os dois começaram a namorar eu e André ficamos mesmo. Com direito a longos beijos, segurar na mão e amassos. Só então notei como era gostoso. Já tinha visto ele sem blusa, lógico, mas nunca tinha “pegado” nele (se é que você me entende). Mas nossa amizade não ficou estranha. Nada era estranho pra gente. Tanto que um mês depois eu tava namorando o Luke e ele arrumou uma menina da escola pra gastar saliva (se é que você me entende).

Tínhamos uma relação super aberta. A única coisa que era segredo eram os assuntos de “menina” que eu tinha com a Michele. Esmalte, gel, maquiagem, teste da Capricho. Mas a gente deixava eles de fora por pura pirraça. Pra criar um clima de suspense. Criamos até uma irmandade secreta fictícia chamada de Coper Bum. Quando uma queria pedir um absorvente, dizia: “Amiga, tenho um segredo do Coper Bum pra te falar.” Eles ficavam doidos pra saber o que era.

Nós quatro estudávamos na mesma sala, o que nos aproximava mais. Mas a gente também brigava. Especialmente nos dias de TPM das moçoilas. No começo eles tiravam sarro, mas depois que eu atirei um sapato no Átila eles levaram a coisa a sério. A gente sempre fazia tudo junto. Ir à praia, ao cinema, estudar, fazer compras e ir ao salão de beleza. Os meninos além de fazer a barba e cortar os cabelos também faziam pé e mão. Eu adorava essas nossas tardes relaxantes. E tinha sempre quem perguntava se eles eram gays. “Não, é que as mulheres preferem homens limpinhos.” Respondia o Átila, que era o único dos quatro que pintava o cabelo.

O quarteto também adorava aventura. Finais de semana e feriados prolongados geralmente eram motivo de viagem, pegávamos o carro e íamos onde o vento levasse. Surfar, acampar, tomar banho de cachoeira, fazer trilha. A gente tinha tudo isso a uma distância de duas horas em qualquer direção. Às vezes chamávamos outros amigos pra melhorar a festa. Amigos do teatro, da escola, da vida-louca-vida noturna. Mas no geral éramos só nós mesmos.

Nós já tínhamos o costume de perambular pela casa dos outros. Uma vez cheguei em casa e o Átila tava dormindo no meu quarto e a Michele tava no banho. Outra cheguei na casa deles e eles tinham saído, mas isso não me impediu de entrar, lanchar e atender o telefone. André quando ouviu minha voz disse: “Eu liguei foi pra ti? Achei que tivesse ligado pra casa.” “Eu to na tua casa.” “Ah, bom. O que tem pro almoço?” “Arroz, feijão, farofa, salada e frango assado.”

O namoro da Michele e do Átila só durou três meses. Mas acabou bem, sem briga. Ela ficou afim de outro, ele percebeu e eles voltaram a ser só amigos novamente. E na primeira festa louca que teve Átila me chamou pra um canto e disse: “Você tá me devendo uma coisa.” “O que?” Perguntei sem entender. E ele me beijou. Ficamos também com direito a longos beijos, segurar na mão e amassos. Muitos amassos (e descobrir a gostosidade dele também). Acontecimentos que na manhã seguintes eram apenas lembranças de uma vida bem curtida.

terça-feira, 30 de março de 2010

Teste do sofá

À medida que o tempo foi passando notei que meus colegas do teatro iam para o grupo Próximo Ato (da mãe do meu diretor). E minha turma ficava cada vez menor. Então numa tarde o professor aproximou-se de onde eu, Átila e André estávamos e disse: “Vocês dois já pensaram em seguir a carreira de ator?” Nós três desconfiamos do que viria a seguir. “Porque vocês não passam na minha sala depois da aula pra discutirmos isso?”

Que descarado! Como alguém podia ser indiscreto assim? Ficamos ainda um tempo perplexos. Então André se manifestou: “O que a gente vai fazer?” “Como assim? Nada! A gente não vai fazer nada.” Disse Átila. E eu comecei a assistir a discussão dos dois. Átila era completamente contra, esse tipo de coisa só acontecia porque tinha gente disposta a fazer. Já André (que realmente queria ser ator) achava que ninguém era criança e todos nós sabíamos que era assim mesmo que funcionava.

“É só uma vez.” disse André “E a gente entra no maior grupo da cidade.” Mas isso deixava Átila inquieto. E eu simplesmente não tinha opinião. Não podia botar um preço no sonho dos outros. Não sei como eles decidiram ir em frente. Assim que a aula acabou eu fui esperar no carro (muito nervosa, diga-se de passagem) e eles foram “discutir o futuro” na sala do professor. Eu coloquei o som no ultimo volume e simplesmente comecei a chorar.

Imaginei como eles estariam se sentindo. Fiquei com a cabeça baixa simplesmente esperando. Depois de uns 40min os avistei saindo no portão da escola. Átila segurava André que, depois de alguns passos, se agachou encostando numa parede e vomitou. Depois os dois vieram na minha direção. Entraram sem dizer uma palavra. Átila acendeu um cigarro e só ligou o carro depois de alguns minutos.

Fomos pra praia. Ainda sem dizer palavra. Sentamos na areia e ficamos vendo o mar. Longos minutos em silêncio. Silêncio que fere. Quando olhei pra Átila vi uma tímida lágrima descendo de seu rosto. Ele limpou sem cerimônia. André desabou no choro. Abracei os dois. Isso não tinha nada a ver com sexualidade. A questão não era ser gay ou hétero. Nenhum deles era homofóbico, pode ter certeza. A questão era ser usado, se sentir impotente e invadido. Se vender por um sonho. Sonhos são poéticos, não podem ser desfeitos assim.

Em casa conseguimos conversar. Depois de umas caipirinhas e um baseado. No fim da tarde André deu uma grande gargalhada dizendo: “Amanhã somos atores do Próximo Ato!” Rimos um bocado. Me senti aliviada. Eles tinham acabado de superar aquilo. Foi aí que me ocorreu: “Amanhã vocês serão grandes atores. E eu vou ficar sozinha.” O riso sumiu. Depois de uma longa pausa eu tive uma idéia. “Eu vou entrar no grupo de vocês.” Os dois gritaram “Não!” ao mesmo tempo. Passaram meia hora tentando me convencer do contrário. Mas minha decisão estava tomada.

No outro dia (com resistência dos AA) procurei o professor depois do treino de vôlei. Claro que pensei em fumar um beck antes, mas se os dois tinham agüentado de cara limpa eu agüentaria também. Ele estava em sua sala arrumando uns papéis. Entrei e disse: “Ontem o senhor conversou com os meninos sobre o futuro deles, eu queria conversar sobre o meu também.” Ele soltou vagarosamente os papéis na mesa e olhou pra mim. Me examinou de cima a baixo. Depois disse: “Eh, acho que você tem futuro.” E apontou o sofá se levantando. Começou a desabotoar a camisa e eu comecei a tremer. Me arrependi de não ter fumado.

Joguei minha mochila no chão, tirei a blusa e o short. Com a mesma rapidez tirei o tênis e a meia. E ele disse desabotoando a calça: “Pode deixar que o sutiã e a calcinha eu tiro.” Começou a beijar meu pescoço e passar as mãos pelo meu corpo, senti uma agonia tremenda. Me fez ajoelhar e tirar sua cueca. Senti vontade de vomitar, mas fiz o que ele esperava. Fiz tudo o que ele queria em todas as posições que ele pediu. Liguei o piloto automático e deixei a maré me levar. Fiquei tentando colocar minha mente em outro lugar. E visualizei meus amigos. Era pra ficar perto deles que eu fazia isso. Então tudo terminou. Ainda nu ele pegou o telefone. “Alô. Oi, Simone, estou mandando mais uma pessoa pra você. Uma moça talentosíssima. Ok, tchau.” E apontando a porta disse: “Pronto, pode ir.”

Me vesti tão rápido que nem lembro se vesti o short ou a blusa primeiro. Não disse mais nada. Apenas saí. Lá fora os dois me esperavam, assim que cheguei me abraçaram. Disse chorando: “Pronto, estamos juntos de novo.” Repetimos o trajeto da tarde anterior. Fomos à praia, fumamos um beck, bebemos caipirinhas. E ao final da noite tudo era lembrança. Estávamos juntos novamente e isso era o que importava.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Não cobiçarás o marido da próxima

Quase um ano depois de ter visto o Roberth pela última vez o reencontrei. Fui visitar meu tio, nas férias como sempre, e percebi que o que me mantinha bem era morar longe dele. Assim que o vi estremeci. Roberth estava mais magro e parecia abatido. Trabalhava demais pra sustentar a mulher e o filho. Mas assim que me viu abriu seu lindo sorriso. E me abraçou carinhoso. Disse no meu ouvido: “Nossa, que saudade.”

Depois me entregou um bilhete com um endereço dizendo: “Aparece depois das onze.” E me deu um beijo no rosto. Eu sabia o que aquilo significava. Você também. Assim que cheguei ele me agarrou, me beijando. Não resisti. Eu sei que moralmente estávamos errados. Mas eu mandei o moralmente caçar sapo. Eu vi primeiro, não é minha culpa se ela deu golpe da barriga. Tá, assumo, exagerei. Mas naquele momento não estava pensando nela, estava pensando nele. Lindo, gostoso e quase nu.

Estávamos na casa de um amigo dele, que convenientemente tinha saído. Fomos pro quarto deixando as roupas pelo caminho. “Tava com tanta saudade do teu cheiro.” Disse ele cheirando minha nuca. Eu também tava com saudade do cheiro dele. Do cheiro, do gosto, da pegada, dos beijos e das carícias. Tinha esquecido o quanto ele era enorme. E gostoso. Começou a mexer o quadril dizendo: “Você é a única que eu amo.”

E começou um inquietante e delicioso movimento indo e voltando como uma onda. Começou a gemer no meu ouvido. Gemer e sussurrar. Depois nos girou na cama trocando de lugar, ele ficou deitado e me deixou sentada sobre seu corpo. Ficou um tempo me observando. Passou as mãos pelas minhas coxas, minha cintura, onde elas pousaram por mais tempo, e pelos meus seios. Levantou meu cabelo e veio beijar meu pescoço. Me olhou nos olhos e disse: “Nunca vou te esquecer, viu?” Me beijou demoradamente, enquanto me abraçava forte. “Eu também nunca vou te esquecer.” Me enrosquei ainda mais nele, que aumentou a intensidade dos movimentos. Por fim caímos exaustos na cama.

Ficamos deitados conversando até o dia amanhecer. Falamos dos amigos em comum, da minha vida na capital, do teatro, da formatura. Falamos das famílias, de como ele estava lidando com a nova pessoinha da vida dele e chegamos ao ponto crucial. O casamento dele. Era um casamento que ele não queria, mas ele não era do tipo que abandona. Não o Roberth. Então decidimos que a partir de então seríamos apenas amigos, e nada mais. Foi meio que uma despedida que nunca podemos ter.

Ele ficou acariciando meus cabelos e cantando pra mim. Tinha uma voz maravilhosa. Cantou todas as músicas que sempre cantava pra mim. Com o dia já claro foi me deixar na casa do meu tio. Dormi até a tarde, quando escutei alguém me chamando da calçada. Quando cheguei lá fora vi que era Virgínia, a mulher dele, com mais duas amigas. “Pois não?” “Eu queria pedir pra você deixar meu marido em paz.” “Sim, senhora.” Falei irônica “Mais alguma coisa?” “É melhor você nem aparecer mais por aqui.” Disse uma das amigas tribufus dela. “É o que? Eu ouvi direito?” “Isso mesmo.” Disse a outra. “Próxima vez que você se meter com ele vai ter problema.” “Isso é uma ameaça ou um desafio?” E entrei fechando a porta na cara delas.

Nenhuma me causou problemas, não eram doidas. Todo mundo sabia que eu tinha uma certa fama na cidade. E nenhuma delas teria me ameaçado se estivesse sozinha. Mas deixei pra lá. Em outros tempos eu, com certeza, o procuraria só pra ver o circo pegar fogo. Mas respeitava a escolha dele. E respeitava o bebê que nada tinha a ver com a história.

domingo, 28 de março de 2010

Good Romance

Numa balada conheci um professor de geografia chamado Leandro, estávamos num barzinho e ele me ofereceu um drinque. Começamos a conversar e quando eu disse que ainda estava no ensino médio ele ficou surpreso. “Achei que você tivesse uns 19 anos.” “Não, fiz dezessete a dois meses.” Notei que ele ficou apreensivo, mas continuou conversando numa boa. Quando saíamos do bar ele disse: “Queria muito que você fosse maior, mas não posso.” “Qual o problema?” “Você é louca? Se pegam a gente...” “Então vamos não ser pegos.” E entrei no carro dele.

Leandro era muito carinhoso. Quando chegamos ao apartamento ele colocou uma música suave, abriu um vinho e ficamos conversando e nos beijando no sofá. E só. Ele não tentou nada mais afoito. Umas três da manhã foi me deixar em casa mesmo eu assegurando que não teria problema se eu dormisse lá. Mas ele era um cavalheiro. Me deixou em casa e esperou até que eu subisse e ligasse avisando que estava tudo bem.

Começamos a nos encontrar com certa freqüência. Ele me pegava depois da dança (porque ficava perto da escola onde ele ensinava) e íamos ao cinema, jantar ou ver uma peça de teatro. Acabávamos sempre dando uns amassos (comportadíssimos) no sofá. Mas um dia eu quis mais. Estávamos nos beijando no sofá e eu fui, delicadamente, subindo a mão pelas suas coxas. Ele percebeu minha manobra e foi tentar tirar minha mão de lá. Eu disse: “Porque você não relaxa?” E coloquei sua mão no meu seio.

Fui tirando a blusa dele vagarosamente. Depois desabotoei a calça e tirei minha blusa. Só então ele me agarrou de verdade. Parece que foi tomado de um desejo repentino. Meu sutiã voou longe, assim como minha calcinha. Ele sentou no sofá e me colocou em seu colo. Olhou nos olhos e disse: “Você me enlouquece, sabia?” Segurou meus cabelos e beijou meu pescoço. Enquanto a outra mão deslizava entre minhas costas, meus seios e minhas coxas.

Eu gemia alto no ouvido dele e isso o deixava louco, porque ele me agarrava cada vez mais forte. Ficou em pé comigo agarrada em sua cintura, caminhou até a mesa e me sentou nela. Acabamos juntos. Suados e tremendo. Ele me abraçou e disse: “Você me tira do sério.” Fomos tomar uma ducha. Namoramos um pouquinho mais. E sempre que eu começava terminávamos assim, tendo o segundo round no chuveiro.

Quando ele começava fazíamos amor como Romeu e Julieta, demorado, carinhoso e delicado. Não que isso fosse ruim. Mas quando não muda o disco vai cansando um pouco. E ele era do tipo que serve pra casar. Me enchia de mimos e gentilezas. Me dava flores e chocolates, que eu adorava. Ele era também bem mais velho que eu. Tinha 32 anos. Queria alguém pra namorar sério. E eu queria curtição. Fui sincera com ele.

Claro que ainda nos divertimos várias vezes. Mas notei que foi ficando realmente muito sério quando ele quis me apresentar aos pais. Foi então que eu terminei. Disse que o adorava, que ele era (muito muito) muito gostoso e que sentiria sua falta. Mas nossas intenções eram completamente diferentes e eu não queria mentir nem falsear. Ele entendeu. Às vezes sonho com ele e sempre acordo extremamente feliz, se é que você me entende.

sábado, 27 de março de 2010

Bad Romance

Nas minhas andanças nas baladas da capital conheci um rapaz chamado Luke. A gente só se cumprimentava de longe, mas numa festa ele veio falar comigo. Disse que tinha me achado linda e queria me beijar. Ele era um pouco mais alto que eu, bem forte, tatuado e tinha o a cabeça raspada. Tinha uma personalidade contagiante, era muito engraçado e sempre contava as melhores histórias.

Ficamos umas três vezes em baladas, mas ele gostava de raves. Sabia onde tinha as melhores. E me chamou pra ir a uma. Fui com a Michele e encontramos ele e os amigos lá. Dançamos muito, beijamos muito e ele disse que queria namorar sério comigo. Que queria que eu fosse só dele. Achei super romântico, especialmente pelo carinho com que foi dito. Aceitei. Agora eu tinha um namorado.

O primeiro mês foi lindo. Ele era sempre muito simpático e carinhoso. Mas começou a ficar ciumento com os AA. Sempre perguntava por que eles tavam comigo e o que eles queriam quando ligavam. Comecei a notar que minha amizade com os dois o incomodava. Ele fechava a cara assim que meu celular tocava e começou a chamar os meninos por nomes pejorativos.

Um dia, estávamos só nos dois na casa dele quando meu celular tocou, era o André me dizendo que conseguiu um emprego. Fiquei muito feliz por ele, há dias que ele fazia entrevistas. Assim que desliguei o Luke perguntou: “O que a bichinha queria?” eu perdi minha paciência. Mandei ir à merda. Ele levantou do sofá e me segurou pelos braços me encostando na parede. “Você acha que tá falando com quem? Com seus amigos viadinhos?” e me deu uma tapa.

Ele tava transtornado. Realmente possesso. Depois segurou meu cabelo e me jogou no sofá. Foi pro quarto. Eu confesso que fiquei sem ação. Simplesmente chorei. Fiquei ali por não sei quanto tempo. Depois, meio aérea, fui olhar meu rosto no espelho. Estava apenas um pouco vermelho. Nessa hora ele abriu a porta do quarto e envergonhado me pediu desculpas. Disse que tinha se descontrolado, perdido a cabeça, que nunca mais ia acontecer. Não sei por que acreditei nele.

Ele tinha uma maneira de falar que parecia tão verdadeiro, que era impossível descartar. Não contei aos meninos o que tinha acontecido, não disse a ninguém. Guardei e engoli meu orgulho. Tinha a esperança que fosse a última vez mesmo. Mas não foi. Outro dia, estávamos na casa dele com amigos. Eu recebi um torpedo do Átila contando uma piada. Ri alto e ele fechou a cara. Levantou e me chamou pro quarto.

Ele trancou a porta e perguntou já alterado: “Que mensagem foi aquela?” “Só um amigo mandando uma piada.” Falei com muita cautela no “amigo”. “Amigo, que amigo? Um dos viadinhos, né?” “Já pedi pra você não chamar assim”. Ainda teve um pouco de conversa, mas não é essencial. O que aconteceu depois foi que ele me jogou na cama e sentou na minha barriga. “Você não vai mais sair com esse viados, tá ouvindo?” eu comecei a gritar por socorro. “Cala a boca! Senão eu te encho de porrada!” Não parei, continuei gritando.

Ele manteve a palavra dele. Só parou quando os amigos dele começaram a bater na porta pra ele abrir. Ninguém veio me ajudar, simplesmente tiraram ele dali. Mas antes de sair ele pegou meu celular. Fiquei jogada no chão chorando me sentindo impotente e imbecil. Me levantei de súbito e fui pegar minhas coisas pra ir embora. Ele não deixou. Disse que eu precisava me acalmar. Só deixou que eu ligasse pra casa avisando que ia dormir na casa de uma amiga.

Fui pra aula no outro dia com um quilo de maquiagem no rosto. Sentei bem no fundo e fingi que dormia a aula inteira. Não falei com ninguém. Assim que acabou fui pro portão, Luke já estava me esperando. Pediu desculpas e disse que queria conversar direito assim que eu entrasse no carro. Eu recusei e bem nessa hora o Átila apareceu com o André me oferecendo carona. Luke ficou furioso. Eu entrei no carro do Átila e ele deu partida. Ficamos em silêncio por uns vinte minutos até que o André perguntou: “Aconteceu alguma coisa entre vocês?” Só consegui negar com a cabeça, mas não agüentei e comecei a chorar. Átila parou o carro e perguntou preocupado. “Que foi? O que ele fez?” Não consegui responder. Tirei um pouco da maquiagem dos olhos e eles viram o hematoma. Átila me abraçou e disse: “Se preocupa não. Estamos do seu lado.”

Era sexta e passei todo o fim de semana em casa. Mas no domingo à tarde os dois vieram me buscar. “Estamos indo à praia” achei muito estranho, especialmente por eles estarem de calça jeans e tênis. Mas entrei no carro assim mesmo. Fomos realmente à praia. Paramos num estacionamento e André perguntou: “Reconhece aquela land rover?” Gelei. Era o carro do Luke. Eles desceram cada um com uma marreta na mão e literalmente acabaram com o carro. Fomos embora sem ninguém ver a gente.

Acho que o Luke entendeu o recado, por que simplesmente deixou de me procurar. Por precaução andávamos sempre os três juntos. Assim ele não pegaria ninguém só. Mas nunca mais o vi depois disso. Ele nunca devolveu meu celular também, mas eu não era louca de ir atrás. Nesse dia percebi que os AA seriam meus melhores amigos pro resto da vida.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Meu primeiro ator

Depois da semana santa a nossa turma de teatro inteira combinou de sair pra balada. Começamos com um local mais light porque estávamos acompanhados por “pirulitos”. Mas depois das onze apenas os verdadeiros “baladeiros” ficaram. Nosso diretor estava junto, e também o grupo de teatro da mãe dele. O mais babado da cidade. Conhecido por ser o melhor e mais difícil de entrar. Só por convite. No meio deles um rapaz me chamou a atenção: Alto, magro, cabelos pretos no ombro e modelo.

As meninas estavam comentando o quanto ele era gato e possivelmente gay, por ser modelo. Mas eu não acreditava nisso. E descobri que elas tinham se enganado redondamente. Depois de umas três caipirinhas eu e ele fomos dançar, deixando as outras meninas com muita inveja. Porque além de muito simpático era, junto com os AA (André e Átila), um dos mais bonitos da noite. O local que estávamos era metade bar e metade boate, e tinha um jogo de luz fantástico.

Ele começou a falar o quanto ficava a vontade do meu lado, diferente das outras meninas, e eu sabia que a caipirinha tinha alguma coisa a ver com isso, mas deixei pra lá. As outras meninas fuzilavam a gente com o olhar e eu, pra frente que sou, tasquei um beijo nele, que apesar de surpreso retribuiu. Aí foi que elas ficaram com ódio mesmo.

Voltamos pra mesa e uma delas falou pra eu escutar: “Num perde tempo, né?” “Não mesmo, especialmente se não tenho competição porque as outras acham que ele é gay.” Peguei mais um drinque e acendi um cigarro, meu professor disse: “Se você soubesse o quanto bebida e álcool são prejudiciais a um ator, você não fazia isso.” “E se você soubesse que além de eu não dar a mínima você não é meu pai, você ficava na sua. Aqui eu sou sua amiga, se você quiser, não sua aluna.” E voltei pra pista de dança.

Depois um dos companheiros do grupo dele convidou todo mundo pra terminar a noite em seu apartamento. Assim que chegamos começamos a beber vinho. Mas fui completamente censurada quando acendi um cigarro. Acender o baseado que eu tinha na bolsa seria um escândalo. Geralmente atores são tidos como maconheiros e bacantes, mas esse grupo tinha uma filosofia natureba diferente.

Fui fumar meu beck no terraço. E adivinha quem me acompanhou? O Lucas, o André e o Átila. Fumamos e o Lucas contou como era a dinâmica no grupo. Além da diretora geral (mãe do meu diretor) havia dois “subdiretores”. O Beni, que era gay e a Simone, que não era. E confessou que fez teste do sofá pra entrar, mas não disse com quem. Disse que meu diretor também era uma maneira de entrar.

Começamos a nos beijar e os dois outros voltaram pra festa que acontecia no sexto andar. Ao redor as janelas dos outros apartamentos. Se alguém olhasse pela janela veria nós dois ali. Os beijos foram ficando mais sugados e sem perceber estava desabotoando a camisa dele. Ele desabotoou minha calça e tirou tão rápido que saiu com tênis e meia. Depois desabotoou a dele. Tirei minha blusa e meu sutiã. Pegamos alguns lençóis que estavam num varal e jogamos no chão.

Ele puxava forte meu cabelo e ficava falando no meu ouvido. Tinha uma voz grossa que aumentava ainda mais o tesão. E como sabia mexer! Tinha uma barriga tanquinho maravilhosa, e como tinha o cabelo um pouco comprido dava pra agarrar também. Ele começou a brincar com o ritmo. Fazia mais rápido, mais lento, bem mais rápido e bem mais lento. E ia me deixando louca. Tanto que lhe dei uma mordida no ombro. Mas ele adorou, me agarrou mais forte.

Uma chuva fina começou a cair, mas nem atrapalhou a gente. Pelo contrário, refrescou nossos corpos e se misturou com o suor. Os nossos cabelos pingavam quando o dia começou a amanhecer. Lá longe um pouquinho de amarelo se juntava ao laranja e ao azul claro que restava da noite. Nos vestimos e voltamos pro apartamento onde todos dormiam. Encontramos uma cama de solteiro vazia e deitamos lá. Ficamos conversando até que outras pessoas acordassem. Mas tudo ficou em segredo. Não só esse dia. Ficou em segredo por mais cinco meses.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Apolo e Dionísio

Na aula de tetro conheci dois carinhas muito legais. Tinham acabado de se mudar e eram filho de uma cantora famosa. Os dois eram gêmeos idênticos, mas como sempre, diferente na personalidade. Mas duas personalidades bem rock and roll. André tinha um estilo bem skatista, com blusões folgados e boné. Gostava mais de hardcore e tinha vários brincos nas duas orelhas, além de um piercing transversal. André, quando não saía com o irmão, andava de moto.

Átila era mais rock and roll. Tinha o cabelo vermelho, cavanhaque e também um piercing transversal (os dois colocaram no mesmo dia). Escutava músicas nos estilos de David Bowie e Led Zeppelin, tinha um Del Rey vermelho e tatuagem. Usava também calças frouxas, mas as blusas geralmente eram regatas. Átila era mais conversador e sedutor. André era um pouquinho mais tímido, mas ainda assim um sedutor também.

Nos exercícios de teatro aprendemos que existem dois tipos de ator. Um que cria através da técnica: Apolo, e outro que cria através das emoções: Dionísio. André era Apolo, mais centrado, mais estudioso, mais observador. Átila era Dionísio, mais sagaz, impetuoso e cheio de lábia. Não só nas criações teatrais, mas na maneira de viver também.

Os dois se completavam e tinham uma ligação que beirava a paranormalidade. Um dia, conversava a sós com André na portaria do colégio quando ele, do nada, tomou um susto. Ficou até pálido. Minutos depois Átila chegou comentando: “Nossa, um carro ia me atropelando ali na esquina, levei o maior susto.” Outra vez, só pra provar que tinham mesmo essa ligação inexplicável, Átila pegou o celular do bolso e disse: “o André liga já.” E começou brincar como se fizesse um feitiço. Exatamente três minutos depois o telefone tocou deixando todos nós assustados. No outro lado da linha? André. Também gostavam de terminar as frases um do outro. E quando precisavam chutar uma resposta nas provas sempre chutavam a mesma resposta. Até em questões subjetivas.

Começamos a ficar muito amigos. Amizade pura e simples. Conversávamos sobre tudo. Ficas, família, sexo, música e dor de cotovelo. Depois de uns três meses de aula eles vieram estudar na minha sala. Então nossa amizade ficou ainda mais forte. Descobri que tinham perdido um ano de escola pelas viagens da mãe.

André um dia me viu lendo um revista na sala, mandou um bilhete perguntando sobre o que eu estava lendo. Depois que respondi passou o bilhete pro Átila, que devolveu com mais questionamentos. A partir desse dia começamos a conversar na aula por bilhetes. Sempre que estávamos com tédio mandávamos uma pergunta cabeluda pros outros dois responderem.

As pessoas estranhavam que uma menina fosse tão amiga de dois meninos. Meninas tem que ter melhores amigas, não amigos. Mas me sentia muito mais confortável com eles. Depois da aula, quando não tinha treino, nem dança, íamos à praia. Tirávamos o uniforme e tomávamos banho no mar. Eu de calcinha e sutiã, eles de cueca. André usava samba-canção, Átila preferia box.

Os dois também eram músicos. Átila tocava baixo e André bateria. Michele começou a tocar guitarra (pessimamente, diga-se de passagem), eu virei vocalista e começamos uma banda chamada John Bender. É claro que ela se jogou em cima deles. Mas eu não tinha ciúmes. Ela estava numa fase de beijar e jogar fora, e eu não queria que ela fizesse isso com eles. Os dois eram caras muito legais, não mereciam esse tipo de coisa.

Mas aparentemente eles também só queriam beijar e jogar fora, porque ela só ficou uma vez com cada um. Não sei o que mais rolou. Eles nunca disseram apesar da minha insistência em perguntar. Ela também nunca abriu a boca, e comecei a suspeitar que eles tivessem ficado os três ao mesmo tempo.

Nós também tivemos um caso a três. Mas já tínhamos terminado o colegial. E não foi ao mesmo tempo. Mas foi no mesmo período. Só que essa é outra história.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um tablado, dois atores e uma paixão

Segunda semana de aula e recebi um comunicado. “Você conseguiu uma vaga na aula de teatro”. Agora além da dança, do vôlei e do piano eu teria aula de teatro. Cheguei à sala já atrasada porque fiquei batendo papo com as meninas do vôlei e esqueci do novo compromisso. E notei que a professora não gostou muito disso.

Ainda com roupa de treino (a coladinha era só pra jogo) sentei no chão, na roda de pessoas com batinhas indianas e calças de algodão. Me senti diferente deles. Eles usavam brincos e anéis de coco, roupas naturebas (se é que isso existe) e cabelos ao natural. Cachos e ondas sem produtos que as adestrasse. As meninas não sabiam o que era um esmalte, os meninos tinham a barba por fazer e alguns eu não diferenciava o gênero.

A professora, chamada Dora, começou a falar sobre os métodos de avaliação e as produções de fim de ano. Depois contou a história do teatro. Onde surgiu, com quem e o significado das duas máscaras. Depois fizemos um exercício pra relaxar (fazendo caretas uns pros outros). Eis que nesse momento a porta abre e dois irmãos entram estabanados na sala.

Dois irmãos gêmeos (acho que atraio). Um tinha o cabelo espetado vermelho, blusa regata e calças frouxíssimas. O outro usava um boné pra trás, camisa enorme e corrente no pescoço. Levaram bronca assim que entraram. Pegaram o bonde andando e no fim a professora chamou nós três pra conversar. “Não admito atrasos. Essa foi a última vez.” Depois se virou e saiu, e nós descobrimos que seríamos as ovelhas negras. Nos apresentamos e eles me deram uma carona pra casa.

Nas aulas seguintes chegamos na hora. Fazíamos alongamento e eu pela dança era mais elástica que os naturebas (era assim que a gente chamava), que faziam teatro desde sempre. Não sei por que eles pareciam não gostar de mim. Um dia um deles disse olhando pra mim: “Essas modelos que querem aparecer na malhação estragam a profissão do ator.” Eu respondi sem dar muita bola: “Nossa, que dramático.” E notei que eles tinham certa tendência a dramatizar tudo.

Eu não tinha nenhum interesse em ser atriz profissional, mas gostava das aulas e da idéia. Eles odiavam isso. Achavam que eu não teria compromisso. Deixava bem claro pra eles, se tivesse que trocar ou trocaria. Tinha paixões mais antigas, não ia abandoná-las pelas convicções de outras pessoas. Mas adorava os exercícios e as leituras.

Porém nada se comparava com meu dom. Foi essa professora que descobriu que eu tinha um talento natural pra reproduzir posturas e gestos. Num exercício ela pediu que imitássemos um colega de sala. Escolhi uma menina aleatória. Deduziram com facilidade quem era. Daí em diante Dora começou a me ver com olhos diferentes. O que, para os naturebas, foi o fim da picada.

Não chegou a ser uma guerra declarada, mas era notável o desconforto deles com a minha presença. Até que um dia a professora me perguntou se eu não acharia melhor ir para outra turma. Ela já tinha falado com o professor que ficou muito feliz em me receber. Os dois meninos ficaram muito tristes em saber que eu ia pra outra turma, estávamos bem amigos. Na realidade éramos os únicos amigos uns dos outros.

Então eu impus uma condição: “Eu vou, se os gêmeos forem também.” Foram aceitos na hora. Passamos pra turma mais “amadora”. Eles eram bem mais “felizes” que a outra turma. Não existia a briga de egos, apenas amor à arte. O professor, Alberto, era filho de uma grande diretora da cidade. E, fiquei sabendo depois, o “passaporte” pra entrar no grupo dela.

terça-feira, 23 de março de 2010

New money

No primeiro dia de aula do meu 3° ano tive uma surpresa. Acanhada, a um canto uma velha amiga parecia não se encaixar direito naquele cenário. Quando a cumprimentei ela ficou genuinamente surpresa e pareceu que tirou um peso enorme das costas. “Oi, Michele. Senta pra cá, é onde nossa turma fica.” Como já me conhecia ela estava aceita na turma, que, aliás, ficou muito mais unida nesse ano.

Michele falou que entrou no nosso colégio porque o pai dela, que era separado da mãe, era suplente de um senador que morreu em exercício. Ele assumiu o cargo e agora ela era filha de um senador. E tinha que estudar na melhor escola da cidade. Michele agora entrava na alta sociedade e por causa da mãe dela entrou com o pé esquerdo. Não a culpo, ela não teve uma rainha de Genóvia como eu.

Helena era uma mulher brega e desbocada, que assistia muita TV e lia romances de banca de revistas. Jogava num bar toda noite e namorava um caminhoneiro que dava em cima da Michele. Foi o máximo quando ela descobriu que o ex marido era senador. E pediu uma pensão gordíssima pra ele. No mesmo mês comprou móveis (breguíssimos), uma geladeira nova e começou a reformar a casa. No outro comprou um carro. E contratou um motorista.

Esse tipo de comportamento denotava exatamente o tipo de pessoa que ela era. Sem classe. Nunca tinha visto um talher de peixe, não sabia o que era RSVP, mas tinha toda a pose como se soubesse. Ninguém é obrigado a saber. Mas se quer entrar nesse mundo de festas e eventos requintados tem que, pelo menos, estudar um pouco. Não sair esbanjando pra mostrar tudo o que (não) sabe ou tudo o que tem.

Michele acabou entrando na onda da mãe. Agora ela tinha dinheiro, podia comprar o que quisesse, o que desse na telha. Começou a andar com as patricinhas, tirou o rastafári, ia fazer compras no shopping, ao salão de beleza e trocou as calças de skatista por jeans coladinhos. O que ela não sabia era que por trás as Patys ficavam comentando o quanto ela era sem estilo e uma “nova rica”.

Mas nem tudo estava perdido. Depois de algumas semanas eu e Michele éramos amigas de novo como se Ariel nunca tivesse acontecido. Comecei, aos poucos, a dar dicas e explicações sobre certas coisas e pessoas. Passei pra frente todo o ensinamento que D. Zilda me deu. Não sei se tão bem quanto ela. Mas no nosso grupo, e principalmente na escola, eu era um modelo de estilo.

Michele demorou um pouco, mas logo pegou o jeito da coisa. Dispensamos o motorista desnecessário, começamos a ir ao salão nós duas e a apresentei aos amigos do Jóquei clube e do Iate clube. Mostrei a diferença entre dia e noite (não literal). De dia você é uma moça respeitável, alinhada, sempre educada e sorridente. À noite somos nós mesmas. Festas e bagunças.

Fiquei feliz por ela entrar nesse mundo sufocante dos eventos sociais. Era alguém que junto comigo vivia duas vidas. Com quem eu podia contar nos dois lados. Não tinha mais segregação. É claro que ela ainda tinha coisas pra aprender, mas isso viria com o tempo, como foi comigo. Mas agora eu não precisava mais ficar só.

O mais difícil, claro, era convencer a mãe dela de que o menos era mais. Um dia voltávamos da escola quando notamos que havia um grande churrasco em frente a casa da Michele. A mãe dela tinha fechado a rua e chamado o bairro todo pra comemorar seus 43 anos. Depois de bêbada cantou o que quis e o que não quis e tirou muitas, muitas fotos. Deixei bem claro pra Michele: “Se você não der um jeito na sua mãe pode esquecer sua vida social, porque você vai ficar marcada como a filha do senador e da brega.”

Michele entendeu meu recado. Conversou com a mãe. E ela aceitou fazer umas aulinhas de etiqueta. Aos poucos as estampas de oncinha sumiram. E fazer escova virou um hábito.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A morte da minha verdadeira mãe

Como já disse antes minha mãe era apenas alguém com quem eu convivia, chamava de mãe por puro protocolo e acatava certas ordens pelo bem geral. Mas o sentimento que eu nutria não era materno. Era mais fraterno. Claro que eu a amava. Ela era uma pessoa muito cativante e alegre. No quesito amizade. No quesito mãe era bem diferente. Chegava a ser distante e desinteressada.

Outra pessoa cumpria esse papel muito bem. Era D. Zilda, a esposa do vô. Além de muito inteligente era elegantérrima. E se interessava pela minha vida muito mais do que minha mãe. Me perguntava sobre boys e festas, me ensinava sobre contracepção e me dava broncas discretas. Como por exemplo: “Querida você foi à aula de dança hoje?” perguntava levantando os olhos do jornal que lia na varanda. “Não.” Eu respondia envergonhada. “E o que você acha disso?” ela dizia voltando à leitura. Não tinha muito o que responder. Ela também não dizia mais nada.

Foi no colo dela que eu chorei quando descobri que o Roberth ia casar e ser pai. Foi pra ela que contei que tinha entrado na escola de dança do Cardoso. Era pra ela contava as fofocas da alta sociedade. Era com ela que eu ia ao salão de beleza, que fazia compras. Ela era o “Em caso de emergência avisar:” na minha agenda do colégio. E o número um na discagem rápida do meu celular.

No segundo dia de férias acordei com o telefone da sala tocando. Corremos todos para o hospital. Ela teve um ataque cardíaco no começo da manhã. Estava bem, fora de perigo, mas em observação. Me ofereci pra ficar com ela no hospital. Na manhã seguinte voltamos pra casa. Mais alguns dias e ela passou mal de novo, o vô ligou no meio da noite. Fomos pro hospital mais uma vez.

Dessa vez ela ficou internada. Ligamos pros filhos dela e eles sequer vieram visitá-la. Ficou cerca de uma semana, fazendo exames e sendo examinada por muitos especialistas. Nenhum deles descobriu o que havia errado. Tudo dela tava normal. Colesterol, ácido úrico, leucócitos, pressão arterial. Não parecia haver nenhum problema, então voltamos todos pra nossa casa.

Ela passou vários dias bem. Dormindo bem, comendo bem, conversando bem. Até que uma noite percebi que alguém me cobria e me beijava na testa. Não pude ver quem era, distingui apenas uma silhueta contra a luz do corredor, mas meus olhos pesavam demais. E o afago me fez relaxar ainda mais. Há tempos não dormia bem assim. Sonhei com meu pai. Ele me disse alguma coisa que não consegui entender. Vestia um terno branco.

Acordei com a imagem dele na minha cabeça. Quando cheguei à cozinha vi que meu vô olhava distante pela janela da varanda ainda de pijama. Acho que nunca tinha visto meu vô de pijama. Minha mãe chorava no telefone e minha avó andava pra cima e pra baixo. Eu nunca fui burra. Mas nesse momento precisei de uma informação direta.

“O que houve?” perguntei só pra ter certeza, porque saber eu já sabia. Minha mãe respondeu: “D. Zilda...” ela nem precisou dizer o resto. Fui até o quarto. Ela parecia tão calma, tão serena. Acho que tinha até um sorriso no canto da boca. Me ajoelhei e fiquei olhando seu peito, procurando por um mínimo sinal de respiração. As vezes tinha a impressão que mexia.

Segurei sua mão, chorando. Estava um pouco gelada e levemente pálida. Mas seu rosto continuava rosa. Fiquei ali sentada ao pé da cama nem sei quanto tempo. Só levantei quando as pessoas que iam levá-la chegaram. Mas a ficha ainda não tinha caído. Até o enterro minha ficha não tinha caído. Não chorei no velório e nem no enterro. Um primo meu veio me questionar. “Porque você não está chorando? Não gostava dela?” Levou uma bofetada. Eu saí de lá e fui passear no jardim. Gosto de ficar só quando estou triste.

Acho que o vô também. Assim que achei um local longe e quieto pra ficar percebi que ele tinha me seguido. “Você tem um daqueles cigarrinhos aí?” perguntou assim que sentou do meu lado. Tirei o baseado da bolsa e acendi. Só então meu vô chorou. Chorei junto com ele. Ficamos ali em silêncio até que meu irmão chegou chamando a gente pra missa. Uma cerimônia simples e elegante como ela. De todas as pessoas que passaram pela minha vida ela é, com certeza, uma das que mais sinto saudades.

domingo, 21 de março de 2010

Antes só que mal acompanhada

Decididamente eu estava em maus lençóis. De um lado duas meninas completamente sem noção me puxando pro mundo sem noção delas. Do outro uma amiga que tinha uma noção bem errada do que era a vida. Ariel chegou ao cúmulo de brigar com o Flávio. Ele geralmente relevava tudo, numa boa. Mas acho que se cansou das grosserias dela. Só comigo ela parecia baixar a crista. Quando ela queria mostrar a ignorância dela comigo, eu mostrava a ela que era três vezes mais ignorante, então ela desistia.

Teve na cidade um show do Angra. Foi numa casa de shows longe do nosso bairro e eu fui com ela e o Flávio. Lá encontramos todo mundo das nossas ex-turmas. Urubus e não urubus. Até o Marco tava lá (e agente ficou). Ariel tinha conseguido um emprego na galeria do rock e começava a ter mais contato com o pessoal da cena underground. Ela conhecia os integrantes da banda que abriria a noite.

Ficamos um tempo batendo papo, beijando na boca (eu e o Marco) e bebendo. Um pouco depois Ariel resolve dar um mosh (pular do palco na galera). A gente fazia muito isso na Division Bell, era tranqüilo. Mas o público lá era selecionado. Ali só tinha pirangueiro e piriguete. Basta dizer que ela ficou toda arranhada, com a roupa rasgada e desmaiou. Me perguntaram depois porque não a impedi. “E eu sou a mãe dela?”.

É claro que os urubus adoraram a cena. Foi meio que uma catarse. E o episódio virou a fofoca do bairro. Quando fui no Blitzkrieg devolver a jaqueta do Marco escutei todos em roda comentando e rindo. Pedi que parassem. Se era pra comentar que comentassem na frente dela. “Tá defendendo ela, agora?”

Eu fui a única que vi como ela ficou depois. Desmaiada, jogada no chão como uma trouxa de roupa velha. Não foi uma cena bonita. Desisti dela ali mesmo. Mas não deixei de cuidar dela. Consegui que nos deixassem entrar no camarim do Angra enquanto eles não chegavam e briguei com os integrantes que queriam tirá-la à força dali simplesmente porque eles eram o Angra.

Depois disso saí com ela cada vez menos. Só mesmo quando ela ia na minha casa e via que eu não tava fazendo nada. Porque se ligasse eu dizia que estava ocupada. Ela foi entendendo a deixa e ligou e apareceu cada vez menos. Também o Flávio não apareceu mais. E sempre que a via ela estava só, sem ele.

As outras duas Tina e Isabel tinham o comportamento ainda mais destrutivo. Viviam num excesso o tempo todo. Tudo era em excesso. Bebida, sexo, drogas, festas. Todo dia tinha uma festa, todo dia era motivo pra beber, todo dia tinha um “fumo do bom” ou uma coca “limpinha”. E com uma facilidade tremenda apareciam com ecstasy e comprimidos. Sabiam como fazer chá de cogumelos e bolo de maconha.

No começo achava que era uma grande aventura. Vê-las pular de droga em droga e saírem ilesas. Não precisava experimentar. Sempre me diverti apenas com meu fumo relax. Mas com elas comecei a cheirar e descobri que se continuasse viraria uma magrela drogada que nem elas. Meu ritmo de jogo começou a cair e sempre chegava atrasada. Não agüentava mais o tempo todo em quadra e ficava sempre muito mais exausta no final. Também comecei a faltar as aulas de dança. Levei um monte de bronca por isso. Nem digo o que aconteceu no colégio. Pela primeira vez tinha ficado de recuperação. E mais. Só passei pelo Conselho de Classe. Os professores se reuniam e selecionavam aqueles que mereciam a chance de passar. Como eu não era uma das bagunceiras recebi essa chance.

Foi quando saí do colégio com o boletim na mão que percebi o quanto minha vida tinha mudado. O quanto eu tinha mudado. Implorar a um professor que não te reprove é chegar ao fundo. Principalmente se você é uma aluna com histórico azul. Percebi que estava sendo levada pra baixo pelos dois lados. Pelas amigas do colégio e pelos amigos do bairro. O bairro eu podia simplesmente deixar de andar lá, como já vinha fazendo. O colégio seria um pouco mais difícil. Resolvi mudar meus ares e meus amigos. E comecei me matriculando na aula de teatro.

sábado, 20 de março de 2010

Groupie

Andando com a turma do colégio conheci duas meninas piradas. Isabel e Tina. Tina era loura e bem, bem, bem magrinha. Parecia até doente. Não tinha peito nem bunda e era modelo. Isabel era bem branca, também bem magra e tinha o cabelo chanel preto, o que comparado com seu corpo franzino ficava desproporcional. Fumava feito uma caipora e tinha os braços tatuados. Eu não era muito amiga delas, apenas colega. Mantinha certa distância de certos assuntos.

Secretamente eu chamava as duas de Cocão e Desbundada. Mas saía com elas por falta de coisa melhor. Pelo menos elas tinham amigos bonitos e ricos, saíam pras festas mais badaladas e conheciam o que havia de mais fino na cidade, entre pessoas, drogas e lugares. As duas cheiravam muito pó, pela profissão de modelo, e fumavam muita maconha pela pressão de viver na nata branca da alta sociedade.

Um desses amigos da nata era o JP. Um gordo tarado que era um dos maiores produtores de shows da cidade. Era ele que trazia bandas como Angra, O Rappa, Raimundos, Ratos de Porão e até o Blaze Bayley pra cidade. E foi por causa dele que assistimos, no primeiro Ceará Music, o show da Cássia Eller do palco.

Mas ele era mais gentil com elas, entendi porque depois. Elas iam pra casa dele onde os três bebiam, fumavam maconha e cheiravam pó à vontade. E depois ele fazia ensaios fotográficos com elas nuas. As duas tinham 16. Ele fazia promessas de ajudá-las na carreira de modelo e dava o quanto elas quisessem de maconha e pó. A Tina soltou que às vezes ele ficava nu também e se masturbava enquanto batia as fotos. E que com certa freqüência contratava michês para apimentar o ensaio. JP gostava de assistir as meninas sendo penetradas e, depois ia brincar a sós com os garotos.

Porém a verdadeira festa acontecia depois de algum show. Geralmente estava a banda toda e os produtores, mais amigos íntimos. A bebida e a maconha rolavam soltas, mas o pó era consumido restritamente. Os homens mais velhos adoravam a seleção de jovens garotas bêbadas (não éramos as únicas) e lhes prometiam mundos e fundos. Algumas acreditavam. Eu preferia os músicos. E somente os bonitos. E dificilmente ficava com algum vocalista. Preferia os baixistas e bateristas. Não sei por que eles me atraíam mais.

Comecei a colecionar baquetas e cordas de baixo. Um dia estava beijando um baterista, quando abri os olhos percebi que a Tina estava entrando num quarto com mais três caras, e que a Isabel tinha sumido. Algumas meninas ainda estavam na sala, mas todas elas já beijavam ou tinha a mão (ou mãos) dentro das calças de alguém. Fomos procurar um local mais calmo pra gente. Entramos num quarto, mas o casal que “ocupava” uma das camas não se incomodou com a nossa presença. Meu baterista quis ficar, eu recusei, decidimos ficar no banheiro, que era enorme e tinha banheira.

Depois daquela noite fui dormir na casa da Tina. Ela pediu que eu guardasse o pó dela na minha bolsa, o pai dela que não era bobo suspeitava que ela usasse drogas e vasculhava as coisas dela. No outro dia eu tinha um jogo bem cedo. Acordei exausta e lenta, a maconha ainda fazia efeito, e não podia jogar daquele jeito. Se dissesse pro técnico que tinha farreado na noite anterior ele me tiraria do time, responsabilidade era a coisa número um. Lembrei do pó que tinha na bolsa. Sabia muito bem como preparar e cheirar. Fiquei tão elétrica que tive medo de dar na telha, mas ninguém percebeu. O jogo foi tranqüilo.

Descobri mais uma diversão pras festinhas do JP. Agora além de beber, fumar maconha e transar com músicos eu também cheirava pó. Quando dei por mim tinha uma gaveta cheia de crachás VIPs, baquetas e cordas de baixo. Não lembrava o nome dos caras que tinha ficado, nem de que banda eram. Não lembrava detalhes de certas noites. Tinha no quarto um esconderijo de maconha e pó. Acordava nua ao lado de estranhos sem saber como tinha chegado ali. Às vezes mais do que um na mesma cama. E percebi que tinha atingido a decadência. Dei um basta. Eu era jovem, bonita e talentosa demais pra deixar minha vida se esvair assim. Mandei as “amigas” pro inferno e decidi abrir meus horizontes.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Rompendo Relações

Tudo começou quando a Ariel fez um comentário sobre a roupa da Michele: “Com essas calças você parece uma sapatão.” A Ariel tinha um comportamento meio digo-tudo-na-lata. Comigo ela nunca tentou nada, acho que ela tinha medo que eu jogasse alguma coisa nela, mas com as outras, de vez em quando, dizia umas coisas insensíveis. A Michele, em vez de mandá-la à merda (como qualquer pessoa faria), foi se justificar. “Eu gosto de usar roupas assim, é meu estilo.” As duas quase entraram na tapa ali mesmo, e depois desse dia deixaram de se falar.

A briga foi entre ela e a Ariel, não entre ela e o grupo todo, mas a Michele deixou de sair com a gente e começou a andar só com o Grogue e os urubus. Ela ainda falava com a gente, mas não éramos mais sua turma. Me perguntaram se eu não iria tentar uma reaproximação. “Eu? Foi ela que deixou de andar com a gente.”

Então sobraram cinco. Mas a Natália caiu na besteira de contar pra mãe dela que fumava maconha. Foi mandada pra Universal do Reino de Deus. A coitada da mãe dela era namorada de um pastor de lá. Que, aliás, sempre que me via queria me converter, mas eu dizia com todas as letras: “Não posso, sou bruxa.” Ele pegava a bíblia e começava a recitar os capítulos e versículos. “Você renega ao senhor todo poderoso?” “Não.” “Mas você diz que é bruxa, bruxos são seguidores de satanás!” “É que eu sou uma bruxa boa.” E caia na gargalhada.

De repente ela começou a andar com saias abaixo do joelho, blusas de mangas compridas e abotoadas até o pescoço e com uma bíblia na mão. Mas o pior foi quando realmente fizeram a lavagem cerebral e ela veio com o papo de crente pra cima da gente. Chamava a gente de pecadores, dizia que as meninas estavam desvirtuadas e toda essa lengalenga. Deixamos de andar com ela também.

Então sobraram quatro. Mais um mês e o Tales conheceu uma nova garota que se mudou para o bairro. Não só ele se apaixonou, como todos os outros. E não sei o que eles viam nela, porque ela era tão insípida que dava nojo. Mas o Tales foi o grande ganhador do coração da donzela (sim, descobrimos que ela era donzela). Todos nós achamos que não ia durar muito, mas ela deu as ordens e ele deixou de andar com a gente. Nunca chegou a dizer que ela não deixava, apenas estava sempre “ocupado”. Deixou de beber, fumar (as duas coisas) e mudou o visual. Pensando bem, acho que ela deve ter feito um trabalho pra ele, porque ele mudou do vinho pra água.

Com os outros três longe, ficamos eu, Flávio e Ariel. Meia turma. Não era mais a mesma coisa. Não era mais tão divertido. As piadas ficavam rapidamente sem graça, as fofocas perdiam o sentido. Sentia falta de conversar com as outras, mas elas sempre estavam ocupadas demais pra mim. Deixamos de sair com tanta freqüência pra lugares fora do bairro. Ficávamos sempre ali, com as mesmas pessoas, com as mesmas conversas. Comecei a dormir cedo, a estudar mais, me concentrar em outras coisas.

Fiquei mais próxima dos amigos do colégio. Recusava cada vez menos os convites deles. Me entedia mais com as meninas, saía com elas para fazer unha e massagem. Passeávamos no shopping, fazíamos compras e contávamos cada uma das calorias que comíamos durante o dia. Saía com filhos e netos de grandes empresários da cidade, aparecia em colunas sociais e achava aqueles eventos cada vez menos entediantes.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Quebrando a primeira regra

A In Omnia Paratus se reuniu mais cinco vezes depois do dia que conheci o Gambit. Sempre em mansões e em locais ermos. Nesse dia estávamos numa casa à beira da praia. Na areia privativa uma grande fogueira ardia. Mais a frente uma piscina recebia os convidados. E logo atrás um gramado extenso com tapetes e lampiões.

Avistei o Gambit assim que cheguei. Ele sempre me cumprimentava com um beijo na boca. Antes da acolhida sentamos no gramado e fumamos um baseado. Não sei se por causa da maconha, ou se por que relaxava completamente com ele, eu comecei a falar sobre meus problemas pessoais. O que era terminantemente proibido.

Nem percebemos que tínhamos quebrado uma regra. Seguimos a noite como se não tivéssemos um problema. Depois do leilão de novatos e do grito In Omnia Paratus fomos relaxar na piscina. Junto com muitos outros colegas. Ficamos nos acariciando assistindo, ao nosso lado, uma mulher que fazia sexo com dois homens.

Curtimos a noite inteira, juntos e separados. Mas dois dias depois percebi que tínhamos feito uma grande burrada. Cheguei no colégio e assim que abri meu armário avistei um envelope azul dentro. “Você quebrou uma regra. Terá uma punição.” Só tinha isso escrito. Deduzi que o Gambit tenha recebido uma igual. Mas deduzi que ainda não estávamos expulsos. Se o contato partia sempre deles bastava não mandar mais nenhuma carta. Em vez disso deixaram bem claro que nós seríamos punidos.

Descobri o que era a punição. Ficamos três meses sem saber o local da reunião. Eu até recebia carta, mas vinha sem endereço. Selada com cera branca, carimbada com o brasão e envolta na fita prateada. Mas era apenas uma folha em branco. Isso me deixava cada vez mais ansiosa. Parecia que o tempo não passava e a cada carta que chegava eu me desesperava pra ler.

Sentia muita falta do Gambit. E não podia falar pra ninguém. Ele era o único amigo que eu tinha lá dentro. O único amigo que sabia meu segredo. Passar quatro meses sem vê-lo foi sufocante, angustiante. E se eu soubesse onde funcionava a administração da In Omnia Paratus iria lá pedir desculpas. Viver sem ele era muito mais difícil.

Mas enfim a quarta carta chegou. E havia um endereço nela. Meu coração quase não cabia no peito. Pulei feito uma mongol no corredor do colégio. E na sexta, estava lá como esperado. Entrei procurando por ele. E assim que me viu deixou no vácuo uma garota que tentava impressioná-lo com sua beleza óbvia e amadora. Pedi muitas desculpas. Foi por minha culpa que ele perdeu três encontros. Foi por minha culpa que não nos vimos por três meses.

Ele sorriu. Me abraçou com seus braços compridos, que fazia eu me perder dentro deles. Nunca descrevi o Gambit. Era alto, branco quase pálido e tinha olhos grandes e negros. Os cabelos eram na altura do queixo, meio sem corte e pretos também. Não era forte, mas era definido e esbelto.

Quase no fim da noite e depois de um beck ele disse: “Fiquei triste por uma coisa. Quando a gente ficou sem se ver eu tentei lembrar de ti. Mas nunca vi teu rosto. Conseguia lembrar do teu corpo e da tua voz. Mas não teu sorriso. Nem dos teus olhos. Queria poder te ver.” “Também queria.” Passamos o resto da noite nus, deitados na grama e olhando as estrelas.

Talvez os dois especulassem a mesma coisa. Que talvez existisse um meio de nos vermos fora dali. Mal sabíamos que estávamos no meio de um segredo guardado a sete chaves. E que quebrar as regras era extremamente perigoso. Fisicamente perigoso.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Lindo, gostoso e cafajeste

Com a Irene fora do jogo eu e o Marco começamos a ficar sem preocupações. Um dia ele pegou o carro do Tales emprestado e foi me buscar no colégio. Fomos pra casa dele, que morava só. Lá fumamos um baseado e começamos a nos agarrar (ainda na sala). “Ah, como eu sonhei com isso.” Disse ele desabotoando minha blusa. Ele tirou tão rápido que achei que eu tava pegando fogo. Mas colocou a mão por baixo da minha saia e tirou minha calcinha lentamente.

“Você é mais gostosa do que eu pensava.” Disse beijando meu pescoço. “E com essa saia me deixa louco!” Me levou pro quarto e tirou a roupa. Como era gostoso! Do tipo que quando a gente olha sente formigando lá em baixo. Que faz a gente ter pensamentos pervertidos. E como sabia usar as mãos! E a boca! Mexia o quadril do mesmo jeito que olhava: cafajeste. Daqueles que sabem que você quer mais, mas querem ouvir você pedindo.

Quando me dei conta era quase dez da noite. Passamos mais de cinco horas na casa dele. Bebendo, fumando e transando. Saímos de lá e demos uma passada na Blitzkrieg, pro Marco entregar o carro do Tales. Conversamos um pouco com o pessoal e depois eles foram me deixar em casa.

O Marco começou a me pegar no colégio quase todo dia. Ou no treino de vôlei. Ou na academia de dança. Passávamos a tarde na casa dele e a noite íamos nos juntar ao pessoal. Criamos certa intimidade. Eu podia, por exemplo, pedir que ele comprasse meus absorventes que ele ia sem medo. Eu já tinha roupas e escova de dente na casa dele. O que começou a gerar comentários sobre um possível namoro. Mas não nos considerávamos namorados.

Mas depois de um tempo a gente começou a se encontrar cada vez menos. Ele tinha entrado no batalhão de choque, começou a andar menos no mundo underground. Geralmente ele colocava e tirava a farda no próprio batalhão. Mas um dia deram uma carona pra ele. Eu tava fumando um sozinha no quintal do Blitzkrieg quando ele chegou por trás e me deu um susto. Tirou a boina e disse: “É, vou ter que parar com essa vida.” Pegou o beck da minha mão e fumou seu último baseado.

Assim que apagou me agarrou. Nos beijamos e ele tirou o casaco camuflado e a blusa da farda. Trancou o portão que dava acesso ao quintal e me colocou sentada em cima de uma pia que tinha lá. Rasgou facilmente minha blusa dos Raimundos e tirou minha calça sem nem abrir o zíper. Mas tirou cuidadosamente minha calcinha. “Essa eu vou guardar de lembrança.” Disse sorrindo e colocando a calcinha do Patolino no bolso.

Eu coloquei novamente a boina na cabeça dele: “Dá mais tesão assim.” Disse em seu ouvido. Ele me abraçou tão forte que achei que fosse me quebrar ao meio. Fez a cara de cafajeste que só ele sabia fazer e começou a mexer o quadril vagarosamente. Ele sabia que isso me deixava louca, e que eu acabava pedindo pra ele acelerar.

Ele sentou numa cadeira e me fez sentar em seu colo, de frente pra ele. “Você é muito linda, sabia? E fica ainda mais com essa luz.” Disse acariciando meu rosto. A luz era a lua gigantesca no céu. Ele me abraçou forte de novo. Envolveu minha cintura com os braços e colou o corpo no meu. Meu corpo começou a se movimentar involuntariamente.

Nosso balanço ficou mais agitado, ele gemia mais alto que eu. Na verdade eu não conseguia fazer nenhum som, só abraçá-lo com todas as minhas forças. Ele me beijou e mordeu meu lábio de leve enquanto seu corpo tinha espasmos. Foi então que um choque gelado percorreu minha coluna fazendo com que eu me debatesse.

Fiquei um tempo ali mesmo, aninhada em seu peito. Ele me abraçando e olhando pra lua. Eu quebrei o silêncio: “Porque seu nome é Marco, e não Marcos?” Ele respondeu lindo e simples: “Porque eu não sou dois.” Depois deu uma tapa forte na minha bunda e disse: “Desde a primeira vez que eu te vi sabia que você era gostosa assim.” E deu uma gargalhada.