terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Uma provinciana na corte

Com Michele e sua turma eu comecei a conhecer a cidade. Antes eu morava num interior onde todo mundo se conhecia pelo nome, agora estava numa capital, onde se tinha que pegar ônibus pra todo canto. Era uma significativa mudança de cenário.

Um desses lugares era um centro cultural que era rodeado de bares, restaurantes e boates. Mas tinha um problema, minha mãe às vezes só me deixava sair se meu irmão fosse junto, e ele nem sempre queria colaborar. Mas era só oferecer um cigarro de maconha ou dois que ele topava. Ah é, esqueci de dizer, descobri que ele começou a fumar bem antes de mim.

Esse centro cultural era o point da cidade. Todas as tribos, todos os gostos e todos os gêneros. Do playboy ao pirangueiro, do gay ao pit boy, rock, forró, reggae e eletrônico. Numa rua eram os barzinhos de MPB, atrás ficava a rua do reggae, no outro quarteirão era a cena underground, mais pra frente às boates gays e no centro de tudo as disputas entre forró, funk e pagode, pra saber quem tinha o som mais potente. Espalhadas estavam as boates “comuns”.

Eu gostava de rock e reggae (comecei a gostar de eletrônica nos meus 17), na sexta eu ia pro reggae (na Lion) e no sábado pros festivais de rock (na Beltane, no Casarão ou na Division Bell), onde às vezes a banda do Alex tocava. E quando não ia pra essa miscelânea a gente ficava curtindo na casa ou do Tales ou do Gil. Bebendo um vinho, fumando um e escutando rock.

Mas eu também saía com um pessoal do colégio. Não da minha sala, mas filhos ou sobrinhos de alguém que conhecia meu padrinho. Éramos apresentados por educação, mas sempre achávamos algo em comum pra fazer. Como por exemplo, quando tinha corrida no jóquei clube e nós bebíamos e fumávamos maconha atrás dos estábulos. Eu, vestida a rigor com chapéu e salto. Depois ficávamos rindo a toa das corridas.

Ou quando alguém fazia aniversário e sempre fazíamos uma festa própria sem supervisão dos adultos. Mas o melhor acontecia quando éramos convidados para eventos maçantes e disputávamos pra ver qual de nós fazia a melhor travessura da noite. Eu ganhei no dia que mandei a banda embora e fiz (por conseqüência) todos os convidados cantarem no karaokê e quando, no aniversário de 75 anos de um dos mais ilustres empresários da cidade, eu contratei três strippers, que fizeram o show ali, na frente de todo mundo.

Mas meus amigos também eram bons. Um, certa vez, colou todas as bolas espalhadas na mesa de bilhar de forma a parecer um jogo corrente. Outro colocou a marcha fúnebre pra tocar numa festa de batizado. E outro fez uma chamada anônima para a polícia dizendo que um defunto estava carregado de cocaína, a polícia foi averiguar e apalpou o morto. O defunto? Era tio dele.

Nosso lema era “Tudo por uma gargalhada” e só depois soube que era um treinamento para entrar numa sociedade secreta. (outra história). Eu preferia ficar com os meninos da classe A. Eram mais asseados e bonitos, metaleiros geralmente são feios e sujos. Claro que tem exceções. Fiquei com alguns limpinhos e gatos, mas eram uma raridade.

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