Primeiro tive que fazer uma prova. E sem a Tibby lá foi difícil fazer as questões de matemática. Segundo que tive que usar um uniforme que era calorento. Sabe aqueles uniformes de escola particular americana? Numa cidade que marca 32 graus na sombra é exagero. Mas ninguém se importava porque todo mundo tinha carro com motorista. Eu era a única que pegava ônibus.
Minha nova escola tinha todas as frescuras que colégio americano tem. Com alguns ajustes. O menino mais bonito da escola (intocável) era sim o capitão do time de futebol, a namorada dele (a menina mais popular) não era líder de torcida, mas era uma super modelo da cidade. Todos os meus colegas de sala eram filhos de grandes empresários e socialites. Eu era uma reles filha de veterinário e funcionária pública. Mas tinha um padrinho rico. Então era aceita na alta sociedade.
Todo começo é um pouco difícil, mas é mais difícil quando se está só, numa cidade que você não conhece e com todas as suas amigas morando a 90 km de distância. Mas eu tive treinamento como “bad ass” não ia ser agora que eu ia amolecer. Eu estava acostumada a pular minha janela de madrugada pra ir a festas, a beber e namorar carinhas mais velhos, a matar aula pra ir à praia e criar novas artimanhas pra colar nas provas. Eu era uma “bad ass”.
No meu primeiro dia de aula uma retardada resolveu que seria uma ótima humilhação pra mim se ela jogasse chiclete no meu cabelo, não só o chiclete saiu facilmente como eu a fiz engolir ele depois. Dias depois colocaram tinta de caneta no corrimão, eu fiquei com a mão azul. No outro os bonitinhos que fizeram isso tavam com as bundas pregadas nas carteiras. Depois de mais alguns trotes mal elaborados e dos meus executados com certa finess, eles decidiram me deixar em paz.
Por me entender melhor com gente mais velha ganhei logo respeito dos professores, com um deles tive até um affaire. A gente meio que se encontrava (na casa dele) quando dava vontade. Eu tinha professores até bem gatos, mas todos com certa reputação pra manter, não iam se meter com alunas (só mesmo o “bad ass” do Alex pra fazer isso).
Meu colégio era composto por dois prédios anexos, eles tinham escadas e corredores de acesso de um para o outro. O menino mais bonito (que pra mim era extremamente sem sal) tinha um batalhão de guarda costas composto por suas colegas de sala e as amigas da namorada, elas impediam que qualquer pessoa não autorizada chegasse ou passasse perto dele, e ele ficava no prédio 2 na hora do intervalo. Como o acesso por esse prédio ficava “interditado” todo mundo ia pelo prédio 1, que ficava completamente congestionado.
Depois de descobrir que alguns alunos especiais (mais ricos) tinham uma cantina privativa e que eu estava, sem saber, exatamente nela, resolvi dar uma passada na biblioteca. Que ficava? No prédio 2. Entrar pelo prédio 1 naquela hora iria demorar o triplo do tempo. Então fui para o prédio 2. Assim que comecei a subir as escadas, as guarda costas se puseram como uma parede. Fingindo-me de mongol continuei ate que cheguei a um degrau delas. “Você tá perdida?” “Que gentileza sua perguntar, mas não estou perdida, obrigada” e fui tentar passar, outra falou: “Ninguém pode passar enquanto o Willian tiver por aqui.” Eu fiz minha melhor cara de “bad ass” subi o degrau (ficando mais alta que elas) e disse colando minha cara na dela: “Você e que exército vão me impedir?” Não as culpo por terem afastado.
Outra vez, enquanto ainda morava no interior e ficava 2h num ônibus, fui com um tênis azul, em vez de preto como era pra ser (aliás, eu era a única no colégio que usava all star, tinha verde, azul, vermelho, preto e a bota). Assim que me viu o coordenador me chamou. “Porque você veio com o tênis azul?” “Porque meu preto tá molhado da chuva.” “Vou ter que mandar você pra casa.” “Por quê?” Me indignei. “Porque duvido muito que você só tenha um tênis preto e porque ontem não choveu.” disse o seguinte sem alteração de voz ou afetação: “Aqui não choveu, mas na minha cidade sim, a cidade que eu moro a 90 km daqui e de onde todo dia eu pego um ônibus as 5h pra chegar aqui as sete. Se quiser me mandar embora por causa de um tênis saiba que o senhor vai me fazer passar 4h na estrada pra nada. Então vamos ser razoáveis? Me deixe assistir aula?” Depois dessa ele só pode ser razoável.
Outros que eram bem razoáveis comigo eram os funcionários, acostumados com adolescentes esnobes e fúteis, baixavam a guarda comigo. Com um dos zeladores eu sempre dividia um cigarro depois do almoço. E a atendente do refeitório começou a me dar o melhor bife e o maior pedaço de bolo depois que eu joguei suco de uva num garoto que foi rude com ela (só porque ela era negra). Um dos seguranças sempre que eu chegava dizia: “Bom dia, linda” ao que eu respondia: “Bom dia, gostoso.” O que ele era mesmo (e nós tivemos um affaire depois que eu saí da escola). E eu nunca deixei de dizer “bom dia, obrigada e por favor” a cada um deles.
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