segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

E meu pai virou uma estrela

Nós éramos uma família feliz, daquelas que estavam completas nos domingos, que saíam pra passear, fazer compra de super mercado. Morava eu, a mãe, o pai, o irmão, o vó, a vô e a bisa. A vó era mãe da mãe, o vô era pai do pai e a bisa era mãe do vô. A vó e o vô estavam inteiros, lúcidos, o vô jogava poker quase todo dia, e fumava Bali Hai (cigarrinho feliz indiano). A vó fazia bolos pra mãe vender no trabalho (era funcionária do DETRAN), e jogava bingo aos sábados. Era a vó que cuidava da casa quando a mãe não tava. A bisa, coitada, num dizia coisa com coisa, a gente na época achava que ela era só velhinha mesmo (96 anos bem vividos), depois descobrimos que ela tinha Alzheimer. Mas ela tomava banho, comia e usava o banheiro sozinha. Às vezes ela reconhecia a gente e dizia: “Menina você tá tão grande, cresceu muito desde a última vez que te vi.” Ela não mentia, tecnicamente ela tinha me visto há uns oito meses atrás.

O pai era veterinário, com especialização em animais de grande porte, ele trabalhava pra um fazendeiro dono de cavalos que corriam no jóquei clube da capital. A fazenda era bem longe de onde morávamos de modo que ele passava a semana lá. O fazendeiro fazia questão que meu pai trabalhasse pra ele (sempre dizia que ele era o melhor), tanto que ele não se importava com os gastos de trazer meu pai tão de longe. Nas férias escolares o fazendeiro que também tinha filhos viajava pra Europa (ou coisa assim) e deixava a gente ficar na casa dele.

O pai era calmo e tranqüilo, a mãe era enérgica. Ele gostava de contar as histórias que escutava na fazenda, de boi tatá e lobisomem, pra gente dormir. E perguntava ate encher o saco o que a gente tinha feito na semana. Sempre ia pra reunião de pais e mestres da escola (pra se gabar do filho medalhista de natação e da filha que só tirava 10), e sempre tinha dúvida se o filme que era pra maiores de 16 era mesmo tão pesado. Ele adorava a Mafalda e o Zorro, fazia piada de tudo e deixava a gente (eu e o irmão) cozinhar o jantar às vezes.

Um dia, numa quarta-feira, voltando da escola vi um carro estranho na porta da minha casa. Quando cheguei o fazendeiro tava lá, e todo mundo chorando (incrivelmente ate a bisa, hora estranha pra ta consciente). Assim que eu entrei me deram a notícia. Meu pai tava no hospital porque teve um ataque cardíaco. “Estávamos só esperando você chegar pra irmos à capital.” Nem tirei o uniforme. Uma hora de carro e chegamos.

O fazendeiro enganou a gente. Ele tinha morrido pela manha. No caminho. Acho que ele fez isso pra diminuir o choque, mas eu fui eletrocutada. Fomos só liberar o corpo. Eu fiquei aérea. Acho que fiquei sem comer ate a noite. Quando voltamos pro interior fiquei sentada na calçada olhando pra rua sem pensar em nada. Às vezes achava que era uma pegadinha. Passei o funeral e o enterro todo assim, aérea. Chorei no fim do dia, só no meu quarto.

Uma estrela insistia em chamar minha atenção pela janela. Concentrei a atenção nela e aos poucos fui me sentindo melhor. Ate que adormeci profundamente. Sonhei que meu pai tava ali comigo, que dormia me abraçando. Especialmente na semana que se seguiu a bisa ficou lúcida. E não parava de perguntar pelo meu pai. A bichinha morreu um mês depois, de tristeza.

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