sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ébano e Marfim

No meio do ano um novato entrou na minha sala de música, nessa escola a gente tinha que fazer pelo menos uma arte, eu fazia duas: música e teatro (a partir do 3° ano). Deslocado como eu e ainda discriminado por ser o único negro da sala, eu fiquei logo amiga dele. Além de gato, gostoso e ótimo saxofonista era muito inteligente e simpático. Eu fazia o 1º ano, ele o 3º. Ele também era do time de basquete.

Foi o primeiro amigo que fiz realmente nesse colégio, que, aliás, esqueci de comentar, tinha uma série a mais. Além do 3° ano tinha mais um. Como se fosse um extensivo dos três primeiros, o colégio usava essa metodologia para amadurecer e preparar melhor os alunos vestibulandos. Esse último ano era focado exclusivamente nas provas e nas matérias de provas específicas. Assim, quem queria ser um futuro médico passava esse ano estudando detalhadamente química e biologia e revendo os conteúdos do ensino médio no geral.

Robson morava sozinho com o pai, a mãe tinha morrido num acidente de carro quando ele tinha doze anos. Nos entendíamos nesse conceito. Depois da aula, algumas vezes, eu ia pra casa dele praticar o piano. O pai dele tocava baixo e fazíamos meio que uma banda de blues (sendo bem otimista). Foi com eles que ouvi pela primeira vez o nome Willie Dixon. O pai de Robson era um dos melhores dentistas da cidade.

Ele não entendia como uma menina branca podia se interessar por blues, “Geralmente pessoas brancas assim como você gostam de Bach.” E dava uma boa gargalhada. Ele tinha uma impressionante coleção de vinis. E me deu de natal um da Billie Holiday que eu sempre olhava com desejo.

Eu e o Robson gostávamos de nos agarrar no sofá quando o pai dele não estava, mas ele era extremamente cavalheiro e não me tocava em lugares impróprios. Demorou uma eternidade pra ele tocar meios seios por cima da blusa, mais uma para tocar por baixo e se eu não tivesse colocado a mão dele, ele não tocaria por baixo do sutiã. Acho que ele tinha essa reserva pelo fato de que não éramos namorados, ele se sentia um pouco acuado.

No fim do ano tinha a tradicional festa de formatura, para os alunos do 3° e do último ano. Ele, claro, me convidou. Fomos no carro do pai dele (que só emprestou porque eu tava bonita demais) “Pra conquistar uma garota bonita assim você tem que estar dirigindo um carro”. Eu estava usando um tomara que caia roxo que tinha a saia de tule roxo, preto e rosa em camadas. Ele usava um terno risca de giz cinza sem gravata.

O mais importante aconteceu depois do baile, estávamos no carro dando uns amassos ao som de "You know my love" do Willie Dixon, quando ele falou no meu ouvido: “Toma conta de mim, tá? Essa é minha primeira vez.” “Não se preocupe, vou fazer com carinho.” E nos beijamos. Não preciso nem dizer o quanto as janelas ficaram embaçadas.

No último ano dele nos víamos bem menos. Ele estudando muito pra passar no vestibular de medicina e eu ocupada com treino de vôlei, academia de dança (voltei a dançar aos 16), com os estudos e os ensaios de música. Mas pelo menos uma vez por mês nos reuníamos pra tocar (não estávamos mais na mesma sala de música). Ele me disse depois que tinha falado pro pai dele sobre nossa noite no carro, mas os dois sempre foram muito discretos.

Acho que ficamos mais umas duas ou três vezes até ele se formar e ir estudar fora.

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