De todos os meninos com quem eu andava o Roberth era o que eu considerava o melhor amigo. Ele sempre era carinhoso com as meninas e nunca dizia que a gente não podia fazer algo porque éramos meninas. Era também lindo. Moreno, gostoso e tocava violão. Era o único que conhecia meu pai, e o único que foi no enterro dele.
Os meninos da minha turma (Roberth, Pedro H., Pedro L., André, Conrado e Marreco) começaram a se interessar por skate. Eu fui a única que entrei também de cara, mas depois que quebrei o braço meu pai me fez desistir de tentar manobras. “Assim você nem joga nem dança.” Tinha que concordar. Deixei de jogar uma final importante por causa disso. Mas andava em cima e gostava de ver os meninos tentando subir em coisas estranhas. Logo eles tavam participando de campeonatos nas cidades da redondeza, e nós garotas íamos junto torcer por eles.
Havia uma cidade a uns 40 km que era meio que o foco da cena underground. Lá as meninas se vestiam com roupas folgadas e eu era só mais uma na multidão. Começamos uma amizade com alguns rapazes (gatos) de lá. Lembro que todos tinham apelido. Popeye, Mosca, Bateria, Toca-fita, Pero Vaz e Sr. Miyagi (esse um japonês). E eles tinham entre 19 e 22 anos. Nessa época eu já tinha esquecido o “bad boy”.
Claro que cada uma se apaixonou por um. Eu pelo Pero Vaz (o único que não tinha cara de menino véi), A Lena pelo Mosca, a Carmen pelo Bateria e a Tibby pelo Popeye. Os únicos que deram certo foram A Lena e o Mosca e a Tibby e o Popeye. Eu e a Carmen só ficamos com eles uma vez. A Carmen quis ficar com outro e eu dei um soco na cara do meu.
Estávamos todos na casa do Popeye, bebendo e fumando (eles maconha), e o Pero Vaz me chamou pro quarto. Eu fui, achei que ia ser só uma curtição na boa. Nós começamos a nos agarrar, na cama, e ele tirou minha blusa e a dele, mais beijos e mãos bobas e ele quis tirar meu sutiã, não deixei. “Qual é gata, não tá afim?” “Não.” “Você é virgem?” “Sou.” “Eu prometo ser carinhoso” “Não quero” E essa última frase ele falou sério: “Ah, gata, agora é tarde, ajoelhou então vai ter que rezar”... Soco.
Sério? O cara achou que eu ia perder a virgindade com ele? Um cara que nem conheço? E ali? No meio de bêbados e maconheiros. Nem pensar.
Eu depressa vesti minha blusa e fui abrir a porta pra sair. Abri um pouco, mas ele empurrou fechando de novo. Quem tava fora percebeu que algo tava errado. “Você tá doida?” “Deixa eu sair!” “Mina pirada, vou te dar umas porradas também.” Lá de fora começaram a bater na porta pedindo pra ele abrir, mas ele trancou na chave e com um tabefe me jogou na cama. Eu comecei a jogar tudo que eu achava nele, livro, lista telefônica, sapato...
O Roberth arrombou a porta no chute e deu mais um soco no Pero Vaz. Eu corri pra perto dos meus amigos. E o Roberth me tirou dali. Saímos todos da casa e lá fora eu contei o que aconteceu, que ele queria que eu fizesse sexo com ele sem eu querer. O Roberth quis voltar pra dar mais uns tabefes, mas chorando e segurando a mão dele eu pedi que não. Dalí fomos pegar o ônibus de volta pra casa, ficamos em silencio toda a viagem, ele só largou minha mão quando chegamos na minha casa, fomos até meu quarto.
“Você tá bem?” só afirmei com a cabeça. Ele me abraçou e notei que ele tava mais alto que eu. “Nossa, você cresceu, você era mais baixo.” “Coisa boa de ser homem, a gente cresce depois dos 15.” E quase saindo pela porta ele disse: “Amanhã é meu aniversário de 16, a gente vai pra praia, cê vai né?” “Com certeza.”
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