Quando comecei a estudar no colégio novo ainda estávamos em horário de verão, depois ficou claro pra todos que nos não precisávamos de horário de verão porque nosso sol se levantava e ia dormir na mesma hora todos os meses do ano. Então em vez de pegar o ônibus às 05h na realidade eu o estava pegando às 04h. Morar no interior e morar com uma mãe desorganizada faz isso com a gente. Levava em média 02h pra ir, mais 02h pra voltar, eu passava cerca de 4h por dia na estrada. Quando eu chegava as 07h o colégio estava abrindo e eu fumava um cigarro enquanto o zelador varria o pátio. Mas o que vou contar agora não é, ainda, sobre o colégio, é sobre a estrada.
Eu comecei a estudar em fevereiro, bem no fim, e fiquei assim indo e vindo ate meados de abril, quando a gente mudou de vez. Nesse pouco mais de um mês, viajando sempre com as mesmas pessoas em algum momento alguém ia “criar laços”. Todo mundo se dizia “Bom dia, como vai?” Acho que éramos uns 30. Sempre os mesmos todos os dias. Gente mais nova que como eu ia estudar, ou gente mais velha que ia trabalhar. Mas tinha um cara, ele me dizia bom dia de um jeito diferente, tinha um belo sorriso e era sempre mais simpático comigo. Não sei se por causa do uniforme (saia xadrez, meia até o joelho e blusa de botão, bem americano como tudo naquele colégio) ele me achasse mais “doce e gentil”, ou se por causa do meu 1,72m ele tivesse pensamentos pervertidos.
Descobri bem cedo. Um dia ele sentou do meu lado, acho que na segunda semana, eu lia Lucíola para um trabalho de literatura e passamos a viagem toda conversando sobre o livro, acho que a parte doce e gentil ia embora enquanto eu falava tão tranquilamente sobre sexo. No outro dia eu já estava sentada quando ele subiu, era bem alto, branco, olho claro, esguio, não era bonitão, mas era bem charmoso e aparentava uns 38 anos. Assim que passou por mim disse: “Bom dia Lucíola.” E acenou com a cabeça indicando o fim do ônibus. Qualquer outra menina não saberia o que isso indicava, mas eu sabia. Esperei as luzes apagarem (eram 04h30min da manhã!, o motorista sempre dava mais uma horinha de sono pra gente), e fui lá pra trás. Ele já me esperava, sentei ao seu lado e começamos a nos beijar. Ele inclinou a cadeira de modo que lá da frente não nos vissem e me puxou, subi no seu colo e posso dizer que nessas horas estar de saia ajuda. Eu que abri seu cinto e o zíper, tirei uma camisinha do sutiã e o resto é história.
Tecnicamente ele era, naquele momento, um pedófilo, eu só tinha 14 anos (faltava um pouco mais de dois meses pra 15), mas meu corpo não era de uma garotinha indefesa, pelo contrário, o indefeso era ele, já que meu quadril era quem controlava o movimento. E pelos gemidos ele tava adorando. Nunca ninguém percebeu. E eu nunca soube o nome dele. Nunca perguntei. Ele me chamava de Lucíola, eu o chamava de Humberto (referência ao filme Lolita). Mas só pra mim. Nunca precisei chamá-lo de verdade.
Seguimos com os encontros sexuais na última poltrona até que eu me mudei de vez, disse a ele: “Amanhã vai ser nosso último dia, me mudo nesse fim de semana.” “Vou sentir saudade” disse enquanto víamos o sol nascer depois de mais um “romance”.
E realmente me mudei naquele fim de semana. O vi depois de uns dois anos. Estava no colégio que eu havia estudado, como convidada de uma festa de ex-alunos, quando o vi passar com uma mulher e duas crianças, esposa e filhos. Não nos falamos, apenas acenamos discretamente com a cabeça. Isso nós sabíamos fazer, ser discretos. “Don’t kiss and tell” regra número 1.
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