Desde os meus doze anos eu gostava de ficar sentada na calçada, anoite, vendo o movimento da rua. Minha cidade não era asfaltada e eu morava em frente a uma praça que era caminho da igreja matriz da cidade. Eu sempre fui muito observadora (isso me serviu muito para não entrar em encrenca), sempre gostei de escutar as pessoas falarem, contar suas histórias. E sempre aprendi de ouvido.
Meu vô jogava num bar no centro da cidade, e geralmente voltava com um rapaz (gato, diga-se de passagem) que morava perto na nossa casa, descendo uma ladeira. O nome dele era Sandro. Ele tinha que passar em frente a minha casa pra ir pra qualquer canto. Eu ficava assistindo ele passar. Lindo. Mas não era uma peça boa.
A história dele não é agradável. Ele tinha um irmão mais novo, chamado Renato. Os dois eram crianças quando a mãe deles foi assassinada pelo padrasto, que chegou em casa bêbado e achou que o jantar demorou muito a ficar pronto. Os dois assistiram a tudo. Ela levou nove facadas. Ela tinha sido colega de sala do meu pai. O marido dela morreu muito jovem, num acidente de carro. Meu vô dizia que ela era lindíssima. Um espetáculo de morena. Que ele, meu vô, se não fosse casado iria cortejá-la (ele falava desse jeito).
O Sandro, que tinha 18, tinha puxado a ela, forte, bonito, simpático, mas o Renato, de 16, era diferente. Era mais baixo e até um pouco feio, talvez pela cara zangada que levava o tempo todo. Não puxava conversa, ficava sempre na dele. Meu vô foi quem socorreu a mãe deles. Entrou no tapa com o assassino e tudo. Meu vô tinha uma cicatriz no braço de uma facada que levou.
Era sabido da cidade toda que eles cresceram meio desajustados, os dois eram usuários de drogas, roubavam casas, carros e lojas do centro de madrugada. Não juntos, cada um na sua. Mas parecia mais fácil pras pessoas entenderem e perdoarem o Sandro. Ele tinha um misto de Jekyll e Hyde. Pela manhã era um garoto normal, ia à escola, andava de bicicleta, subia em árvores, jogava bola. Anoite se transformava, andava descalço, só de bermuda e boné pra trás perambulando pela cidade, bebia muito e puxava briga com gangueiros.
Meu vô começou a ensiná-lo a jogar porque assim ele ficava em segurança. “Pelo menos ali eu to com ele.” E eu comecei a conhecê-lo melhor. Às vezes ele sentava na calçada comigo e ficava jogando conversa fora. Mas só comecei a sentir algo por ele entre os 13 e os 14. Era mais um carinho e cuidado. Paixão, nessa época, eu tinha pelo “bad boy” que era amigo em comum. Um dia depois do meu aniversário de 14 ele foi preso. Um novo delegado chegou na cidade e quis mostrar serviço. Ele ficou dois anos na cadeia.
Mas se tinha uma coisa que o Sandro tinha era estilo. Estilo no falar, estilo no sorrir, no andar. Até correndo ele tinha estilo. Não dava para não se desarmar com ele. Quando ele chegava e dizia “Boa noite” com aquele lindo sorriso despretensioso e sincero não tinha como não sorrir de volta. Ele tinha um jeito de andar, cadente, quase musical, e meu vô ajudava com os galanteios. Ele, apesar de descalço, conseguia ser elegante. E os dois eram elegantes, Jekyll e Hyde.
Mas a diferença de personalidade dos dois era notável. Pareciam dois irmãos gêmeos. Hyde ficava agressivo quando contrariado, se metia em brigas e era conhecido como baderneiro. Jekyll tinha um ar meio alheio ao que acontecia ao redor, parecia melancólico em tudo o que fazia. Mas de vez em quando o verdadeiro Sandro aparecia. Alegre, espontâneo e delicado.
Uma criatura fantástica, que eu amei como nenhum outro. Ele não foi o grande amor da minha vida. Mas foi o mais terno. É assim que me lembro dele, com ternura. Nossa história começou mesmo depois que ele saiu da cadeia. Mas esta é uma outra história.
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