Minha “vida louca, vida” começou aos treze, não sei se por influência de Christiane F., um dos primeiros livros que li mais de uma vez, ou se pelo meu próprio espírito aventureiro. Sempre gostei de fazer as coisas do meu jeito, e nunca admiti ser forçada a nada. “Ter que” eu nunca “tive que” porra nenhuma. Meu pai até entendia, mas minha mãe não. Logo os “choques de opinião” me fizeram ter mais contato com meu pai. Foi pra ele que falei que tinha menstruado a primeira vez, e com ele que fui comprar meus primeiros absorventes (a cara de terror do pobre!). Você pode até achar que ela sentiria minha falta, afinal esse tipo de coisa se faz com a mãe, mas a minha tava ocupada demais paparicando meu irmão. Minha mãe, minha avó, minha bisavó... Eu só não ficava de lado totalmente por causa do meu pai, e do meu vô. Engraçado como era trocado.
Eu sei, eu sei, “você deve estar exagerando, toda mãe gosta dos dois filhos igual”, blá blá blá. Se você diz isso é porque não foi o injustiçado. Enquanto meu irmão, 2 anos mais velho do que eu tinha quarto próprio com banheiro, TV no quarto, e mini system próprio, eu dormia com as vós, usava o único banheiro no final da casa, tinha o rádio da cozinha e a TV da sala. Eu era a que só tirava 10 (ele era repetente), que me interessava em estudar outra língua, que lavava a louça. Ele só era atleta da escola. Mas isso eu também era.
Isso me fez um pouco feminista porque meu pai trabalhava fora a semana toda, só voltava na sexta anoite, e durante a semana eu tinha que escutar que meu irmão tinha direito as coisas porque era “o homem da casa”. Um dia, quando eu tinha 13 anos completos, depois do almoço minha avó disse “Ontem você não almoçou em casa e deixou de lavar a louça, hoje não se esqueça de lavar” “Porque eu tenho que lavar?” Primeiro ela me olhou como se eu tivesse dizendo que era um macaco, “Como assim? Você sabe que não temos empregada, você tem que ajudar” “Mas porque EU tenho que lavar, porque ELE não lava?” Agora ela riu como se realmente eu fosse um macaco “Ora essa, porque ele é homem.” “E ele é aleijado por acaso?” “Mas um homem não pode fazer o serviço de uma mulher” Nessa hora, sem nem terminar de comer, me levantei e disse “ELE não é um homem, é um bosta de um menino.”
Nem terminei de escutar o que ela dizia, saí batendo a porta e fui dar uma volta na cidade. Ela foi ligar pra minha mãe no trabalho pra falar o quanto eu tava sendo malcriada com o Bruninho. Era uma quarta e teria que escutar grito ate sexta quando meu pai chegasse, o que de fato aconteceu. Meus pais não eram de bater na gente, mas fiquei de castigo. Porque eu tava querendo arrumar confusão e ser algo que eu não era. “Deus te fez menina, você tem que aceitar isso.”
Quando meu pai chegou saímos pra tomar sorvete, só nós dois, como sempre fazíamos, eu contei tudo. Disse que não aceitava ser tratada diferente porque em vez de um pênis eu tinha uma vagina, que meu irmão não era melhor do que eu em nada e que não ia mais aceitar esse tipo de coisa. E que agora que eu já tinha 13 eu queria meu próprio quarto, não queria mais ficar numa rede espremida entre duas vovós. Com meu pai eu podia falar francamente, diferente da minha mãe que eu sempre tinha que pensar duas vezes antes de dizer qualquer coisa.
Quando acordei no sábado meu pai estava, com meu avô e alguns pedreiros na garagem. “O que o senhor ta fazendo?” “Ué, seu quarto, a gente nunca guarda o carro na garagem mesmo” Corri pra abraçá-lo. Tá, confesso, chorei um pouquinho. Quando terminou, no final da tarde, meu vô me deu um punhal. “Pra que isso?” Ele me olhou sério e disse: “Pra você matar o dragão.” Obvio que eu não entendi, mas ele explicou. “Você não é o tipo de princesa que fica numa sacada, com vestido de bolo (sim ele disse isso), esperando que um príncipe que não tem o que fazer venha salvá-la, você é o tipo de princesa que veste armadura e vai caçar dragões. Por isso não pintamos nada, pra você fazer do jeito que quiser.” E meu pai: “Vou ter uma conversinha com a vó e com sua mãe, para não tratarem seu irmão melhor.”
E realmente funcionou. Muito a contra gosto meu irmão começou a aguar as plantas, dar comida aos passarinhos, lavar a louça. Meu pai me deu um mini system de aniversário (o que fez minha mãe perguntar “quanto foi”, e meu pai responder “ela merece”). E por um pouco mais de um ano fomos uma linda família perfeita e feliz. Um pouco mais de um ano porque meu pai morreu três meses depois do meu 14° aniversário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário