segunda-feira, 24 de maio de 2010

Mudando o ponto de vista

Todos nós ficamos felizes com o fato de que eu não estava grávida. Mas ficamos com uma sensação de que algo estava diferente. Eu me sentia estranhamente diferente. Como se tivesse faltando alguma coisa. Não conseguia saber o que era, mas tinha uma coisa que dava uma pista.

Sempre que eu pensava “e se aquele teste tivesse dado positivo?” me sentia tranqüila. Estranho, né? Antes do resultado eu tava desesperada. Mas quando pensava que teria Átila e André ao meu lado, era o suficiente. Quando pensava na idéia de ter um bebê com eles sentia uma ternura imensa.

Imaginava nós três vivendo juntos numa enorme casa com um balanço na varanda. Eu tinha um barrigão enorme e todo dia Átila e André conversariam com o bebê. Seria um problema pra registrar a criança, acho que não dá pra colocar dois pais numa certidão de nascimento. Mas mesmo assim imaginava que isso daria certo.

Comecei pensando que éramos casados, mas percebi que não precisava disso. Éramos devotos demais um dos outros pra deixar que isso fosse um problema. As outras pessoas, se é que teriam outras pessoas, seriam apenas uma distração. Uma mera diversão frívola, nada mais.

Depois comecei a pensar na minha vida. No tanto de coisas que já tinha vivido até então. No tanto de festas que tinha ido, no tanto de pessoas que tinha conhecido. Algumas delas não tão interessantes assim. Algumas bem barra pesada. Pensei nos caras que beijei, nas meninas também. Que, aliás, foram só duas. E eu estava ali, com 22 anos, desejando acalmar as coisas.

Talvez porque comecei cedo demais. Minha primeira farra foi aos treze. Idade que comecei a beber e fumar. Já tinha, portanto, quase 10 anos de estrada. Às vezes comparava com algumas colegas da faculdade. E as achava muito inexperientes. Ficava perplexa que algumas delas, com 19 anos, ainda pediam permissão aos pais pra ir a uma festa.

Comecei a pensar na minha trajetória desde que saí do meu interior. Tudo que tinha experimentado e conquistado. Percebi que fui notável por onde passei. E não digo isso com arrogância, digo com reconhecimento. Mereci todo o crédito que recebi. Trabalhei como se eu não precisasse do dinheiro e dancei como se ninguém tivesse olhando.

Me lembrei das minhas primeiras amigas. Das nossas descobertas e aventuras juntas. Das nossas brigas e da falta que sentia delas. Lembrei dos primeiros carinhas de quem gostei, do meu primeiro beijo e da minha primeira vez. Passou tudo na minha cabeça como um filminho.

Percebi o quanto eu tinha ido longe. E quase sempre só. Minha família de sangue estava ocupada demais com outras prioridades pra me dar importância. Percebi que cresci na marra e sem ajuda de ninguém ou manual de instruções. Percebi também que dali pra frente podia fazer qualquer coisa que quisesse. Mesmo que fosse ter um filho com dois homens.

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu adoro teus textos.