Depois que saí do hospital fui ao supermercado fazer compras. Quando terminei de pagar percebi que talvez não tenha sido uma boa idéia. Não tinha me ocorrido que carregar sacolas com o braço engessado seria uma árdua tarefa. Com muito esforço as coloquei no carro (ah é, comprei um carro) e fui pra casa. Tirava do elevador quando fui surpreendida por Átila.
Me ajudou mesmo eu dizendo que não precisava. Colocou as sacolas na mesa da cozinha e me ajudou, em silêncio, a guardar tudo nos lugares corretos. Ainda de costas perguntou colocando algumas coisas na despensa: “Fui eu que fiz isso, né Lu? Foi minha culpa.” “Foi um acidente, Átila.” Ele virou-se pra mim com uma lata de ervilha na mão. “Me desculpa.” “Tudo bem.” Mas ele não pareceu se perdoar.
Caminhei até ele que ainda segurava a mesma lata de ervilha. Tava cabisbaixo. “Átila, foi um acidente.” Ele virou-se. “Eu sei que você nunca me machucaria de propósito.” Ele não disse nada, apenas me abraçou. Um abraço longo e apertado, como choro preso na garganta. Conseguiu enfim guardar a lata de ervilha. “O que eu posso fazer pra recompensar?” “Que tal esquecer a merda que eu fiz com o André?” Ele olhou pra mim sorrindo com uma de “assim é demais, né?” “Prometo fazer o melhor que eu posso.” “E que tal se você viesse jantar comigo hoje anoite? Ultimamente como sozinha.” “Melhor, eu venho fazer a janta.” Disse me dando um beijo na testa e saindo.
Reapareceu por volta das seis. Ele começou a cozinhar e eu fiquei assistindo. Voltamos a conversar como antes. Parecia ter esquecido tudo o que tinha acontecido. Talvez tivesse só com a consciência pesada, mas eu não acredito nisso. Acredito que ele percebeu que não precisava passar por cima de tudo e todos pelo irmão. E eu mesmo com o braço engessado não tinha mágoa dele.
Tivemos um jantar super agradável. Comentamos os últimos acontecimentos e rimos um bocado. Mas não tocamos no nome de André. Eu comecei a tirar os pratos da mesa e ele falou: “Onde você pensa que vai?” “Lavar a louça.” “Com esse braço aí?” Rimos. Lá foi Átila lavar a louça. E eu fiquei do lado enchendo o saco dele. Quando terminou cobriu o escorredor com um pano de prato e se escorou na pia. Segurou minha mão e disse: “Você acha que vão voltar?” Aquela pergunta me pegou de surpresa. “Não sei, mas tenho a impressão que não. Pelo menos não agora.” “Ele disse isso, foi?” “Foi. Ontem anoite. Disse que precisava de tempo.” “Que bom.” “Por quê?” “Porque não vai ser errado fazer isso.” Me puxou pela mão e me beijou.
Demorei alguns segundos pra entender o que acontecia. “Que foi isso?” Ele olhou pra mim em silêncio, como se procurasse a maneira certa de dizer alguma coisa. “Fiquei com vontade de te beijar.” Mas sua expressão mostrava que não era só isso. Insisti um pouco e ele cedeu. “Faz tempo que quero te beijar.” “Quanto tempo?” “Muito tempo. Desde o dia que você me atacou no chuveiro. Desde aquele dia que penso em você o tempo inteiro.” Fiquei surpresa. Mas naquele momento era livre e desimpedida.
Sem dizer nada puxei Átila pela mão. Levando-o até meu quarto. Depois que tirei sua blusa chegou a dizer que não podia. Caminhou até a porta da sala, mas voltou de repente. “Ah, quer sabe? Foda-se.” Disse me beijando. Fomos para debaixo das cobertas. Meu braço atrapalhou um bocado e rimos muito durante a coisa toda, mas foi formidável. Átila era um amante espetacular.
Estávamos abraçados há algum tempo, olhei para Átila que parecia preocupado. “Que foi?” “O André não pode saber, isso ia acabar com ele.” Concordei. Continuamos abraçados e acabamos dormindo. Átila acordou assim que o dia raiou. Me deu um beijo na testa e saiu. E eu sorri. A partir de agora tínhamos um segredo.
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