Sabe como é angustiante quando você espera por uma coisa que nunca chega? Festa surpresa de aniversário, Papai Noel, férias escolares ou 13° salário, não importa. Esperar por todos eles é péssimo. Mas nenhuma sensação se compara ao horror que você passa quando espera sua menstruação e ela não vem. Você até já marcou na agenda numa tarde de terça-feira.
A sensação é: Você fica sem chão, sem rumo, sem respostas. Faz cálculos e olha repetidamente feito uma retardada pro calendário. Que, aliás, você já decorou de tanto conferir. Contar onze dias parece uma prova de física quântica. Ajuda se você usa os dedos, mas mesmo assim o conta não bate. Então você apela pra uma calculadora. E mesmo ela dizendo que dois mais cinco é igual a sete você desconfia. Tecnologia estúpida.
Foi mais ou menos isso que eu passei. Tá certo, confesso, foi exatamente isso que eu passei. E a cada dia em que minha calcinha aparecia limpinha meu desespero aumentava. Não só porque eu estaria possivelmente grávida, mas por não ter certeza de quem era o pai. Lembra que eu dormi com o Sandro num final de semana e com os AA na segunda-feira adjacente?
Fiquei dois dias com o Sandro, logo fui mais exposta aos soldadinhos dele. Mas de acordo com a minha tabela meu dia fértil foi a segunda-feira em que dormi com os dois irmãos. Se eu estivesse grávida do Sandro seria um Deus nos acuda! Minha mãe provavelmente morreria de um ataque cardíaco. Levando o resto da família com ela. E se o pai fosse um dos AA como eu saberia? Não adiantaria fazer um exame de paternidade. OS DOIS TINHAM EXATAMENTE O MESMO DNA!!!
Comecei a pensar nisso o tempo inteiro. Não conseguia me concentrar em mais nada. Nem no trabalho, nem nas aulas, nem na hora de colocar os produtos no carrinho do supermercado. Comprei três tipos de algodão diferentes e 14 latas de creme de leite. Átila foi o primeiro que notou que eu estava estranha.
Marcou uma noite de me ensinar a fazer yakissoba. Estávamos sós. E enquanto eu lavava a louça e ele enxugava perguntou: “Tá tudo bem com você, Lu.” Olhei pra ele confusa. “Tá sim. Tudo bem. Por quê?” “Porque você tá estranha ultimamente.” Eu estava com cinco dias de atraso. Quando ele fez a última pergunta comecei a chorar. “Que foi? O que tá acontecendo?”
Contei tudo. Inclusive sobre o Sandro. “Mas você tem certeza que está grávida?” “Não, mas sempre funcionou como um relógio. Nunca atrasou nem um dia.” “Vamos fazer assim: A gente conta pro André e ele faz um exame de sangue.” Lembram que André trabalhava num laboratório? Concordei. Depois Átila me abraçou. “Se você estiver mesmo grávida, o filho é meu. Pouco me importa se você dormiu com outro cara.”
Quando André chegou contamos pra ele. Que primeiro levou um choque e depois disse: “Eu não tenho material pra fazer aqui. Mas tenho um colega na faculdade que trabalha no laboratório do hospital no turno da noite. Ele é brother.” Fomos então ao tal hospital. Nem tive que preencher nada, foi só André coletar meu sangue. “Amanhã anoite tá pronto.” Disse o cara escrevendo ERDNAODAGIMAATAG no tubo com meu sangue. “O que é isso?” Perguntei. “Código. Lê de trás pra frente.”
Voltamos pra casa. André parecia mais preocupado do que Átila. Eu estava apavorada. Não sei se os dois conseguiram dormir. Eu num preguei o olho. “E se a criança nasce negra?” Pensei. Vou ter que falar com o Sandro. E ele vai se perguntar por que eu esperei até o bebê nascer pra contar pra ele. E eu vou responder: “Porque assim, eu sou meio galinha e não sabia quem era o pai.”
Foi então que, quase com o dia claro, senti a dor mais gratificante da minha vida. Uma dorzinha bem familiar no pé da minha barriga. Corri pro banheiro para atestar que era verdade. Vesti minhas calças e fui bater na porta dos dois. Átila abriu a porta e eu pulei nele. Ele me abraçou e disse para André que se aproximava: “Não precisamos mais pegar o exame amanhã.”
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