Depois que Michele se mudou fiquei só no apartamento, mas não por muito tempo. Nayana, que vivia tranqüila em casa, viu sua vida transformar-se num pesadelo quando a namorada do irmão foi morar na casa dela. A garota engravidou (segundo Nayana num belo golpe) e o irmão a trouxe pra morar com eles. Irmão esse com quem eu já... Pois é.
A menina usava a gravidez como desculpa pra tudo. “Esse quarto é muito calorento, o das meninas é mais ventilado.” Lá iam trocar de quarto. “Esse detergente me dá alergia.” E ela era dispensada de lavar a louça. “Esse leite em pó me dá azia.” Ou “Desde pequena como pão de forma sem casca.” E os gastos com supermercado aumentavam exponencialmente.
Ela tentou implicar comigo uma vez. Soube que eu e o “marido” dela (ela chamava assim) tivemos um caso breve. Estávamos no quintal conversando e ela olhou pra mim dizendo: “Quem tem marido que segure, porque tem umas catirobas aí doidas pra pegar o homem das outras.” Nem esperei mais nada. Dei-lhe um lindo tabefe no meio da cara. Ela se fez de vitiminha, mas Madame Suzete disse quando passei por ela: “Ela tava merecendo, minha filha.”
E Nayana sofria mais do que todo mundo, exatamente por ser irmã preferida de Érico. Então na primeira oportunidade ela veio morar comigo. Duas semanas depois que os AA me perdoaram e tudo ficou bem. Na verdade ela só não veio antes porque não tinha emprego. Foi bom morar com alguém de novo. Dividíamos bem mais do que contas. Dividíamos sonhos, saudades, gargalhadas e xampu.
O que aconteceu foi que a tal amiga com quem Michele foi morar resolveu dividir o teto com o namorado. E Michele ficou sem ter pra onde ir. Depois de falar com os AA e com Eric decidiu vir falar comigo. Primeiro pediu desculpas pelo modo como tinha me tratado no episódio com André. Disse que não tinha o direito de dizer o que disse e que estava profundamente arrependida.
Depois me contou a história por alto. Aparentemente ela estava sendo despejada da casa da amiga e não tinha mais canto pra morar. Sabia que Nayana tinha se mudado na noite anterior e disse: “As coisas dela ainda estão empacotadas. É só dizer que eu voltei.” “Amiga, eu te perdôo, mas sinto muito. É ela quem mora aqui agora.” Ela deu meia volta e saiu.
Nayana soube que Michele tinha pedido pra voltar. “Não tem problema, Lu. Eu volto pra casa. Se ela tivesse morando aqui eu estaria em casa mesmo.” “Mas ela não tá morando aqui. Desculpa, mas não vou deixar você sair daqui por isso. Qual é? Ela saiu, se mudou, pronto. Agora quer chorar no leite derramado?” Michele ficou com Eric alguns dias e por sorte um apartamento vagou.
Eu disse que a tinha desculpado, mas lá no fundo ainda estava bem chateada. Não ia desaparecer apenas com uma desculpa esfarrapada daquelas. Especialmente porque o que a motivou a pedir desculpas foi o fato de ter virado uma sem teto. Não porque tinha realmente se arrependido do que tinha feito. Inclusive me pareceu que ela estava fazendo de má vontade.
Mas voltamos a nos falar com regularidade. Nos encontrávamos com o resto da turma pra almoçar, íamos fazer as unhas e conversávamos sobre as últimas fofocas do campus. Nós tínhamos uma história que não dava pra apagar assim tão fácil. Eram anos de farras, brigas, risos e cera quente. Pra mim era um sentimento estranho. Mas sabia que com o tempo tudo voltaria ao normal. Sempre voltava.
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